REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA VIOLÊNCIA FINANCEIRA, NEGLIGÊNCIA E SEXUAL NA PERSPECTIVA DA PESSOA IDOSA
SOCIAL REPRESENTATION OF FINANCIAL, NEGLECT, AND SEXUAL VIOLENCE FROM THE PERSPECTIVE OF THE ELDERLY PERSON
REPRESENTACIÓN SOCIAL DE LA VIOLENCIA FINANCIERA, POR NEGLIGENCIA Y SEXUAL DESDE LA PERSPECTIVA DE LAS PERSONAS MAYORES
Tipo de artigo: Artigo Original
Autores
Maria Eduarda Soares Marinho
Enfermeira pelo Centro Universitário - UNIFACISA
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3695-8507
Ana Luiza Cabral da Cunha de Almeida Chagas
Mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6805-1515
Idaiana Calixto da Silva
Graduanda em Enfermagem pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
Orcid: https://orcid.org/0009-0003-8937-3603
Anderson Luan Silva de Lima
Graduando em Enfermagem pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
Orcid: https://orcid.org/0009-0009-1745-6913
Kalyne Araújo de Sousa
Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8108-9980
Larissa Laise Marinho Carvalho
Mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0451-8475
Maria Cidney da Silva Soares
Doutora pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Docente do curso de Enfermagem da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8150-108X
Renata Clemente dos Santos-Rodrigues
Doutora pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Docente do curso de Enfermagem e do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2916-6832
Autor correspondente: Kalyne Araújo de Sousa; E-mail: kalyneearaujo@gmail.com; Tel: (83) 98873-1647
RESUMO
Objetivo: compreender a representação social das violências financeira, negligência e sexual na perspectiva da pessoa idosa. Método: estudo analítico qualitativo, fundamentado na Teoria das Representações Sociais, realizado com 14 usuários de uma Unidade Básica de Saúde em Campina Grande, Paraíba, em abril de 2022, mediante questionário sociodemográfico e entrevista semiestruturada. Os dados foram gravados, transcritos e analisados pelo software IRAMUTEQ. Resultados: emergiram seis classes, organizadas em quatro categorias temáticas: “A violência representada através do sofrimento, tristeza e medo”; “Negligenciar é não ter zelo”; “O preço da velhice: as faces da violência financeira”; e “Sexo: Foi forçado é violência”. Conclusão: compreender as representações sociais da violência na perspectiva das pessoas idosas possibilita direcionar ações de educação, prevenção e assistência em saúde, contribuindo para uma atuação de enfermagem mais resolutiva na identificação e enfrentamento das diferentes formas de violência.
DESCRITORES: Idoso; Abuso de idoso; Representação social.
INTRODUÇÃO
É definida como Violência Contra Pessoa Idosa (VCPI) qualquer ação ou omissão praticada em local público ou privado que lhe cause morte, dano ou sofrimento físico ou psicológico, tipificada entre as formas: física, psicológica, abandono, financeira, sexual, negligência e autonegligência, configurando-se atualmente como um problema social que impacta a saúde global (1).
Conforme mencionado, a VCPI pode apresentar-se com diversas tipificações, destas, a violência financeira, negligência e sexual que são conceitos de destaque nesse estudo possuem características que a diferenciam, a violência financeira é caracterizada por toda e qualquer exploração de bens financeiros e patrimoniais do idoso, seja ela ilegal ou não; a violência negligencial diz respeito à omissão de cuidados essenciais por parte de familiares ou instituições, normalmente estão ligados com outros tipos de violência que levam a lesões e/ou traumas; e por fim à violência sexual que consiste em atos sexuais hetero ou homorrelacionais que usam pessoas idosas para obter excitação, relações sexuais ou práticas eróticas por meio de violência física, ameaças ou aliciamento(2).
O Sistema de Informação de Agravos e Notificações (SINAN) determina as notificações de caso suspeito ou confirmado de violência em seus diversos cenários, incluindo também, a notificação compulsória para violências perpetradas contra a pessoa idosa(3).
