ANIMAIS QUE CURAM: UM OLHAR DA FAMÍLIA E TERAPEUTA

ANIMAIS QUE CURAM: UM OLHAR DA FAMÍLIA E TERAPEUTA

ANIMALS THAT HEAL: A FAMILY AND THERAPIST’S LOOK

ANIMALES QUE CURAN: UNA MIRADA DE FAMILIA Y TERAPEUTA

AUTORES: 

Juliana Geist. Enfermeira Pós Graduanda em Oncologia. Atua na Clínica de Oncologia e Hematologia das Missões. Santo Ângelo (RS). Brasil. ORCID ID:0009-0003-5953-6504.

Kelly Cristina Meller Sangoi. Enfermeira Oncológica e Paliativista. Mestre em Ciências da Saúde PUC/RS.  Docente no Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (Santo Ângelo) e no Programa de Pós Graduação em Oncologia Multiprofissional. Unijuí. ORCID ID:0000.0001.5550

Márcia Betana Cargnin. Enfermeira. Mestre em Reiki. Mestre   em   Ensino   Tecnológico   e   Científico e Docente na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e  das  Missões.  Santo Ângelo (RS). ORCID:0000-0002-3398-1592.

Rosane Terezinha Fontana. Doutora   em    Enfermagem.  Docente em Cursos da Área da Saúde e no Programa de Pós Graduação em Ensino Científico e Tecnológico.  Universidade   Regional  Integrada  do  Alto  Uruguai  e  das  Missões. Santo Ângelo (RS).ORCID ID: 0000-0002-0391-9341.

Kamila Perim. Psicóloga Pós Graduada em Psicologia Organizacional e em Psicopedagogia. Especialista em Equoterapia e Terapias de Aprendizagens com Cavalos. Atua como Coordenadora no Núcleo de Atendimento Especializado na URI  e como psicóloga nos serviços assistidos por equinos. Santo Ângelo (RS). ORCID ID: 0009-0004-0189-1623.

RESUMO

Objetivos: conhecer e compreender as contribuições da Terapia Assistida por Animais no desenvolvimento do indivíduo e no restabelecimento da saúde, na concepção dos cuidadores e familiares. Método: pesquisa descritiva exploratória, com abordagem qualitativa, em uma empresa privada de Intervenções Assistidas com Animais da região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, no segundo semestre de 2022. Os participantes foram os familiares e/ou cuidadores dos praticantes e a terapeuta. A coleta de dados deu-se por meio de questionário semiestruturado e a análise dos dados através da análise de conteúdo das falas e aprovada pelo parecer nº 5.652.286. Resultados: Verifica-se que os benefícios no desenvolvimento estão associados a aspectos como melhora no fortalecimento do tônus muscular, na linguagem, na autonomia, na coordenação motora, na tranquilidade e na afetividade. Conclusão: Essa intervenção tem grande potencial dentro do tratamento dos praticantes, e merece ser cada vez mais estudada. Descritores: Terapia Assistida por Animais; Terapia Assistida por Cavalos; Equoterapia. 

SUMARRY

Objectives: to know and understand the contributions of Animal Assisted Therapy in the development of the individual and the restoration of health, in the conception of caregivers and family members. Method: exploratory descriptive research, with a qualitative approach, in a private Animal Assisted Interventions company in the northwest region of the State of Rio Grande do Sul, in the second half of 2022. The participants were the family members and/or caregivers of the practitioners and the therapist . Data collection took place through a semi-structured questionnaire and data analysis through content analysis of the statements and approved by opinion no. 5,652,286. Results: It appears that the benefits in development are associated with aspects such as improvements in strengthening muscle tone, language, autonomy, motor coordination, tranquility and affectivity. Conclusion: This intervention has great potential in the treatment of practitioners, and deserves to be increasingly studied. Descriptors: Animal-Assisted Therapy; Horse-Assisted Therapy; Equine Therapy.

