Mortalidade materna: prevenção e resposta rápida são essenciais para reduzir índices

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A estratégia do hospital de Vila Nova Cachoeirinha, nova integrante brasileira no Patient Safety Movement (PSM).
O Hospital Municipal e Maternidade Escola de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte da cidade de São Paulo (SP), é o mais novo integrante brasileiro no programa internacional Patient Safety Movement (PSM), sigla em inglês para Programa de Segurança do Paciente). Referência em partos de alto risco, a instituição desenvolverá estratégias de combate à hemorragia pós-parto e de redução de mortalidade materna. O programa PSM é uma iniciativa da fundação que leva o mesmo nome, sediada nos Estados Unidos. A organização sem fins lucrativos quer zerar as mortes evitáveis em hospitais até 2020. As instituições que aderem ao PSM – hospitais e serviços de saúde – assumem o compromisso de aprimorar seu desempenho em uma das 16 áreas para qual o PSM já desenvolveu soluções detalhadas de segurança (conheça as 13 soluções já traduzidas para o português). As instituições devem reportar suas iniciativas e dados anualmente para o PSM. No Brasil, o IBSP – Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente é um parceiro do PSM, e pode ajudar serviços de saúde a fazer parte do programa.
O Hospital Municipal e Maternidade Escola Dr. Mário de Moraes Altenfelder Silva, mais conhecido como Vila Nova Cachoeirinha, assumiu o compromisso de aprimorar suas estratégias de segurança obstétrica. A maternidade, que realiza cerca de 600 partos por mês, é referência em atendimento à gestante de alto risco na cidade de São Paulo. O foco do serviço ao aderir ao PSM será reduzir a mortalidade materna por hemorragias intraparto e pós-parto (HPP). A condição é uma das principais causas de morte materna. Nas últimas décadas, o Brasil reduziu as mortes em 56%, mas ainda não cumpriu o compromisso firmado com a Organização Mundial da Saúde (OMS) de chegar a 35 mortes maternas a cada 100 mil nascidos vivos. Em 2015, ano em que a meta deveria ter sido alcançada, foram registrados 62 óbitos maternos a cada 100 mil nascidos vivos. Em algumas regiões do país, os dados são alarmantes: chegam a 300 mortes de mães por 100 mil nascidos vivos.
O Brasil já tem nova meta firmada com a OMS para mortalidade materna: reduzir seu índice para 30 mortes maternas a cada 100 mil nascidos vivos. O Hospital de Vila Nova Cachoeirinha já conseguiu atingir o índice de mortalidade materna estipulado internacionalmente: a clínica obstétrica registrou nos últimos anos 29,6 mortes maternas a cada 100 mil nascidos vivos. A ginecologista e obstetra Vera Denise de Toledo Leme, gerente assistencial da clínica obstétrica da Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, afirma que uma revisão dos dados da instituição mostra que não houve morte materna por hemorragia pós-parto na clínica desde 2015 – um marco que a maternidade se esforça para manter.
A estratégia da Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha para a hemorragia intraparto e hemorragia pós-parto é concentrada em dois eixos definidos: nas ações preventivas e na resposta rápida a emergências, áreas também enfatizadas pelas ações sugeridas pelo PSM. “É necessário desenvolver estratégias consistentes na identificação do risco antes mesmo do parto, ainda no pré-natal”, afirma Vera.
Um dos fatores de risco encontrados com frequência entre as gestantes atendidas na instituição é a anemia. Se já há níveis baixos de hemoglobina antes do parto, qualquer perda sanguínea de volume um pouco maior pode virar uma ameaça – além de prejudicar a resposta da paciente ao tratamento no caso de hemorragia. Na rede pública, o hemograma costuma ser realizado apenas no primeiro semestre da gravidez. “O ideal seria ter esse acompanhamento durante os três trimestres para que se tenha tempo hábil para correção”, diz Vera. A Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha pretende estender essa discussão à Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e ao Ministério da Saúde.
Ainda no campo da prevenção, a Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha trabalha para melhorar a identificação e classificação do risco no pré-natal, no acolhimento e na monitorização objetiva das perdas sanguíneas durante o parto. “Hoje, essa quantificação é subjetiva, mas agora teremos uma metodologia para torná-la objetiva”, afirma Vera. Todas as compressas serão pesadas, assim como o volume dos líquidos aspirados serão medidos. “A mensuração objetiva para todas as pacientes será rotina”, diz Vera. A perda acima de 1.000 ml desencadeia o protocolo de emergência, que na instituição ganhou o nome de Código H.
O protocolo de resposta rápida tem como objetivo resolver o problema na primeira hora, conhecida como “hora fatal“. Simulações serão feitas para treinar a equipe – tanto individualmente quanto em conjunto. Cada categoria profissional saberá qual seu papel: desde a enfermagem, responsável pela identificação do risco na triagem, até os setores de apoio como a farmácia e o banco de sangue. A solução elaborada pelo PSM sugere que os profissionais tenham acesso imediato aos medicamentos usados em uma emergência e que existam protocolos para transfusões sanguíneas de emergência. “É preciso sensibilizar todos sobre a importância dessas ações”, afirma Vera. Uma boa estratégia, também recomendada pelo PSM, é fazer reuniões com os resultados das simulações (debriefing), para identificar falhas e oportunidades de melhoria. O acompanhamento de outros indicadores, além do de mortalidade materna, será feito em conjunto com a área de Qualidade e Segurança do Paciente da maternidade.
Prevenção de mortalidade materna por Hemorragia Pós-Parto
Os pontos-chave na elaboração de uma estratégia para reduzir mortes por hemorragia obstétrica
Prontidão
– Criar carrinho para hemorragia com suprimentos, lista de verificação (checklist) e cartões de instruções para balões intrauterinos e suturas compressivas.
– Assegurar acesso imediato a medicamentos para hemorragia
– Estabelecer equipe de resposta – quem acionar (banco de sangue, equipe de cirurgia ginecológica avançada, outros membros para apoio e serviços terciários)
– Estabelecer protocolos de transfusão maciça e de emergência
– Treinamento – educação, simulações e avaliações pós-simulados.
Prevenção (para todas pacientes)
– Avaliação do risco de hemorragia (pré-natal, na admissão e em outros momentos apropriados)
– Medição da perda cumulativa de sangue: formal, tão quantitativo quanto possível.
– Pesar compressas para medição quantitativa
– Gerenciamento ativo do terceiro estágio do parto: protocolo envolvendo todo o departamento
Avaliação
– Estabelecer reuniões para discutir pacientes de alto risco e para balanço pós-evento (identificar sucessos e oportunidades)
– Monitoramento dos resultados

Fonte: Patient Safety Movement (PSM)

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