Um estudo demonstrou que após essa medida o número de notificações tem aumentado, apresentando a violência psicológica como a mais prevalente (11,6%), seguida da violência financeira (6,8%)(1), outro estudo que quantificou as denúncias de VCPI, identificou que a negligência (13,8%) é a mais predominante, seguida da financeira (7,5%) e por fim a sexual com (6,1%)(4). O gênero feminino pode ser considerado um fator de risco para a ocorrência da violência por negligência, esse fator se explica possivelmente devido às mulheres possuírem uma expectativa de vida maior quando comparadas ao gênero maculino, ou por falta de equilíbrio nas relações de cuidado(4).
Por vezes, a violência acaba sendo despercebida ou mesmo negada por parte dos idosos devido a dependência gerada pela perda da autonomia ou pelo vínculo sanguíneo ou sentimental existente com o perpetrador(5), por se tratar quase sempre de familiares e/ou pessoas próximas, tendo em vista, que na maioria dos casos os cuidadores são parentes, o idoso acaba utilizando justificativas como as más influências, o uso de álcool e/ou drogas ou até mesmo doenças mentais(6), o que dificulta a realização das notificações e consequentemente as intervenções necessárias(5).
Por isso, se fazendo necessário compreender como a pessoa idosa assimila e justifica os fenômenos que o rodeiam e como ocorre a representação da violência no processo de envelhecimento, a Teoria das Representações Sociais (TRS) se apresenta como referencial teórico deste estudo por mostrar-se adequada para o processo de compreensão através das experiências e vivências do indivíduo frente a determinado acontecimento(7).
Considerando o exposto, o presente estudo tem como objetivo compreender a representação social da violência financeira, negligência e sexual na perspectiva da pessoa idosa.
MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa analítica, de abordagem qualitativa ancorada na Teoria das Representações Sociais (TRS). Essa abordagem permite compreender a diversidade de significados e sentidos que o sujeito atribui nas suas relações sociais possibilitando a visualização dos resultados por meios diferentes da quantificação(8).
A TRS, de Serge Moscovici (1961), sugere que as experiências e crenças do indivíduo ao longo do cotidiano resultam em um pensamento social. Entende-se de forma dinâmica, que existem diferentes maneiras de conhecer e comunicar, há na sociedade um subdivisão que são elas: consensual, que se trata da vida cotidiana, e a científica, que é a linguagem diferenciada e a hierarquia. Apesar de propósitos diferentes, elas são de grande valia para a vida humana, utilizar essa teoria permite perceber como as trocas sociais promovem os valores humanos que fundamentam o viver em sociedade(9).
A representação social utiliza dois instrumento para formação dos significados dos elementos cotidianos, o primeiro denominado ancoragem compreende a transformação de um novo conhecimento tomando como base conhecimentos pré-existentes ou de forma mais simples a capacidade de nomear algo e torná-lo objeto do universo real e a objetivação que seria transformar o conceito abstrato em algo concreto, ou seja, criar uma imagem, exemplo ou representação para o fenômeno(10).
A pesquisa foi desenvolvida em uma Estratégia Saúde da Família (ESF) no Distrito Sanitário V, do município de Campina Grande-PB, por conveniência dos pesquisadores, a amostragem se deu por saturação teórica, quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, uma certa redundância ou repetição, não sendo considerado relevante persistir na coleta de dados(11). A adoção de saturação teórica dispensou cálculo para coleta de quantitativo de participantes.
Foram incluídos na pesquisa pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, com naturalidade brasileira, de ambos os sexos. Foram excluídos aqueles sem capacidade cognitiva de responder ao questionário e que não apresentaram capacidade de locomoção até a UBS.
O pesquisador compareceu ao serviço em dias rotineiros de atendimento ao público escolhido, realizando aos idosos o convite para participação no estudo de forma voluntária e sem remuneração, explicando objetivo da pesquisa e esclarecendo sobre o sigilo das informações transmitidas, bem como, o direito ao anonimato.