RESUMEN

Objetivos: conocer y comprender los aportes de la Terapia Asistida con Animales en el desarrollo del individuo y el restablecimiento de la salud, en la concepción de los cuidadores y familiares. Método: investigación descriptiva exploratoria, con enfoque cualitativo, en una empresa privada de Intervenciones Asistidas con Animales en la región noroeste del Estado de Rio Grande do Sul, en el segundo semestre de 2022. Los participantes fueron los familiares y/o cuidadores de los practicantes y el terapeuta. La recolección de datos se realizó a través de un cuestionario semiestructurado y el análisis de los datos mediante análisis de contenido de los enunciados aprobados por dictamen nº 5.652.286. Resultados: Parece que los beneficios en el desarrollo están asociados a aspectos como mejoras en el fortalecimiento del tono muscular, el lenguaje, la autonomía, la coordinación motora, la tranquilidad y la afectividad. Conclusión: Esta intervención tiene un gran potencial en el tratamiento de los profesionales y merece ser cada vez más estudiada. Descriptores: Terapia asistida por animales; Terapia asistida por caballos; Equinoterapia.

INTRODUÇÃO

A compreensão de que os animais são ótimas companhias e melhores amigos do ser humano vem ultrapassando o obstáculo da domesticação. Os animais vêm sendo colaboradores, apoiadores no tratamento de pacientes, como crianças, adultos e idosos com patologias diversas. As Intervenções Assistidas por Animais (IAA) baseiam-se na utilização de animais como mediadores e são desenvolvidas por uma equipe de profissionais que envolvem educadores, psicólogos, psicopedagogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e veterinários 1. As IAAs são divididas em três categorias: Atividade Assistida por Animais (AAA), Terapia Assistida por Animais (TAA) e Educação Assistida por Animais (EAA).

 A Terapia Assistida por animais (TAA) pode ser compreendida como uma forma de humanizar os atendimentos, nessa perspectiva se faz necessário considerar acima de qualquer coisa participação do paciente frente a atividade proposta, atuando dessa forma será proporcionado ao paciente tranquilidade e estímulo na aprovação do tratamento.Essa prática é uma estratégia complementar de cuidado que consiste em uma intervenção direcionada, individualizada e com critérios específicos, na qual o animal é parte integrante no tratamento. Deve ser aplicada e supervisionada por profissionais da saúde devidamente habilitados, podendo ser desenvolvida com qualquer faixa etária e em diversos locais: hospitais, ambulatórios, casas de repouso, clínicas de reabilitação e de    fisioterapia, escolas 2.

Os primeiros registros do uso da TAA aconteceram por volta de 1792, na    Inglaterra, por William Toque, empregado no tratamento de doentes mentais. Ao longo das últimas décadas, o interesse pelo elo homem-animal tem-se intensificado devido ao impacto positivo dos animais na vida das pessoas, despertando uma certa curiosidade da população em geral para as relações únicas que são estabelecidas a este nível 1,3.

O próximo registo oficial ocorreu na Alemanha, em 1867, com um trabalho notório desenvolvido pela enfermeira britânica Florence Nightingale, fundadora da enfermagem moderna, que incluiu nos seus tratamentos, especialmente para epiléticos, animais que representavam uma fonte de companhia para os doentes 3-4. No Brasil, surgiu com a psiquiatra Nise da Silveira, em 1946, quando fundou o Serviço de Terapêutica Ocupacional, no Rio de Janeiro, utilizando gatos como coterapeutas para os pacientes com distúrbios mentais 5.

Esta abordagem terapêutica pode ainda ser definida como uma terapia onde o animal faz parte do tratamento com objetivos claros e dirigidos. É possível realizá-la em grupo ou individual. Seu objetivo é promover saúde física, social e emocional, além disso, deve ser planejada, documentada e seus resultados avaliados 5. Sendo assim:

Um animal não pode ocupar o lugar de um profissional. Por outro lado, às vezes, o papel do animal é tão importante, tão único, que um ser humano não pode ocupar seu lugar 6.

Deste modo, pode trazer benefícios como: diminuição da dor e da ansiedade; aumento do nível da endorfina; minimização dos efeitos da depressão; diminuição da solidão e da inibição, contribuindo para um melhor relacionamento interpessoal, além de facilitar a comunicação entre o profissional da saúde e o paciente 7.

Outra vantagem, está no fato dos animais atuarem como co-ajudantes, para construir um ambiente em que os assistidos se sintam mais acolhidos e seguros, o que é fundamental para a evolução de todo tratamento, uma vez que, dentro de uma situação clínica é comum que um indivíduo, ao se deparar com estímulos ou situações geradores de ansiedade, mostre uma conduta evitativa quanto ao terapeuta e tratamento 8.

