Edição 259 – Confira na edição de Dezembro da Revista Nursing Brasil

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A visibilidade e identidade da Enfermagem no novo milênio

Marcelo Chanes
Enfermeiro, Mestre em Enfermagem e Doutor em Enfermagem pela USP, Empresário e escritor

A Enfermagem adentrou o novo milênio de modo ímpar e desafiador, ou seja, como uma das profissões com possibilidades de grande destaque. A falta de visibilidade da Enfermagem decorrente de sua falta de identidade recebe um xeque mate dos principias players do segmento saúde, o que mexe não só no processo de trabalho do enfermeiro, mas na estrutura da Enfermagem enquanto disciplina, identidade e profissão.

Ser uma disciplina traduz-se para a Enfermagem que em seu bojo há um conhecimento único e primoroso para a sociedade, que é o cuidado científico. Enfermagem é a disciplina que estuda o cuidado, pois é a única profissão de saúde que descreveu teorias para a sua prática (todas as outras seguem o CID). Assim, a Enfermagem por (re)pensar sua prática por meio de teorias, constitui-se o grande player para assumir a gestão do cuidado e imbuir-se do poder desta função.

Ser uma identidade significa que a Enfermagem possui um propósito claro e um autoconceito definido. Enfermeiros mais conscientes de seu papel como gestores do cuidado, realizam a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e o Processo de Enfermagem não como sinônimos, mas como conceitos complementares.

Por fim, ser uma profissão indica o caráter autônomo da profissão e que esta possui um fenômeno de sua responsabilidade, que sabemos consistir-se de respostas humanas aos processos de vida, aos processos de saúde e doença e às vulnerabilidades.

A importância da Enfermagem, neste novo milênio se comprova com alguns exemplos.

O relatório HealthCast 2020 da PricewaterHouse Coopers cita, dentre tantas profissões e dentre tantas possibilidades de mudanças no cenário de saúde, que a Enfermagem seja alavancada. Isso indica que a Enfermagem tem em suas mãos o poder de mudar o paradigma centrado na patologia para um paradigma de promoção de saúde, o que pode melhorar os indicadores de saúde do mundo todo. O interessante é que o estudo foi realizado em mais de 50 países e em todos, sem exceção, a Enfermagem foi tida como a profissão do milênio para a ruptura do ciclo vicioso patologia-clínica-medicamentos para o círculo virtuoso de aprendizagem-promoção de saúde-promoção de bem-estar ou melhor-estar.

Outro exemplo é o recente apelo da Organização Mundial da Saúde (OMS) para que os enfermeiros sejam ouvidos. E, com a promessa de que na Conferência da OMS em 2020, o tema será voltado à Enfermagem. Ter a OMS apontando a Enfermagem como tema para os debates em sua conferência faz da profissão algo em forte destaque.

Tal olhar de valor para o enfermeiro no novo milênio já vinha sendo destacado pela Organização Mundial de Saúde, em outras edições de seus congressos e por órgãos que avaliam cenários, que, ao avaliarem a saúde, concluíram que os enfermeiros estão como um player na área de saúde de extrema estratégia.

Mas, de nada serve um valor de outrem, se o enfermeiro não se valoriza. Não são de hoje os relatos de insatisfação com a SAE, a falta de interpretação correta do que é o papel do enfermeiro e a falta de identidade pelos enfermeiros.

Este cenário interno da profissão demonstra claramente uma perda de sentido e propósito da profissão enfermagem, realidade esta que aos poucos vem mudando, com iniciativas como o Nursing Now do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) e do projeto Revolução do Cuidar da empresa Marcelo Chanes.

O foco destas iniciativas é resgatar a identidade do enfermeiro frente ao seu papel complementar (sujeito, família, comunidade e sociedade). Mas, ainda em caráter muito insipiente, alguns enfermeiros já tem deixado o ranço com a profissão e tem construído juízo de auto-valorização mais concreto.

A SAE, compreendida e interpretada da maneira correta, faz do enfermeiro o gestor do cuidado. Sendo este o papel estratégico dos enfermeiros no cenário da saúde. Enfermagem está na assistência 24/7 e por isso é o maior detentor de informações possível no sistema de saúde. E, a SAE traz ao enfermeiro a capacidade de gerenciar insumos, métodos e pessoas dentro de uma proposta alinhada à estratégia das organizações de saúde e do sistema, podendo alcançar resultados efetivos em saúde.

Cabe ressaltar, para finalizarmos esta reflexão, que a Enfermagem é a única profissão que possui teorias e classificou os resultados em saúde em suas taxonomias. Somente com estes fatos, a OMS está certa: devemos escutar os enfermeiros mesmo.

Capa da Revista Nursing Edição 259

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