ESTRATÉGIAS PARA PREVENÇÃO DA OSTEOPOROSE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DE LITERATURA
STRATEGIES FOR OSTEOPOROSIS PREVENTION IN PRIMARY HEALTH CARE: AN INTEGRATIVE LITERATURE REVIEW
ESTRATEGIAS PARA LA PREVENCIÓN DE LA OSTEOPOROSIS EN LA ATENCIÓN PRIMARIA DE SALUD: UNA REVISIÓN INTEGRADORA DE LA LITERATURA
Joel Neves Ramos¹
Thaís Antunes Sossai²
RESUMO
OBJETIVO: analisar as estratégias desenvolvidas na atenção primária à saúde que contribuem para a prevenção da osteoporose e redução do risco de fraturas em adultos e idosos. MÉTODO: revisão integrativa da literatura, realizada na base de dados PubMed/MEDLINE, considerando publicações entre 2021 e 2026. Após aplicação dos critérios de seleção, sete estudos foram avaliados, sendo quatro excluídos por não atenderem ao escopo, resultando em três artigos na amostra final. RESULTADO: as principais estratégias identificadas foram o reconhecimento precoce de fatores de risco, o rastreamento da saúde óssea, o diagnóstico e tratamento oportunos, o acompanhamento da adesão terapêutica e intervenções preventivas para redução da ocorrência e recorrência de fraturas. CONCLUSÃO: a atenção primária à saúde é fundamental na prevenção da osteoporose e das fraturas, especialmente por meio da identificação precoce do risco, acompanhamento contínuo e implementação de medidas preventivas individualizadas.
DESCRITORES: Osteoporose; Atenção Primária à Saúde; Prevenção de Doenças; Fraturas Ósseas; Avaliação de Risco.
INTRODUÇÃO
A osteoporose constitui importante problema de saúde por seu caráter progressivo e frequentemente assintomático, podendo permanecer não diagnosticada até a ocorrência de uma fratura por fragilidade. Suas repercussões tornam-se especialmente relevantes entre adultos mais velhos e idosos, nos quais as fraturas podem estar associadas à perda da capacidade funcional, redução da autonomia e maior necessidade de cuidados em saúde. Apesar dos avanços nos métodos de avaliação do risco, diagnóstico e tratamento, persistem lacunas relacionadas à identificação precoce dos indivíduos vulneráveis e ao início oportuno de medidas destinadas à prevenção da doença e de suas complicações¹.
Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) ocupa posição estratégica na prevenção e no manejo da osteoporose, considerando sua capacidade de promover acompanhamento longitudinal, identificar fatores de risco e coordenar o cuidado ao longo do tempo. A proximidade dos serviços de atenção primária com a população favorece o reconhecimento de indivíduos sob maior risco antes da ocorrência de fraturas, possibilitando a implementação de medidas preventivas, investigação diagnóstica e intervenções terapêuticas individualizadas².
A prevenção da osteoporose e das fraturas por fragilidade envolve diferentes estratégias, incluindo a avaliação e a estratificação do risco, o rastreamento direcionado da saúde óssea, a orientação quanto à prática de atividade física, a prevenção de quedas, a adoção de medidas de promoção da saúde e, quando indicado, o início e o acompanhamento do tratamento. Em indivíduos com maior vulnerabilidade ou histórico prévio de fraturas, a organização de intervenções multifatoriais e o acompanhamento contínuo podem contribuir para a redução do risco de novos eventos¹˒³.
Entretanto, embora a APS apresente potencial para atuar em diferentes etapas da prevenção e do cuidado às pessoas com risco de osteoporose, ainda existem desafios relacionados à integração entre identificação do risco, rastreamento, diagnóstico, tratamento e acompanhamento longitudinal. A existência dessas lacunas reforça a necessidade de compreender quais estratégias desenvolvidas no âmbito da atenção primária têm sido descritas na literatura e de que maneira essas intervenções podem contribuir para ampliar a detecção precoce da doença e reduzir a ocorrência de fraturas¹˒².