Diferentes espécies animais podem ser utilizadas nesta abordagem, podendo ser selecionadas de acordo com os objetivos das intervenções e as preferências dos beneficiários 9. Os mais comuns são os cavalos e os cães, mas também podem ser utilizados gatos, coelhos, aves e até mesmo golfinhos 7,10.

A TAA é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com deficiências e/ou com necessidades especiais com base na prática de atividades equestres e técnicas de equitação11

Conhecida também como Equoterapia, onde tem seu conceito definido através da Associação Nacional de Equoterapia - ANDE/BRASIL sendo advinda do latim, em que “EQUO”, significa cavalo e “TERAPIA” vem do grego “Therapia”, parcela da área da medicina que trata da aplicação de conhecimentos técnico-científicos no campo da reabilitação e reeducação4. Teve seus primeiros relatos como tratamento médico no século XVIII, com o objetivo de melhorar o controle postural, a coordenação e o equilíbrio de pacientes com distúrbios articulares 12.

Segundo os estudos de Uzun 13, muitos são os efeitos terapêuticos da Terapia Assistida por Cavalos, entre os principais elencam-se: a melhora do tônus muscular; mobilização das articulações de coluna vertebral e de cintura pélvica; facilita o ganho de equilíbrio e de postura do tronco ereta; favorece a obtenção de lateralidade; melhora a percepção do esquema corporal; favorece a referência de espaço, de tempo e de ritmo; permite o trabalho de coordenação motora; produz dissociações corporais e melhora a autoimagem. 

Dotti 4 (2005, p. 180) relata que: 

Os programas de equoterapia têm formatos para deficiências e problemas de desenvolvimento dos mais diversos tipos de comprometimentos, como paralisia cerebral, problemas neurológicos, ortopédicos, posturais e comprometimentos mentais, como a Síndrome de Down.

Ainda, o mesmo autor sinaliza alguns comprometimentos sociais, como distúrbios de comportamento, autismo, esquizofrenia e psicoses. Reforça sobre os comprometimentos emocionais, deficiência visual, deficiência auditiva, problemas escolares, tais como distúrbio de atenção, percepção, fala, linguagem e hiperatividade.

Por se tratar do cavalo, em relação ao seu tamanho, ele é capaz de desenvolver simultaneamente os papéis de um terapeuta, um educador e um motivador, pois promove a aceitação de regras de segurança e disciplina, impondo respeito e limites, sem envolver-se emocionalmente 14.

Neste pensamento apontam-se os benefícios que esta abordagem pode acarretar: 

A grande importância em utilizar o animal como instrumento terapêutico provém do movimento que o passo do cavalo transmite ao praticante: ritmado, repetitivo e simétrico. Esse movimento tridimensional, produz um deslocamento da pelve do praticante, parecido ao que uma pessoa realiza ao andar, proporcionando a conscientização corporal do portador de dificuldade, incentivando a aprendizagem ou reaprendizagem da marcha 14

Em 1995, no Parecer Informativo 004/95, o Conselho Federal de Enfermagem 15 (COFEN) reconheceu na profissão de Enfermagem, o constante interesse em utilizar práticas naturais no decorrer do tratamento do cliente, e as concepções do Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, que possibilita o uso dessas práticas. Contudo, apenas no ano de 1997, por meio da Resolução 197, que o COFEN reconheceu essas terapias alternativas como qualificação e especialidade do profissional de enfermagem. 

Esse reconhecimento da enfermagem permitiu a integração do enfermeiro dentro da equipe de terapeutas que atuam na Terapia Assistida por Cavalos. Devido ao profissional de enfermagem ter habilidade em atuar junto ao paciente de forma integral, ele pode direcionar orientações aos cuidadores quanto às necessidades exigentes de cada patologia tratada, visando identificar as formas de cuidado, contribuindo para satisfazer as necessidades humanas básicas 16,24.

Além dos profissionais da saúde humana é necessário que haja o acompanhamento de um médico veterinário para fazer uma avaliação do comportamento e da saúde dos animais que participam das atividades 17.

Segundo o mesmo autor 17 o enfermeiro (a) pode ser um elemento-chave na equipe que realiza as intervenções assistidas com animais. Auxiliando na prestação dos primeiros socorros e na prevenção de acidentes, assim como na elaboração de um plano de cuidados/terapêutico para auxiliar a equipe nas ações de educação em saúde.