A coleta ocorreu em abril de 2022, em sala reservada e sem interferência de terceiros, através de um questionário sociodemográfico para caracterização da amostra considerando as seguintes variáveis: sexo, idade, estado civil e arranjo familiar, em seguida, foram utilizadas como estímulo disparador para a discussão três imagens de domínio público disponíveis no google imagens, as fotos foram selecionadas de forma que representassem situações de violência financeira, negligência e sexual e apresentadas de forma impressa, esse tipo de coleta de material para análise é usado na pesquisa social qualitativa, onde a imagem é utilizada como estímulo capaz de extrair do participante dados de relevância para o estudo(12).
Por fim, foi realizada uma entrevista semiestruturada, guiada pelo pesquisador que continha perguntas estabelecidas previamente e que estavam relacionadas às violências investigadas neste estudo, foi solicitado que idoso respondesse verbalmente as seguintes perguntas: “O que você entende como negligência?”, “ O que você entende por violência financeira?” e “ O que você entende como violência sexual?”.
Para garantir integridade da pesquisa e evitar viés, toda a coleta foi gravada com auxílio de aparelho mp3 para posterior transcrição e codificação. As falas obtidas foram organizadas e numeradas de 1 a 14 e codificadas pela palavra “IDOSO”.
Os dados foram transcritos na íntegra, transformados em corpus textual e processados através do software IRAMUTEQ (Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires), versão 0.7 alpha 2, que funciona na linguagem Python, onde é possível processar dados qualitativos em algumas formas de análises tais quais estatísticas de textos, produzidas a partir de entrevistas ou documentos(13).
Foi utilizada a análise de Classificação Hierárquica Descendente (CHD) que gera classes de palavras a partir do corpus textual, permitindo a subdivisão dessas classes em categorias que são formadas a partir de Segmentos de Textos (STs) de acordo com o vocabulário, apresentando também a matriz cruzada (x2) e a frequências (f) respectiva de cada termo(14). As classes provenientes da CHD possibilitaram a análise do conteúdo por meio da formação de categorias de acordo com a proposta por Bardin, e analisadas à luz da TRS.
Esta pesquisa segue de acordo com a Resolução n° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde que dispõe das diretrizes que regulamentam a pesquisa com seres humanos e foi submetida ao Comitê de ética em Pesquisa (CEP) do Centro Universitário-UNIFACISA, iniciada após parecer favorável nº 5.250.638. Todos os participantes foram orientados quanto à leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
RESULTADOS
A amostra foi composta por 14 idosos, destes 12 eram mulheres (85,7%), com faixa etária prevalente entre 60-69 (58,3%), seguido de idosos com 70-79 anos (25%), e 80 anos ou mais > (16,7%); quanto ao estado civil, a predominância foi de viúvas (33,3%) e divorciadas (33,3%); e em relação ao arranjo de moradia 65,4% moram com filhos e/ou netos.
A partir da coleta do material empírico e utilizando a TRS buscou-se, no contexto dos depoimentos, identificar aspectos significativos da temática, e a definição das dimensões que possibilitaram a apreensão das representações do conjunto de respondentes do estudo.
O corpus textual proveniente do material empírico apresentou 41 textos, organizado em 97 segmentos de textos (ST), e com retenção de 76,29%, 3.178 ocorrências e 509 formas ativas. O conteúdo lexicográfico organizou-se na formação de seis classes através do dendograma observado na figura 1 a seguir:
Figura 1 – Dendrograma da Classificação Hierárquica Descendente referente à representação social da violência para a pessoa idosa. Campina Grande, PB, 2022.
A partir do dendograma é possível observar a formação das classes temáticas do estudo, no qual emergiram quatro categorias principais: a Categoria I referente aos desdobramentos da VCPI do ponto de vista da pessoa idosa denominada “A violência representada através do sofrimento, tristeza e medo” composta pela classe 5 (16,9%); a Categoria II “Negligenciar é não ter zelo” composta pela classe 6 (23,0%); Categoria III “O preço da velhice: as faces da violência financeira ”, produto das classes 3 (16,2%) e 1 (13,5%); e por fim, a classe IV denominada “Sexo: Foi forçado é violência” composta pelas classe 4 (13,5%) e classe 2 (14,9%).