Diante disso, a síntese das evidências disponíveis sobre o tema pode contribuir para ampliar o conhecimento acerca das possibilidades de atuação da APS e subsidiar a organização de ações preventivas direcionadas à população adulta e idosa. Assim, esta revisão integrativa teve como objetivo analisar as estratégias desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde que contribuem para a prevenção da osteoporose e para a redução do risco de fraturas em adultos e idosos.
MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa de literatura realizada através das evidências cientificas disponíveis, com o objetivo de analisar as publicações científicas sobre as estratégias de prevenção da osteoporose desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde para adultos e idosos. A revisão integrativa envolve a análise de pesquisas importantes que dão embasamento para a tomada de decisão, possibilitando o resumo do estado do conhecimento de um determinado assunto, além de apontar falhas do conhecimento que precisam ser preenchidas com a realização de novas pesquisas⁴.
Uma revisão integrativa da literatura permite criticar e sintetizar o conhecimento produzido de forma ordenada e sistemática, com a finalidade de gerar um todo consistente e significativo por meio de achados oriundos de estudos diversos e representativos sobre determinado tema.
Para elaboração da presente revisão integrativa foram percorridas as seguintes fases:
1ª fase: Foi elaborada a pergunta norteadora do estudo: “Quais estratégias desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde contribuem para a prevenção da osteoporose e para a redução do risco de fraturas em adultos e idosos?”. Após a elaboração da pergunta norteadora, foram definidos os descritores relacionados à temática do estudo: Osteoporose; Atenção Primária à Saúde; Prevenção de Doenças; Fraturas Ósseas; Avaliação de Risco. Para a busca bibliográfica foram utilizados descritores controlados e termos livres, conforme estratégia apresentada na fase seguinte.
2ª fase: O levantamento dos artigos foi realizado na base de dados PubMed/MEDLINE, no mês de junho de 2026. A estratégia de busca foi construída a partir de descritores controlados do Medical Subject Headings (MeSH) e termos livres, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, conforme a seguinte estratégia: ("Osteoporosis"[MeSH Terms] OR osteoporosis[Title/Abstract]) AND ("Primary Health Care"[MeSH Terms] OR "primary care"[Title/Abstract]) AND (prevention[Title/Abstract] OR screening[Title/Abstract] OR "risk assessment"[Title/Abstract]). Foram considerados como critérios de inclusão artigos publicados entre 2021 e 2026, disponíveis em texto completo e relacionados às estratégias de prevenção da osteoporose e redução do risco de fraturas no contexto da Atenção Primária à Saúde.
3ª fase: Foi realizada a leitura e análise dos estudos selecionados. A busca identificou 143 artigos. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, sete artigos permaneceram para análise. Foram excluídos estudos que não respondiam à pergunta norteadora ou não abordavam estratégias de prevenção da osteoporose e/ou redução do risco de fraturas no contexto da Atenção Primária à Saúde (Figura 1).
4ª fase: Para organização dos dados coletados foi utilizado um formulário próprio e as informações foram organizadas em um quadro adaptado de Ursi para a comparação dos estudos, contendo os autores dos artigos, título, objetivo, principais resultados e considerações finais⁵.
Figura 1 – Fluxograma do processo de identificação, seleção e inclusão dos estudos. Governador Valadares, MG, Brasil, 2026.
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
RESULTADOS
A busca identificou 143 publicações, das quais sete permaneceram após a aplicação dos critérios de elegibilidade. Após a leitura dos títulos e resumos, quatro estudos foram excluídos por não atenderem ao escopo da revisão, resultando em três artigos na amostra final (Figura 1).
Os estudos incluídos, publicados entre 2023 e 2026, evidenciaram como principais estratégias relacionadas à prevenção da osteoporose e das fraturas na Atenção Primária à Saúde a identificação e estratificação precoce do risco, o rastreamento direcionado da saúde óssea, o diagnóstico e tratamento oportunos, o acompanhamento da adesão terapêutica e a implementação de intervenções preventivas para redução da ocorrência e recorrência de fraturas. As características e os principais achados dos estudos estão apresentados no Quadro 1.
Quadro 1 – Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa. Governador Valadares, MG, Brasil, 2026.