Diante deste contexto esta pesquisa é relevante e se justifica para a partir dos resultados, sensibilizar profissionais da saúde, cuidadores e familiares, sobre a importância da Terapia Assistida por Cavalos no restabelecimento da saúde do indivíduo.

Assim, tem-se como questão norteadora: Qual é a contribuição das Intervenções Assistidas por Animais no contexto do desenvolvimento do indivíduo e no restabelecimento da saúde, na visão dos cuidadores, familiares e terapeuta? Propõe-se como objetivo geral compreender as contribuições da TAA no desenvolvimento do indivíduo e no restabelecimento da saúde, a concepção dos cuidadores e familiares. Ainda enquanto objetivos específicos propõem-se verificar saberes dos familiares e cuidadores quanto aos benefícios observados após o início da abordagem através da Terapia Assistida por Cavalos, identificar como os profissionais desenvolvem o elo entre praticante, animal e terapeuta e averiguar o valor atribuído do indivíduo pelo animal.

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa descritiva exploratória e observacional com abordagem qualitativa. As pesquisas exploratórias 18 tendem a ser mais flexíveis em seu planejamento, pois pretendem observar e compreender os mais variados aspectos relativos ao fenômeno estudado pelo pesquisador. E a pesquisa do tipo descritiva torna possível descrever episódios relacionados ao objeto em estudo, podendo ser um evento ou fenômeno, ambas se adequaram a esse estudo19,20.

A pesquisa foi realizada em uma empresa privada que oferece os serviços de Intervenções Assistidas por Animais (IAA), localizada na região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, no segundo semestre de 2022. Os participantes foram a terapeuta (psicóloga) e os familiares e/ou cuidadores de crianças que frequentam o centro de IAA. Critérios de inclusão: foram incluídos familiares/cuidadores com mais de 18 anos, responsáveis pelos praticantes independente da distribuição topográfica da patologia e que praticavam a IAA em centro especializado há mais de dois meses e a terapeuta. São critérios de exclusão: familiares/cuidadores com menos de 18 anos, familiares/cuidadores que não estavam presentes no momento da coleta e responsáveis pelos praticantes que praticavam a IAA em centro especializado há menos de dois meses. 

A coleta de dados deu-se por meio de um questionário semiestruturado com perguntas fechadas e abertas, construído pela pesquisadora. O questionário 21 pode ser definido “como a técnica de investigação tendo por objetivo o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas”.

A abordagem aos familiares e/ou cuidadores foi feita em sala de espera, onde estes aguardavam o praticante para realizar a IAA. A pesquisa não se ateve à diagnósticos dos praticantes. Foi apresentado o objetivo da pesquisa e realizado o convite para a sua participação. Para cada participante foi oferecido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), onde ficaram com uma cópia do documento e o Termo de Autorização de Imagem para autorizar o uso da imagem do praticante.

Para a abordagem com a terapeuta foi agendado horário individual para a aplicação do questionário no centro de IAA, em sala de espera reservada e de acordo com a sua disponibilidade. A aplicação do questionário durou em média 15 minutos.

A análise dos dados foi realizada na sequência da coleta de dados e foi utilizada, para tal, a técnica da análise de conteúdo das falas.  A análise dos dados foi por meio da análise de conteúdo 22 designa-se como um agrupamento de técnicas destinadas à análise das comunicações, valendo-se de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. Após leitura incessante das falas e das observações descritas nas planilhas, foram agrupadas e construídas categorias que abordam diretamente os principais elementos identificados para melhor compreensão dos aspectos sobre a temática. O estudo foi aprovado pelo Comitê de ética e Pesquisa sob o parecer número 5.652.286 e os participantes familiares foram identificados pelas letras E1, E2 e subsequentemente, e, T1 para a terapeuta.

RESULTADO E DISCUSSÃO

Participaram da pesquisa uma terapeuta (psicóloga) e nove familiares e/ou cuidadores, destes, 10 atenderam aos critérios de inclusão. Foi entrevistado um responsável por cada praticante da Terapia Assistida por Cavalos. A faixa etária dos praticantes foi de três a seis anos de idade. As respostas obtidas foram respondidas na íntegra, separadas por categorias e posteriormente analisadas: Concepções e benefícios percebidos pelo familiar e cuidador através da Terapia Assistida com Animais; Inter-relação do praticante com a Terapeuta; O valor atribuído do praticante ao animal durante a Intervenção Assistida por Cavalos.