Quadro 1- Categorias temáticas e seus respectivos achados à luz da Teoria das representações sociais, Campina Grande, 2026.
Categoria | Ancoragem | Objetivação |
A violência representada através do sofrimento, tristeza e medo | Vulnerabilidade da velhice, medo da dependência e valorização da dignidade. | Violência concretizada como sofrimento, tristeza, medo e perda da autonomia. |
Negligenciar é não ter zelo | Valores de cuidado, proteção familiar e responsabilidade para com a pessoa idosa. | Violência representada pelo abandono, ausência de cuidado e desprezo. |
O preço da velhice: as faces da violência financeira | Direito à autonomia financeira, preservação do patrimônio e conflitos familiares. | Apropriação da aposentadoria, controle do dinheiro e exploração financeira. |
Sexo: foi forçado é violência | Respeito à autonomia corporal, experiências de violência de gênero e direitos da pessoa idosa. | Violência sexual representada pelo assédio, coerção e ausência de consentimento. |
Fonte: Autoria própria, 2026.
Categoria I–A violência representada através do sofrimento, tristeza e medo
A categoria I composta pela classe 5 contém aspectos gerais da perspectiva da pessoa idosa sobre a violência, a fala dos participantes surgiu quando lhes foi mostrado imagens representativas da violência e lhes foi questionado o que elas lhes representavam. As palavras em destaque “medo”, “triste” e “sofrer” tornam possível perceber que da perspectiva do idoso a representação social da violência objetiva-se em sofrimento, tristeza, medo e perda da autonomia, e a ancoragem é concretizada pela vulnerabilidade da velhice, medo da dependência e valorização da dignidade conforme é percebido nas falas adiante:
Ô meu Deus, sei lá, é tão triste ele tá sofrendo muito o bichinho ele tá de fazer pena é muita tristeza acho que ele está sofrendo, é uma pessoa sofrida, se eu ver uma pessoa assim eu saio chorando. (IDOSO 05)
Medo, muito medo de quem eu não sei, mas muito medo isso aí. (IDOSO 14)
Só lhe digo uma coisa: eu só tenho medo do dia que eu não puder comandar os meus passos [...]. (IDOSO 03)
Categoria II – Negligenciar é não ter zelo
O conteúdo das palavras e dos segmentos de textos provenientes da classe 6 (23,0%) foi predominantemente formado pelo agrupamento de conteúdos referentes à negligência. Do ponto de vista da pessoa idosa, a negligência pode ser compreendida como uma forma de abandono, falta de cuidados e desprezo, como evidenciam as palavras “cuidado”, “sujo”, “ambiente”, “abandono” e “desprezar” geradas no dendrograma e observada nas falas adiante que refletem essa premissa:
Não procura passar um mês, dois e só liga se tiver alguma coisa que está incomodando ele, e a maior negligência é essa, é aquela pessoa que não cuida do outro. (IDOSO 01)
Negligência é negligenciar…seria uma espécie de um abandono [...] é viver em um ambiente sujo abandonado sem nenhuma expectativa de vida boa já se entregou não tem mais o que esperar da vida já está entregue só Deus mesmo. (IDOSO 05)
Abandonado, maltratado, acho que é quando a família abandona despreza não cuida, às vezes tem até família mas não cuida não se importa. (IDOSO 10)
Negligência também é o abandono, não é a pessoa deixar não ter zelo, não cuidar da limpeza em primeiro lugar [...] (IDOSO 12)
Nessa categoria, os valores de cuidado, a proteção familiar e as responsabilidades ancoram para o idoso a representação que eles possuem sobre a negligência e que se objetiva a partir de situações que tipificam desprezo, abandono e falta de cuidado.