Autores | Título | Objetivo | Resultados | Considerações finais |
COLÓN-EMERIC et al., 2025 | Serviço remoto de saúde óssea para rastreamento de osteoporose em homens de alto risco: ensaio clínico randomizado por conglomerados. | Avaliar o impacto de um serviço remoto e centralizado de saúde óssea sobre o rastreamento, tratamento, adesão terapêutica e densidade mineral óssea de homens idosos com fatores de risco para fraturas. | Participaram 3.112 homens de 65 a 85 anos. O rastreamento por DXA ocorreu em 49,2% dos participantes submetidos à intervenção, contra 2,3% no cuidado habitual. Entre os rastreados, 51,1% apresentaram osteopenia ou osteoporose. Dos pacientes elegíveis, 84,4% iniciaram tratamento, com elevada adesão terapêutica. O modelo também apresentou resultado favorável na densidade mineral óssea do colo do fêmur após dois anos. | O serviço remoto de saúde óssea melhorou significativamente o rastreamento da osteoporose, o início do tratamento e a adesão terapêutica. A seleção de homens para rastreamento com base em fatores clínicos de risco mostrou-se uma estratégia promissora para a identificação precoce da osteoporose antes da ocorrência de fraturas, embora sejam necessários estudos de maior duração para avaliar seu impacto direto na redução de fraturas. |
SINGER et al., 2023 | Reduzindo a lacuna no manejo da osteoporose: o papel fundamental da atenção primária na saúde óssea. | Analisar o papel da atenção primária na identificação e no manejo da osteoporose, destacando as lacunas existentes no diagnóstico e tratamento e as estratégias que podem ser adotadas para melhorar a prevenção de fraturas e os cuidados com a saúde óssea. | O estudo destaca que a osteoporose permanece subdiagnosticada e subtratada, apesar de sua elevada prevalência e impacto sobre a ocorrência de fraturas. Aponta a atenção primária como cenário estratégico para identificação de indivíduos em risco, avaliação do risco de fraturas, diagnóstico precoce, início do tratamento adequado, educação do paciente e acompanhamento da adesão. | A atenção primária desempenha papel central na redução da carga da osteoporose e das fraturas por fragilidade. O fortalecimento do rastreamento e da avaliação do risco, associado ao diagnóstico oportuno, tratamento adequado, educação em saúde e acompanhamento contínuo dos pacientes, pode contribuir para superar as lacunas existentes na prevenção. |
SJÖLANDER et al., 2026 | Redução do risco de fraturas por fragilidade recorrentes após uma intervenção de prevenção de fraturas baseada na atenção primária: estudo controlado não randomizado com acompanhamento de 20 anos em mulheres de 70 a 100 anos. | Avaliar a incidência de fraturas de quadril e outras fraturas por fragilidade após uma intervenção de prevenção de fraturas desenvolvida na atenção primária, bem como analisar fatores de risco relacionados à ocorrência de fraturas em longo prazo. | A intervenção preventiva desenvolvida no contexto da atenção primária esteve associada à redução do risco de recorrência de fraturas por fragilidade durante o acompanhamento de longo prazo. O estudo reforçou a importância da identificação de fatores de risco e da implementação de medidas preventivas direcionadas a pessoas idosas com maior vulnerabilidade para novas fraturas. | Estratégias estruturadas de prevenção de fraturas desenvolvidas na atenção primária podem contribuir para a redução de fraturas por fragilidade recorrentes em idosos. Os achados reforçam a relevância de intervenções preventivas precoces e do acompanhamento de indivíduos de alto risco no âmbito da atenção primária à saúde. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
DISCUSSÃO
Os achados desta revisão evidenciam que a prevenção da osteoporose e das fraturas na Atenção Primária à Saúde depende da identificação precoce dos indivíduos em risco e da organização de estratégias que favoreçam o rastreamento, o diagnóstico e o início oportuno do tratamento¹. Esses resultados estão em consonância com recomendações atuais que indicam o rastreamento de mulheres com 65 anos ou mais e de mulheres pós-menopáusicas mais jovens com risco aumentado de fraturas. Entretanto, para os homens, as evidências ainda são consideradas insuficientes para recomendar o rastreamento populacional, o que reforça a relevância de estratégias direcionadas a indivíduos de maior risco, como observado nos estudos desta revisão⁶.
