SEGURANÇA NA PASSAGEM DE PLANTÃO EM ENFERMAGEM: A COMUNICAÇÃO EFETIVA E A FERRAMENTA SBAR

SAFETY IN NURSING SHIFT HANDOVER: EFFECTIVE COMMUNICATION AND THE SBAR TOOL

SEGURIDAD EN EL CAMBIO DE TURNO DE ENFERMERÍA: LA COMUNICACIÓN EFECTIVA Y LA HERRAMIENTA SBAR

Tipo de artigo: Revisão de Literatura – Integrativa

AUTORES

Diones da Rocha Rosa

Mestre em Saúde Pública, Universidad Europea del Atlantico

Orcid: https://orcid.org/ 0009-0003-6024-5069

e-mail: diones.enf@gmail.com — telefone: 21-998538575

RESUMO

Objetivo: Sintetizar evidências científicas nacionais sobre a segurança do paciente na passagem de plantão de enfermagem e a contribuição da ferramenta SBAR para a comunicação efetiva. Método: Revisão integrativa da literatura nas bases LILACS, BDENF e SciELO. Resultados: A passagem de plantão é marcada pela informalidade e por interrupções ambientais que comprometem a comunicação, enquanto a padronização por meio do SBAR está associada à redução de falhas assistenciais e ao fortalecimento da continuidade do cuidado. Conclusão: A comunicação estruturada é estratégia efetiva para qualificar a passagem de plantão, mas seu êxito depende de capacitação continuada e de apoio institucional.

DESCRITORES: Comunicação; Segurança do Paciente; Cuidados de Enfermagem; Continuidade da Assistência ao Paciente; Enfermagem.

ABSTRACT

Objective: To synthesize national scientific evidence on patient safety during nursing shift handover and the contribution of the SBAR tool to effective communication. Method: Integrative literature review in the LILACS, BDENF and SciELO databases. Results: Shift handover is marked by informality and environmental interruptions that compromise communication, while standardization through SBAR is associated with reduced care failures and strengthened continuity of care. Conclusion: Structured communication is an effective strategy to qualify shift handover, but its success depends on continuing education and institutional support.

DESCRIPTORS: Communication; Patient Safety; Nursing Care; Continuity of Patient Care; Nursing.

RESUMEN

Objetivo: Sintetizar evidencias científicas nacionales sobre la seguridad del paciente en el cambio de turno de enfermería y la contribución de la herramienta SBAR a la comunicación efectiva. Método: Revisión integradora de la literatura en las bases LILACS, BDENF y SciELO. Resultados: El cambio de turno está marcado por la informalidad e interrupciones ambientales que comprometen la comunicación, mientras que la estandarización mediante el SBAR se asocia a la reducción de fallas asistenciales y al fortalecimiento de la continuidad del cuidado. Conclusión: La comunicación estructurada es una estrategia efectiva para cualificar el cambio de turno, pero su éxito depende de la capacitación continua y del apoyo institucional.

DESCRIPTORES: Comunicación; Seguridad del Paciente; Atención de Enfermería; Continuidad de la Atención al Paciente; Enfermería.

INTRODUÇÃO

A comunicação efetiva entre profissionais de saúde é reconhecida como um dos pilares fundamentais da segurança do paciente, sobretudo nos momentos de transição do cuidado, quando a responsabilidade pelo paciente é transferida de um profissional para outro. Entre esses momentos, a passagem de plantão de enfermagem destaca-se como ponto especialmente vulnerável, por concentrar grande volume de informações clínicas transmitidas em curto espaço de tempo, muitas vezes em ambientes sujeitos a interrupções.

No contexto brasileiro, estudos apontam que a passagem de plantão ainda carrega, em muitos serviços, caráter predominantemente empírico e informal, sem roteiro ou instrumento que oriente sistematicamente o conteúdo a ser transmitido (1). Essa ausência de padronização favorece a omissão de dados relevantes e a dependência da memória e da experiência individual de cada profissional, fatores que aumentam a probabilidade de erros assistenciais evitáveis.

Pesquisa observacional realizada em unidade de terapia intensiva (UTI) identificou que os principais fatores intervenientes durante a passagem de plantão foram o soar de alarmes de equipamentos (79,6% das observações), conversas paralelas entre a equipe (19,3%) e o tom de voz baixo do profissional que realizava a passagem (11,1%), todos capazes de comprometer a compreensão da informação transmitida (2). Tais achados reforçam que a qualidade da comunicação depende também das condições ambientais e organizacionais em que ela acontece.

Diante desse cenário, ferramentas de comunicação estruturada têm sido cada vez mais incorporadas à prática de enfermagem. Destaca-se o método Situation, Background, Assessment, Recommendation (SBAR — em português, Situação, Histórico, Avaliação e Recomendação), originalmente desenvolvido em contextos de alta confiabilidade, como a aviação civil, e posteriormente adaptado à área da saúde, propondo sequência lógica e objetiva para a comunicação entre profissionais (3).