Categoria III–O preço da velhice: faces da violência financeira
A representação social da violência financeira na perspectiva dos idosos compõem a presente categoria, que por sua vez, foi formada pelas classes 1 (13,5%) e 3 (16,2%). A classe 1 apresenta como termos em destaque “tomar”, “dinheiro” e “tirar” enquanto a classe 3 evidencia os termos “pegar”, “aposentadoria”, “dinheiro” e “ficar” tais palavras caracterizam como os idosos objetivam esse fenômeno, uma vez que, o relacionam ao direito à autonomia financeira, a existência de conflitos familiares e preservação de seus patrimônios. As falas a seguir reforçam as palavras em destaque:
Os familiares tiram e deixam os idosos sem renda nenhuma, as pessoas ficam de receber a aposentadoria ou controlar o dinheiro da pessoa e não repassa fica para uso próprio e a pessoa passando necessidade muitas vezes até na alimentação. (IDOSO 06)
Seria sugar o dinheiro dele e não da assistência que ele precisa fica com o dinheiro, tem família que briga pra cuidar, mas não é pra cuidar do idoso é só porque quer o dinheiro dele e isso acontece em todas as classes viu num é só com os pobres não. (IDOSO 11)
A família fica querendo comandar ele financeiramente, comandar o dinheiro dele, gastar o dinheiro dele como quiser e deixar ele à toa fazem dívidas nos nomes dos idosos. (IDOSO 14)
É importante ainda, dar ênfase a duas falas específicas que destacam experiências sobre a violência financeira, o idoso 13 pela apropriação da família de sua aposentadoria e do idoso 14 em caso de empréstimo em seu nome sem a sua autorização, situações que tipificam a objetivação do fenômeno, como observados nos trechos a seguir:
Eu sou aposentada, meu filho não trabalha, meu neto não trabalha, aí eles querem que eu dê toda a minha aposentadoria para o luxo deles, que também acontece muito eu pego minha aposentadoria vou em um mercado encho a casa de alimentos e fico sem nada. (IDOSO 13)
[...] fazem dívidas nos nomes dos idosos eu já passei por isso descobri uma dívida que não sei quem foi, mas tem tá lá no meu consignado e eu descobri agora está sendo descontado do meu dinheiro. (IDOSO 14)
Categoria IV–Sexo: foi forçado é violência
A extração da representação social para pessoa idosa da violência sexual foi a mais difusa entre os participantes; a categoria foi composta pelas classes 4 e 2 com baixo percentual de seguimentos de textos, 13,5% e 14,9% respectivamente. Entretanto, ainda assim, é possível perceber pelas falas adiante que a violência sexual está ancorada nas experiências de violência de gênero, no respeito à autonomia do corpo e aos direitos garantidos à pessoa idosa. Os termos em destaque “bater”, “procurar”, “violência” e “idoso” evidenciados nos trechos a seguir confirmam essa realidade:
É outra coisa também que eu não concordo porque quando a pessoa não quer não adianta você ir correr atrás se a mulher não quer pra que vim com violência. (IDOSO 01)
[...] se você faz uma coisa obrigada que você não quer fazer é violência. (IDOSO 04)
É assediar uma pessoa idosa, uma pessoa indefesa foi forçado é violência. (IDOSO 11)
Ainda nessa perspectiva, a violência sexual objetiva-se para o idoso pela representação do assédio, da coerção e da ausência de consentimento, sendo expressa a partir do contexto da violência contra a mulher e da violência de gênero. Ao longo da entrevista, duas idosas relataram experiências vividas nesse contexto, como observado nas falas abaixo:
Eu acho que já passei, não tanto por isso, mas se você faz uma coisa obrigada que você não quer fazer é violência, não é então no passado, eu já passei por isso com o meu esposo mesmo. (IDOSO 04)
É triste eu sofri muita violência quando eu era casada o meu marido ele era muito violento e isso gerou um trauma para meus filhos, até hoje, mas graças a Deus Jesus sempre caminhou do meu lado,[...] todo tipo de violência ele cometeu comigo com meus filhos ele batia nos meninos que a palma da mão inchava, eu roubei meus filhos do maranhão trouxe eles pra cá pra casa dos meus pais dizendo que ia passar as férias e não levei mais, quando chegou o dia que era pra eles voltarem ele me bateu tanto mais tanto…outro dia era domingo e eu tinha a missa de manhã pra ir, fui assim mesmo fui a atração da igreja naquele dia todo mundo ficou comentando, passei mais uma semana e jesus me ajudando até que eu consegui fugir também. (IDOSO 13)
DISCUSSÃO
À luz da TRS é possível analisar como as interações sociais do indivíduo interferem nas interpretações e significados que ele atribui a determinado fenômeno, compreendendo então a representação social daquele acontecimento para o sujeito ou para determinado grupo que ele faz parte. Contudo, embora a representação seja composta por ideias, crenças ou experiências, elas podem ser afetadas por preconceitos ou ideologias(11).