A importância da estratificação de risco também encontra respaldo em pesquisa realizada com idosos brasileiros, na qual o FRAX demonstrou capacidade de predizer fraturas não vertebrais, inclusive quando utilizado sem a densidade mineral óssea. Esses achados reforçam a aplicabilidade da avaliação clínica do risco como estratégia inicial para identificação de indivíduos vulneráveis, especialmente em contextos nos quais o acesso à densitometria óssea pode ser limitado⁷.
Além da identificação do risco, os estudos selecionados destacam a importância do acompanhamento longitudinal, da educação em saúde e do monitoramento da adesão terapêutica². Nesse sentido, estudo que avaliou um programa educacional direcionado à atenção primária observou melhora da adesão aos medicamentos para osteoporose, reforçando que intervenções educativas e o envolvimento dos profissionais no acompanhamento podem contribuir para a continuidade do tratamento⁸.
Entre indivíduos com maior vulnerabilidade e histórico de fraturas, intervenções preventivas direcionadas também demonstraram potencial para reduzir a recorrência de novos eventos em longo prazo³. Dessa forma, os achados sugerem que ações isoladas podem ser insuficientes, sendo necessária a integração entre avaliação do risco, rastreamento, diagnóstico, tratamento e acompanhamento contínuo no âmbito da APS.
A interpretação dos achados deve considerar o número reduzido de estudos que atenderam aos critérios de elegibilidade, evidenciando a limitada produção científica disponível sobre estratégias de prevenção da osteoporose especificamente no contexto da Atenção Primária à Saúde. Ainda assim, os estudos analisados permitiram identificar estratégias relevantes para a prática assistencial e apontam para a necessidade de novas pesquisas em diferentes populações e contextos de cuidado.
CONCLUSÃO
As estratégias desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde que contribuem para a prevenção da osteoporose e redução do risco de fraturas envolvem a identificação precoce dos fatores de risco, o rastreamento direcionado, o diagnóstico e tratamento oportunos, o acompanhamento longitudinal e a implementação de intervenções preventivas para redução da ocorrência e recorrência de fraturas. A integração dessas ações fortalece o cuidado preventivo e favorece a redução da ocorrência e recorrência de fraturas em indivíduos vulneráveis. Nesse contexto, o número reduzido de estudos identificados evidencia a necessidade de novas pesquisas sobre estratégias preventivas aplicadas à Atenção Primária à Saúde.
REFERÊNCIAS
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2. Singer AJ, Sharma A, Deignan C, Borgermans L. Closing the gap in osteoporosis management: the critical role of primary care in bone health. Curr Med Res Opin. 2023;39(3):387-398. doi:10.1080/03007995.2022.2141483.
3. Sjölander M, Alvunger L, Eggertsen R, Lindgren A, Mölstad U, Petrazzuoli F, et al. Reduced risk of recurrent fragility fractures after a primary care-based fracture prevention intervention: a 20-year non-randomized controlled follow-up study in women aged 70-100. Scand J Prim Health Care. 2026;44(1):1-16. doi:10.1080/02813432.2025.2571929.
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7. Freitas TQ, Olalla LFG, Machado LG, Figueiredo CP, Takayama L, Caparbo VF, et al. Performance of the Brazilian Fracture Assessment Risk Tool (FRAX) model and the age-dependent intervention thresholds according to National Osteoporosis Guideline Group (NOGG) guidelines on fracture prediction in community-dwelling older adults: the São Paulo Ageing and Health (SPAH) Study. Arch Osteoporos. 2024;19(1):59. doi:10.1007/s11657-024-01417-z.
8. Vuong T, Peters M, Merrifield A, Firipis M, Belcher J, Elgebaly Z. Investigating the impact of a national educational program on patient adherence to osteoporosis medications. Arch Osteoporos. 2023;18(1):90. doi:10.1007/s11657-023-01301-2.
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Joel Neves Ramos (autor principal)
Médico pela Universidade de Gurupi (UNIRG)
31 99609-0522
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Thaís Antunes Sossai (autora correspondente)
Enfermeira pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
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