A relevância do tema é crescente na literatura de enfermagem brasileira, refletindo tanto a preocupação das instituições com indicadores de segurança do paciente quanto as exigências normativas do Conselho Federal de Enfermagem, que reconhece a passagem de plantão como parte integrante do processo de enfermagem e elemento essencial à continuidade da assistência (4). Diante do exposto, este estudo teve como objetivo sintetizar as evidências disponíveis na literatura científica nacional sobre a segurança do paciente na passagem de plantão de enfermagem, identificando as principais barreiras à comunicação efetiva e analisando as contribuições da ferramenta SBAR como estratégia de padronização e qualificação da transição do cuidado.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, método que permite reunir e sintetizar resultados de estudos com diferentes abordagens metodológicas sobre um mesmo tema, contribuindo para compreensão mais ampla do fenômeno investigado e subsidiando a prática clínica baseada em evidências. O percurso metodológico seguiu seis etapas: formulação da questão norteadora; busca na literatura; categorização dos estudos; avaliação crítica dos estudos incluídos; discussão e interpretação dos resultados; e síntese do conhecimento produzido.

A questão norteadora foi: “Quais evidências científicas nacionais abordam a segurança na passagem de plantão de enfermagem e o uso de ferramentas de comunicação estruturada, especialmente o método SBAR?”. A busca foi realizada em julho e agosto de 2026, nas bases de dados LILACS, BDENF e SciELO, por meio dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) “Passagem de Plantão”, “Comunicação”, “Segurança do Paciente”, “Continuidade da Assistência ao Paciente” e “Enfermagem”, combinados pelo operador booleano AND, além do termo livre “SBAR”.

Foram incluídos estudos originais, publicados em português, disponíveis na íntegra, que abordassem diretamente a comunicação na passagem de plantão de enfermagem em ambiente hospitalar, priorizando-se publicações dos últimos cinco anos. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor e estudos cujo foco central não estivesse relacionado à transição do cuidado entre profissionais de enfermagem. Não houve necessidade de submissão a Comitê de Ética em Pesquisa, por se tratar de estudo de revisão que não envolveu coleta direta de dados com seres humanos. Os estudos selecionados foram lidos na íntegra, organizados em categorias temáticas e analisados de forma descritiva, subsidiando a construção das seções de resultados e discussão apresentadas a seguir.

RESULTADOS

A busca e a leitura dos estudos permitiram a seleção de oito publicações nacionais que atenderam aos critérios de inclusão, contemplando estudos observacionais, relatos de experiência e pesquisas de desenvolvimento e validação de instrumentos. O Quadro 1 sintetiza as principais características dos estudos incluídos nesta revisão.

Quadro 1 — Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa sobre comunicação e segurança na passagem de plantão de enfermagem. Brasil, 2018-2024.

Autor(es)/Ano

Tipo de estudo

Principal contribuição

Nascimento et al.¹ (2018)

Estudo qualitativo, descritivo

Caracteriza a passagem de plantão como processo empírico e propõe instrumento baseado no SBAR

Oliveira et al.² (2018)

Estudo transversal, observacional

Identifica alarmes, conversas paralelas e tom de voz baixo como principais interferências em UTI

Pena et al.³ (2021)

Relato de experiência

Descreve implantação institucional do SBAR e padronização de protocolos de transição do cuidado

Oliveira, Andolhe, Padilha⁵ (2022)

Estudo transversal

Relaciona incidentes assistenciais a fragilidades na passagem de plantão em UTI

Matos et al.⁶ (2022)

Relato de experiência

Sistematiza a transferência de cuidados em UTI pediátrica com a ferramenta SBAR

Echer et al.⁷ (2021)

Desenvolvimento e validação de instrumento

Desenvolve e valida formulário e protocolo operacional padrão para passagem de plantão

Siqueira et al.⁸ (2024)

Estudo quanti-qualitativo

Identifica estratégias de comunicação efetiva na passagem de plantão em UTI

Fonte: elaborado pelos autores (2026), com base na literatura consultada.

A leitura dos estudos permitiu a organização dos achados em três eixos temáticos, apresentados e discutidos a seguir: (1) a passagem de plantão como momento crítico para a segurança do paciente; (2) as barreiras à comunicação efetiva na transição do cuidado; e (3) a ferramenta SBAR como estratégia de padronização e seus desafios de implementação.

DISCUSSÃO

A passagem de plantão como momento crítico para a segurança do paciente

Os estudos analisados convergem ao apontar a passagem de plantão como momento de particular vulnerabilidade no processo assistencial. Estudo desenvolvido em hospital universitário identificou que a ausência de ferramenta científica que qualificasse esse processo fragilizava a segurança dos pacientes, sendo apontados como nós críticos o local da passagem, as interrupções frequentes e o excesso de informações não hierarquizadas (1). De forma semelhante, pesquisa sobre cultura de segurança em unidades de terapia intensiva relacionou a ocorrência de incidentes assistenciais a fragilidades no processo de passagem de plantão, reforçando que a comunicação inadequada nesse momento configura um dos elos mais frágeis da cadeia de cuidado (5).