Assim, este estudo consegue captar como as experiências dos idosos direcionam os conceitos e diferenciações que eles atribuem sobre as diferentes violências, permitindo perceber que em alguns casos a problemática é suavizada por questões de vínculos familiares, dependência emocional, financeira ou sentimentos de culpa e abandono.
A caracterização da amostra do presente estudo corrobora com outra pesquisa relacionada a temática com semelhanças na população do sexo feminino e faixa etária(14). Esse perfil majoritariamente feminino pode estar relacionado com a ocorrência da violência contra a mulher ainda na juventude o que ocasiona maior risco de manutenção dessa dinâmica ao longo do envelhecimento, a idade entre 60-69 anos também se apresenta com prevalente ao longo dos estudos encontrados demonstrando que quanto mais longevo, maiores as chances para a ocorrência da violência(15).
As palavras em destaque: “cuidado”, “abandono” e “desprezar” da categoria II do dendograma objetivam para o idoso formas de negligência, caracterizando-se principalmente por situações de abandono, o processo de ancoragem, por sua vez, abarca a falta de companhia e atenção que pode ser observada nos discursos dos participantes deste estudo. A negligência acarreta danos à saúde mental de idosos por causar sentimentos de não pertencimento ou de incômodo aos familiares, esses achados estão em consonância com estudo prévio(16), que destaca que mesmo residindo com outros membros da família, os idosos sentem-se sozinhos, sem companhia, desconfortáveis e desconfiados com as pessoas do ciclo familiar, além de se sentirem presos dentro de sua própria residência.
Além dos fatores citados, a ausência de suporte familiar e social, o acesso aos serviços de saúde e o grau de dependência funcional dos idosos também são riscos significativos para ocorrência da negligência(17).
A análise do dendograma expressa ainda as palavras “tomar”, “dinheiro” e “tirar” como os termos em ênfase na discussão sobre a violência financeira apresentada pelos participantes, uma vez que, comunica como as vivências dos idosos sobre determinado fenômeno cria seu processo de objetivação ou concretização do conceito. A violência financeira perpetrada contra pessoa idosa é uma das mais incidentes no tocante a notificações, como evidenciado em estudo epidemiológico de base populacional desenvolvido em seis zonas urbanas da cidade de Manaus (AM), onde a 98,4% dos casos no período de novembro de 2019 a abril de 2021 correspondem a essa tipologia(14).
Compreende-se que as vulnerabilidades que cercam o envelhecimento potencializam situações violentas, os relatos de experiências de violência financeira acontecem principalmente no contexto familiar, isso pode ser observado a partir do discurso de alguns participantes, onde a ancoragem dessa violência está relacionada para o idoso ao direito à autonomia financeira, a preservação do seu patrimônio ou bens e aos desentendimentos familiares e a objetivação se relaciona às experiências negativas quanto a posse da sua renda ou bens por terceiros. Contudo, a literatura evidencia que em grande parte dos casos, embora reconheçam que sofrem com tais violências, optam por justificar ou não realizar a denúncia por medo de incompreensão, retaliação ou abandono(18).
A classe I, destaca os termos “medo”, “triste” e “sofrer” relacionada aos conceitos atribuídos sobre a violência, configurando como os sentimentos e emoções experimentados pelo idoso em contextos violentos marcam a construção de um significado.
