Lavagem não elimina esporos de Clostridium difficile de roupa hospitalar

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Cerca de 60% dos esporos presentes antes da limpeza permaneceram na roupa hospitalar após lavagem, sugere estudo.
A contaminação hospitalar pelo bacilo Clostridium difficile é uma das que mais preocupam autoridades de saúde: por sua taxa de mortalidade, que chega a 17%, e pela dificuldade em eliminar os esporos da bactéria e evitar infecções dentro do ambiente hospitalar. Um novo levantamento comprova que a preocupação não é infundada. Mesmo os processos usados para lavar a roupas hospitalar não são capazes de eliminar totalmente os esporos do Clostridium difficile dos lençóis, o que os torna uma potencial fonte de propagação da bactéria. “A sobrevivência dos esporos pode contribuir para a contaminação ambiental quando os lençóis são usados para fazer novas camas no ambiente hospitalar”, escrevem os autores do novo estudo, pesquisadores da Universidade Montfort, na cidade de Leicester, na Inglaterra.
Segundo os autores do estudo, talvez a resistência dos esporos na roupa hospitalar explique parte da transmissão da bactéria entre pacientes. Estudos sugerem que até 27% dos novos pacientes se tornam portadores assintomáticos do Clostridium difficile após seis semanas de internação.
O bacilo Clostridium difficile é um dos grandes causadores de eventos adversos nos hospitais e serviços de saúde. O Centro de Controle de Doenças (CDC), uma agência do governo americano, estima que a bactéria seja responsável por 500 mil complicações intestinais importantes anualmente: de diarreias a casos de colite pseudomembranosa, que pode precisar de cirurgia. Cerca de 15 mil pessoas morrem no mundo anualmente em decorrência da infecção. Idosos estão entre os mais afetados.
No Brasil, o manual de Processamento de Roupas de Serviços de Saúde, publicado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, em 2009, e a resolução RDC 06/2012, também da Anvisa, descrevem os procedimentos a serem usados na lavagem dos lençóis. Eles devem ser seguidos tanto pelas lavanderias hospitalares localizadas dentro dos serviços de saúde quanto pelas lavanderias comerciais contratadas pelos serviços de saúde e que devem ter licença específica.
Há informações sobre como deve ser o transporte, o fluxo das roupas hospitalares e a infraestrutura das lavanderias, com espaços distintos para roupas sujas e limpas, e o tipo de máquina usada (equipamento com barreira: possuir duas portas, uma de entrada, para inserir a roupa suja, e outra de saída, para retirar a roupa limpa). Mas não há normatização do processo de lavagem em si. “Não existe um processo único e ideal para a lavagem de todas as roupas do serviço de saúde”, diz o manual de 2009.
A Anvisa não recomenda adotar ciclo de lavagem especial para roupa de pacientes em isolamento, por terem diagnóstico ou suspeita de doenças altamente contagiosas, já que toda roupa hospitalar é considerada, por definição, contaminada. A realização de culturas rotineiras nos tecidos para verificar a qualidade da lavagem também não é recomendada, a não ser em casos em que exista a possibilidade de a roupa hospitalar ser o veículo de transmissão de um patógeno.
Não deveria existir surpresa na existência de patógenos na roupa hospitalar limpa. O próprio manual da Anvisa afirma que elas não são estéreis. “O processamento da roupa não resulta em eliminação total dos microorganismos, especialmente em suas formas esporuladas”, afirma o material. Por esse motivo, os tecidos que precisam ser estéreis, como é o caso de campos cirúrgicos, precisam passar por esterilização e não podem ser submetidos à calandragem ou ferro (ambos usados para alisar os tecidos).
Resta a lacuna sobre como proceder com a roupa hospitalar e os tecidos que não exigem esterilização, mas que sabidamente podem conter esporos. Levantamentos, como o publicado pelos pesquisadores britânicos, mostram realidades microscópicas que trazem desconforto ao serem reveladas. Ante ao impasse entre custo, benefício e viabilidade de esterilizar todas a roupa hospitalar, são necessários mais estudos sobre o potencial de transmissão desse tipo de superfície. Algumas pesquisas sugerem que a contágio via superfícies porosas, como as roupas hospitalares, não é tão eficiente quanto sobre superfícies lisas. Ainda assim, os pesquisadores são cautelosos. “Os esporos sobreviventes de C. difficile nos lençóis lavados podem oferecer um risco de transmissão, quando a mão toca o tecido.”

Fonte: IBSP

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