Lesão por pressão: como estruturar um programa completo

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Como um hospital conseguiu reduzir os casos em 60% e evitar custos de US$ 3 milhões.
A lesão por pressão é um dos principais eventos adversos causados pela assistência a saúde. Os ferimentos originados pelo contato do paciente com a superfície do leito, de poltronas e dispositivos, como sondas e cateteres, são causa de grande desconforto para o paciente, além de aumentar riscos de infecções, o tempo de hospitalização e os custos do tratamento. Estima-se que as popularmente chamadas escaras aumentem a internação, em média, em cinco dias e signifiquem um custo extra de US$ 40.000 por paciente. Grande parte desse valor, na verdade, 90%, é gasto em horas de enfermagem, para cuidar dos ferimentos.
Um programa realizado em um grande hospital, com 500 leitos, mostra que é possível cortar mais do que pela metade a incidência da lesão por pressão. Em um artigo científico no BMJ Open Quality, o Humber River Hospital, em Toronto, no Canadá, conta como reduziu em três anos a prevalência de lesões por pressão de 27,6% para 10% – abaixo da média canadense de 13,7% (4). No mundo, a prevalência em alguns hospitais pode chegar a 70%. No Brasil, um levantamento realizado com quase 500 pacientes em sete cidades encontrou prevalência média de 17%, porém, com várias ocorrências em um mesmo paciente, principalmente nas regiões sacral, trocantérica, do calcâneo, costas e cotovelo.
Humber River Hospital dividiu sua intervenção em três fases, cada uma com cerca de um ano de duração. A primeira etapa se concentrou em equipar a instituição com dispositivos para prevenir a lesão por pressão: colchões especiais que redistribuem a pressão, almofadas e travesseiros extras para acomodar os pacientes, botas de proteção para o calcanhar, além de sistemas de posicionamento. Eles ajudam a enfermagem a mudar os pacientes de posição, evitando lesões por pressão e também não sobrecarregam fisicamente a equipe. A formulação dos produtos de higiene usados no hospital foi revisada para evitar componentes que pudessem causar dermatites e favorecer o aparecimento de lesões. Para fazer a escolha de dispositivos e produtos, a equipe usou uma metodologia baseada em evidências científicas.
O foco do segundo ano de intervenção foi treinar os profissionais do hospital sobre como prevenir a lesão e o uso correto dos dispositivos. “A implementação dessas mudanças práticas foi feita usando sessões formais de treinamento ou oportunidades de orientações individuais para os profissionais, instrução de pequenos grupos, além de comunicação por mensagens eletrônicas”, escreveram os autores do artigo, integrantes da equipe de implantação do projeto no Humber River Hospital.
No terceiro ano, a intervenção se concentrou em adaptar o sistema de registro eletrônico do hospital para contemplar informações importantes para a prevenção de lesão por pressão. Foi implementada uma nova tela para avaliação de risco exclusiva, separada de outros tipos de ferimentos; um sistema de alerta foi criado para acionar um profissional de enfermagem especializado em lesão por pressão para casos notificados como graves, assim como um relatório especializado de alta para esses pacientes.
Após três de intervenção, o Humber River Hospital conseguiu atingir o índice de 10%, abaixo da média canadense de prevalência de lesão por pressão. O maior desafio do projeto foi conseguir diminuir a incidência em unidades de terapia intensiva (UTIs). Mesmo após a intervenção, os índices específicos da unidade continuaram altos, em 45%. A equipe responsável, apoiada em revisão da literatura científica, afirma que condições inerentes aos pacientes da UTI podem ser uma barreira: diabetes e deterioração da condição vascular, por exemplo, contribuiriam para o aparecimento de lesões de pele, apesar das medidas preventivas.
A experiência canadense mostra que, para diminuir a prevalência de lesões por pressão, é necessário estruturar uma intervenção completa: contemplar insumos e dispositivos, treinamento intensivo e contínuo da equipe e aprimoramento do registro das informações. O Humber River Hospital estima ter economizado entre US$ 1,8 e US$ 3,7 milhões em dois anos ao ter evitado mais de 40 casos de lesão por pressão.
O Painel Nacional de Aconselhamento para Lesão por Pressão (NPUAP, na sigla em inglês), entidade americana referência mundial, preconiza cinco etapas de dimensões de cuidados para prevenção, com medidas validadas também pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil, a Anvisa. Veja no quadro a seguir.
PREVENÇÃO DE LESÃO POR PRESSÃO
Cinco etapas essenciais para evitar ferimentos que aumentam risco de infecção
1ª) Avaliação de risco
– Uma vez por dia em áreas de proeminências ósseas (joelhos, cotovelos e calcanhares) e duas vezes por dia nas submetidas à pressão de dispositivos
– Desenvolvimento de plano de cuidados para cada tipo de risco
2ª) Cuidados com a pele
– Manter pele sempre limpa e seca, especialmente após episódios de incontinência
– Uso de produtos com pH balanceado para pele
– Hidratação diária com hidratantes e umectantes
3ª) Nutrição
– Manutenção de ingestão nutricional (calórica e proteica) e hídrica adequadas
– Monitorar peso e conscientizar pacientes de risco sobre importância da nutrição
4ª) Posição e movimento
– Mudança de posição a cada duas horas
– Uso de colchão especial, almofadas e/ou de coxins para redistribuir a pressão
– Uso de apoios e/ou proteções para erguer os pés e proteger os calcanhares
– Se necessário, uso de barreiras protetoras: creme barreira, película semipermeável, espuma de poliuretano, substâncias oleosas
5ª) Educação
– Orientação do paciente e de familiares

Fontes: NPUAP e Anvisa

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