Em estudo realizado no interior de São Paulo, os autores analisaram as relações sociais, vivências e experiências de uma equipe multidisciplinar no atendimento de pessoas idosas vítimas de violência com o objetivo de buscar práticas de intervenções junto às famílias dos pacientes, os resultados apontam que foi observado que a ocorrência de desordens pode aumentar na velhice, em razão do elevado nível de exigência, irritação e do possível processo de demência ou doença mental que não é compreendido pelos familiares(19).
Quanto a violência sexual, a temática é pouco discutida quando se trata do público idoso, por ser um tabu na terceira idade, bem como pela falta de conhecimento sobre o que é a violência sexual. Nesta perspectiva, percebe-se através dos discursos dos participantes que a violência sexual restringe-se apenas ao ato sexual, mas envolve assédio sexual sem contato físico, abuso sexual com contato físico sem penetração, tentativa de estupro e estupro(20).
Somam-se a esse contexto aspectos relacionados à cultura patriarcal e à violência de gênero, que reforçam a ideia de submissão feminina ao parceiro, levando muitas mulheres a atenderem às suas vontades em detrimento de seus próprios desejos e necessidades. Essa dinâmica, frequentemente sustentada pela tentativa de preservar o casamento e a aparência de uma união familiar estável, perpetua relações marcadas pelo controle, pela coerção e por diferentes formas de violência(21).
Como também, considerando as barreiras que surgem ao longo do envelhecimento, a sexualidade é um tema negligenciado, sendo uma lacuna resultante de projeções sociais que rotulam essa abordagem como inadequada nessa faixa etária a partir da falsa ideia de que a vida sexual está relacionada apenas a juventude e que o envelhecimento do corpo anula a necessidade de desejo. Contudo, se compreende a sexualidade como parte fundamental do desenvolvimento e da manutenção das relações do indivíduo, caracterizando uma necessidade humana básica que deve ser mantida até o momento que o indivíduo considerar pertinente(22).
Por isso, orientações relacionadas a métodos preventivos, parceiros e violência sexual devem fazer parte da rotina e das intervenções de enfermagem, pois manter o silenciamento dessa temática para o público em questão produz vulnerabilidades que impactam na qualidade do envelhecimento(23).
Referente à assistência ofertada à população idosa, a Atenção Primária (AP) assume importante papel como contato inicial da população aos serviços de saúde com ênfase em ações preventivas e continuidade de atendimento por desenvolverem atividades em território adscrito. Em destaque, as ações de enfermagem se relacionam com a divulgação de informações e discussões sobre a problemática, atentando para comportamentos que permitam a identificação precoce de casos de violência(19).
É possível perceber que o processo de criação e historicidade da pessoa idosa reflete diretamente na sua compreensão da violência e sua forma de encará-la na sociedade atual, por vezes normalizando comportamentos violentos ou não reconhecendo a sua ocorrência. Por fim, compreender o pensamento social do idoso baseado em suas experiências e as potenciais vulnerabilidades a que ele está exposto, permite direcionar melhorias na capacitação de profissionais e em ações preventivas de forma eficaz.
As limitações deste estudo estão relacionadas à quantidade de idosos entrevistados e a limitação de unidades escolhidas para a coleta, contudo, as representações apresentadas conectam-se a questões que merecem ser mais exploradas, proporcionando de maneira humanizada a outros idosos vítimas de violência a oportunidade de viver em uma sociedade que acolhe e escuta seus idosos, como também, evitando a ocorrência de novos casos de violência.
CONCLUSÃO
Compreender as experiências e significados que o idoso atribui aos acontecimentos que o rodeia nos permite identificar alguns pontos importante para a saúde do idoso na perspectiva da enfermagem, tais como, a necessidade de realizar atividades multiprofissionais que trabalham a saúde mental de idosos, o fortalecimento dos seus direitos sobre sua autonomia e questões financeiras e a realização de atividades que levem os idosos a romper com tabus relacionados à sexualidade no processo de envelhecimento.
REFERÊNCIAS