Barreiras à comunicação efetiva na transição do cuidado

Fatores ambientais, como alarmes de monitores e bombas de infusão, conversas paralelas e baixo tom de voz de quem realiza a passagem, foram descritos como os principais elementos intervenientes em unidade de terapia intensiva (2). Barreiras organizacionais também foram identificadas, como sobrecarga de trabalho, ausência de local apropriado e reservado para a passagem, e dependência excessiva da experiência individual de cada profissional (1,6). Estudo que investigou estratégias de comunicação efetiva em UTI reforça que dificuldades organizacionais repercutem em falhas comunicacionais capazes de prejudicar diretamente o cuidado prestado ao paciente (8).

A ferramenta SBAR: estrutura, evidências de efetividade e desafios de implementação

O método SBAR organiza a informação em quatro blocos sequenciais — Situação, Histórico, Avaliação e Recomendação —, reduzindo a variabilidade da informação transmitida e favorecendo a tomada de decisão clínica (3). Relato de experiência sobre a implantação do SBAR em hospital universitário descreveu sua incorporação após discussão de eventos adversos decorrentes de falhas de comunicação, contribuindo para a padronização de protocolos institucionais (3), enquanto estudo conduzido em UTI pediátrica descreveu a sistematização da transferência de cuidados por meio do SBAR como estratégia capaz de qualificar a comunicação em contexto assistencial de alta complexidade (6).

Estudo de desenvolvimento e validação de instrumentos para passagem de plantão, fundamentado nos princípios do SBAR, obteve índice de concordância de 93% entre especialistas quanto à abrangência, clareza e pertinência dos itens propostos, reforçando a viabilidade de instrumentos estruturados na prática clínica (7). Entretanto, os estudos também apontam desafios para a sustentabilidade do uso do SBAR, como resistência cultural de equipes habituadas a modelos informais de passagem de plantão e ausência de capacitação continuada, sendo necessário investimento institucional em treinamento e monitoramento periódico da adesão à ferramenta (1,7).

CONCLUSÃO

Esta revisão integrativa evidenciou que a passagem de plantão de enfermagem permanece, em parcela significativa dos serviços de saúde brasileiros, marcada pela informalidade e por fatores ambientais e organizacionais que comprometem a comunicação efetiva entre profissionais, aumentando o risco de eventos adversos e comprometendo a continuidade do cuidado. A ferramenta SBAR consolida-se como estratégia efetiva de padronização da comunicação nesse momento crítico, associada à redução de falhas assistenciais e ao fortalecimento do trabalho em equipe, ainda que sua efetividade dependa de capacitação continuada, adequação do ambiente físico e engajamento da gestão de enfermagem.

Como lacuna identificada, observa-se escassez de estudos nacionais com desenho experimental que avaliem o impacto quantitativo da implementação do SBAR sobre indicadores concretos de segurança do paciente, como taxa de eventos adversos e tempo de passagem de plantão, sinalizando oportunidades para investigações futuras sobre o tema.

REFERÊNCIAS

1. Nascimento JSG, Rodrigues RR, Pires FC, Gomes BF. Passagem de plantão como ferramenta de gestão para segurança do paciente. Rev Enferm UFSM. 2018;8(3):544-59.

2. Oliveira JGAD, Almeida LF, Fagundes LAH, Andrade KBS, Paula VG, Sá CMS. Interrupções nas passagens de plantão de enfermagem na terapia intensiva: implicações na segurança do paciente. Rev Enferm UERJ. 2018;26:e33877.

3. Pena MM, Melleiro MM, Braga AT, Meres ALF. Emprego da ferramenta SBAR na transição do cuidado: uma técnica para a comunicação efetiva. Rev Enferm Cent-Oeste Min. 2021;11:e3142.

4. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução COFEN nº 564/2017. Aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem [Internet]. Brasília: COFEN; 2017 [citado 2026 ago 10]. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017/

5. Oliveira EM, Andolhe R, Padilha KG. Cultura de segurança do paciente e incidentes registrados durante as passagens de plantão de enfermagem em unidades de terapia intensiva. Rev Bras Ter Intensiva. 2022;34(3):386-92.

6. Matos ACB, et al. Sistematização da transferência de cuidados em terapia intensiva pediátrica por meio da ferramenta SBAR. Europub J Health Res. 2022;3(3):436-47.

7. Echer IC, Boni FG, Juchem BC, Mantovani VM, Pasin SS, Caballero LG, et al. Passagem de plantão da enfermagem: desenvolvimento e validação de instrumentos para qualificar a continuidade do cuidado. Cogitare Enferm. 2021;26:e74062.

8. Siqueira LM, Busanello J, Alves CB, Escobal APL, Bittencourt CM, Pinto DM. Passagem de plantão de enfermagem em unidade de terapia intensiva: estratégias para a comunicação efetiva. Rev Baiana Enferm. 2024;38.

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA

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