Concepções e benefícios percebidos pelo familiar e cuidador através da Terapia Assistida com Animais

Para a maioria dos familiares dos indivíduos que participaram deste estudo, os benefícios no desenvolvimento estão associados a aspectos como melhora no fortalecimento do tônus muscular, na linguagem, na autonomia, na coordenação motora, na tranquilidade e na afetividade. 

Os autores 23,24 afirmam que as técnicas de equitação utilizadas na Terapia Assistida por Cavalos promovem também, benefícios físicos, psicológicos e educacionais, onde, a movimentação do corpo do cavaleiro favorece o desenvolvimento do tônus e da força muscular, o relaxamento, a conscientização do próprio corpo, o equilíbrio, a coordenação motora, a atenção e a autoconfiança. Podemos observar nas falas:

[...] tanto físico: postural, habilidades motoras, como psicossocial: maior desenvolvimento autoconfiança, autoestima, além de todo o bem-estar e a calma que o contato com os animais e a natureza traz. (E1)

Ficou mais calmo agora, melhorou o contato visual e ficou obediente. Teve uma melhora na fala porque ele não falava e agora fala mama e papa. (E3)

Os benefícios das intervenções com os cavalos são muitos, então acrescentaria a melhora na coordenação motora global, na interação social, nas percepções sensoriais e do esquema e imagem corporal, assim como no desenvolvimento cognitivo. (T1)

Pode-se observar que na percepção dos familiares a Terapia Assistida por Cavalos auxiliou nesse bem-estar físico e mental, melhorando significativamente o cotidiano de seus filhos. As atividades visam melhorar sua qualidade de vida, energizando o desenvolvimento de habilidades em diversas áreas como motricidade, cognição, socialização, comportamento, linguagem, respeitando a singularidade de cada participante 23.

[...] falava poucas palavras e não formulava frases, agora ele melhorou isso, chegou a falar uma frase extensa pedindo para vir na tia terapeuta ver a Manhosa. (E2)

Não gostava do ambiente fechado do consultório. Agora ela adora vir porque é ao ar livre, né? (E6)

Ele é autista e a parte motora dele mudou, ele sempre caminhou diferente, ficava caindo e agora ele melhorou a postura. (E7)

Nesta perspectiva afirma-se 24 que o autismo é considerado uma síndrome comportamental que apresenta diversas origens, tendo como principal característica o distúrbio do desenvolvimento do indivíduo, sendo a interação social uma de suas áreas mais afetadas. Visto que o autista possui dificuldades em se comunicar e criar relações, a Intervenção Assistida por Cavalos se torna uma aliada nesse processo, o que pode ser visto nas seguintes afirmações:

O autismo o deixava mais 'retraído' e agora ele perdeu o medo do cavalo, consegue se relacionar com os outros animais que temos em casa. Melhorou a fala também. (8)

Aproveito o fato de que o cavalo é um ser que não tem julgamentos sobre nossas atitudes, o que facilita a interação com o outro para assim criar um vínculo forte entre animal e sujeito e após ir entrando nessa relação. (1)

Para a terapeuta ocupacional canadense, Francine Ferland 25, a ação de brincar, para a criança, é um meio de estabelecer uma relação com o mundo e de descobrir sentimentos prazerosos.

Segundo a autora, referência mundial em ludoterapia, o lúdico contém brincadeiras, jogos e atividades divertidas para os indivíduos, independentemente da faixa etária. O modelo lúdico, utilizado nos tratamentos, contribui para melhorar a adesão do paciente ao tratamento, pois se baseia na redescoberta do potencial terapêutico do jogo e da atividade lúdica 25.

[...] quer jogar boliche e basquete em casa porque joga aqui no centro com a Manhosa. (E9)

Adapto brincadeiras e objetos da clínica para que sejam utilizados durante a montaria ou em solo. São introduzidos conforme a necessidade de desenvolvimento de cada paciente. (T1)

Fonte: GEIST e SANGOI, 2022. Imagens autorizadas pelos responsáveis através de Termo de Autorização de Imagem.

Um estudo realizado numa universidade comunitária no sul do Brasil com 13 participantes oportunizou para as crianças e adolescentes com deficiência a vivência de atividades recreativas através das sessões de equoterapia. As atividades vivenciadas envolviam discriminação/reconhecimento espacial, estrutura corporal, equilíbrio e coordenação. Evidenciaram que a prática de atividades lúdicas e recreativas é um meio utilizado na equoterapia que busca a autonomia motora e o desenvolvimento motor do praticante 24.

Atividades desenvolvidas na Intervenção Assistida por Cavalos utilizadas no centro que promovem os benefícios citados acima, foram: contato de aproximação com o cavalo. (Essa atividade pode se repetir quantas vezes se fizer necessário para aproximação do praticante com o cavalo); escovação do pelo do cavalo para que o praticante realize o ato de pentear o pelo do cavalo de forma afetiva e amigável, estabelecendo uma relação de carinho e confiança pelo animal; alimentar o cavalo para estimular o vínculo de afeto com o animal e o senso de humor no praticante; jogar boliche, basquete e lançamento de dardo com o cavalo para estimular a adesão de alguns praticantes na criação de vínculo com o cavalo além de trabalhar a parte motora; quebra-cabeça em cima do cavalo para estímulo em  solucionar problemas e aumentar a imaginação. 

De acordo com Ferland 25 (2006, p. 80): 

Estimular, desenvolver e manter a atitude lúdica na criança, instigando a curiosidade, a espontaneidade, o prazer, o senso de humor, a imaginação, a capacidade de solucionar problemas, tendo em conta a dimensão afetiva; estimular, desenvolver e manter na criança um repertório de interesses variados.

Com isso, podemos observar que a Intervenção Assistida por Cavalos tem um grande potencial dentro do tratamento dos praticantes, e merece ser cada vez mais estudada, tendo como objetivo proporcionar um tratamento mais humanizado para os praticantes.

Inter-relação do praticante coma terapeuta

Um vínculo26 é forjado por meio de um poderoso sistema de conexões – superfícies físicas, palavras, olhares, sensações, tarefas, estabilidade, intensidade, intimidade emocional, são algumas de suas manifestações.

Neste pensamento o mesmo autor 27 afirma:

Nesta relação, a observação atenta, a experiência do olhar, o olhar o rosto, o olhar os olhos, o contato, a escuta, complementada com a qualidade de atenção, acolhimento e presença, configuram campos de ações entre pacientes e terapeutas (p. 14-21).

No desenvolvimento da relação terapeuta-paciente, a presença física e psicológica adquire um tom emocional, pois o terapeuta tem a possibilidade de abordar o paciente de forma empática. Essa atitude empática refere-se à estabilidade e continuidade da atitude do terapeuta e à capacidade do terapeuta de manter a atenção às necessidades do paciente ao longo do tempo28.

No momento todos os pacientes demonstram boa interação com a equipe, tendo uma relação de busca pelos terapeutas na chegada, geralmente com afeto. Têm uma variação na interação de acordo com as características de cada um. (T1)

É extremamente gratificante realizar esse trabalho. Me emociono a cada pequeno avanço dos pacientes. Ver uma criança que não caminhava, não falava, não olhava, aos poucos conseguir dar os primeiros passos, pronunciar as primeiras palavrinhas ou te olhar por alguns segundos, faz com que tu sejas invadido por um sentimento inexplicável de muito amor e gratidão. (T1)

 Eu amo meus pacientes e os animais que trabalham comigo e isso com certeza faz a diferença para que tenhamos bons resultados. Sei que a técnica importa, e eu estudo muito para trazer o melhor para as famílias que confiam em meu trabalho, mas acredito que precisamos ter amor e carinho pelo que fizemos para que tudo dê certo. (T1)

Segundo alguns autores, a equoterapia16,10 consiste na interação entre o ambiente, o praticante, o cavalo e uma equipe de profissionais responsáveis ​​pelo tratamento adequado do paciente e do cavalo. Essa ação conjunta é fundamental, pois o conhecimento de domínios específicos é reunido, complementando-se para produzir uma abordagem única que possa atender às necessidades do paciente.

Os dados acima reforçam a importância de estabelecer um elo entre terapeuta e praticante. Visto que esse acolhimento aproxima o praticante não só com a terapeuta, mas com as atividades que ela irá desenvolver. Durante a realização desse estudo tive a oportunidade de presenciar alguns momentos de interação onde o praticante confiava totalmente na terapeuta para aceitar os novos desafios que ela tinha proposto, como sentar-se de lado na cela para aumentar o equilíbrio e a postura.

O valor atribuido do praticante ao animal durante a Intervenção Assistida por Cavalos

O contato do praticante com o cavalo e suas diferenças e características faz com que o praticante se sinta mais próximo ou mais em casa, diminuindo cada vez mais sua aversão em tocá-lo29,8.

Já vivenciei casos de pacientes que tinham problemas sensoriais táteis, ou seja, não gostavam de tocar em texturas ou ser tocados, que a partir do vínculo criado com o cavalo começaram a se permitir realizar esse toque e aos poucos sanando essa dificuldade. (T1)

Segundo Dotti (2005) o toque facilita a comunicação verbal e a interação social, incluindo a expressão de sentimentos. É uma via de mão dupla onde dois ou mais elementos se expressam. O toque é parte essencial das relações humanas através da massagem, terapia profissional, aplicações de energia e até mesmo o simples toque.

O mesmo autor ressalta que, um dos principais fatores que os animais proporcionam ao paciente é o tato, ele sente que está dando e recebendo carinho, há uma qualidade na interação entre os dois. Ambos desenvolvem uma segurança. Acariciar um animal de estimação, poder vê-lo e acariciá-lo, abre espaço para que ele receba abraços, toques de mãos e até beijos de terceiros.

[...] adquiriu confiança em andar em cima do animal. (E5)

Percebi aumento do carinho pelos animais, mas principalmente aumentou a segurança e ficou menos medrosa com tudo. (E4)

Esses dados evidenciam a importância de criar esse elo entre o praticante e o animal, visto que ambos desenvolvem uma segurança durante o processo e também aumenta a qualidade de interação entre eles.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Pode-se observar que a Terapia Assistida com Cavalos tem um impacto positivo na qualidade de vida das crianças praticantes do centro. As atividades desenvolvidas usando cavalos são muito lúdicas e envolvem principalmente caminhadas, acariciar e pentear os pelos, limpar ferraduras, bem como falar com os cavalos. Tais atividades são eficazes em fortalecer as habilidades motoras tão importantes na faixa etária dos praticantes.

Os resultados apresentados evidenciaram a percepção dos familiares e terapeuta quanto aos benefícios em relação à prática da Terapia Assistida por Cavalos onde os praticantes tiveram resultados expressivos. Percebe-se também a importância do elo estabelecido pelo praticante com a terapeuta, e também a relação do praticante com o animal.

A pesquisa possibilitou vivenciar um ambiente que despertou minha curiosidade, afinidade com o tema, assim como fortaleceu a minha concepção sobre os benefícios que até então eram rasos. Observa-se uma melhora na qualidade de vida dos praticantes e subsequentemente na vida dos familiares, onde, percebe-se outra forma de cuidado que é benéfica e integral.

Através das palavras do Dr. Willian Thomas, “percebi que os remédios nem sempre vinham em frascos, mas também em quatro patas”, compreende-se que o cuidado pode ir além de fármacos, comprovando após averiguar o valor do praticante atribuído ao animal. Fico encantada pelo toque do praticante no cavalo, a expressão facial ao encostar no animal é uma mistura de expressões e sentimentos. Muitos chegam com receio e após alguns minutos já estão fazendo carinho na “Manhosa” e dando pitangas para ela comer. Quando a terapia termina, despedem-se da égua com um abraço e palavras de agradecimento. 

Diante do exposto, acredita-se que este estudo tenha fornecido dados relevantes para o meio científico, os quais poderão contribuir para o entendimento dos benefícios da Terapia Assistida por Cavalos, pois não é uma substituição das terapias e práticas terapêuticas tradicionais, mas sim um complemento, um novo direcionamento de pesquisas voltadas para a diversidade, visando a melhoria da qualidade de vida. Espera-se que esses dados instiguem os pesquisadores a realizarem novos estudos sobre a temática.

REFERÊNCIAS 

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  4. Dotti J. Terapia & Animais, Atividade e Terapia assistida por animais - A TAA. Práticas para organizações, Profissionais e Voluntários. São Paulo: Noética, 2005.
  5. Juliano RS & Fioravanti MCS. Terapia assistida por     animais (TAA): revisão para profissionais da saúde. 2009.p.421-36. Capítulo 24.
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