BENEFÍCIOS DA TERAPIA ASSISTIDA COM ANIMAIS NO CUIDADO À CRIANÇA HOSPITALIZADA: REVISÃO INTEGRATIVA

BENEFITS OF ANIMAL ASSISTED THERAPY IN THE CARE OF HOSPITALIZED CHILDREN: INTEGRATIVE REVIEW

BENEFICIOS DE LA TERAPIA ASISTIDA POR ANIMALES EM LA ATENCIÓN DE NIÑOS Y NIÑAS HOSPITALIZADOS: REVISIÓN INTEGRATIVA

Wéryda de Fátima Oka Lôbo de Almeida

Graduação em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí, Floriano- PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0009-0004-0501-7861

Mychelangela de Assis Brito

Doutora em Enfermagem. Docente de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí, Floriano- PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4519-9979

Eloisa Assunção de Sousa Cunha

Discente de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí, Floriano- PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7309-4488

Gabriel de Lima Alves

Discente de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí, Floriano- PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3436-3995

Cristianne Teixeira Carneiro

Doutora em Tecnologia e Sociedade. Docente de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí, Floriano- PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0400-4733

Ruth Cardoso Rocha

Doutora em Enfermagem, Docente de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí, Floriano- PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6702-6844

José Cláudio Garcia Lira Neto

Doutor em Enfermagem, Docente de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí, Floriano- PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2777-1406

Maria Augusta Rocha Bezerra

Doutora em Enfermagem, Docente de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí, Floriano- PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0472-1852

RESUMO

Objetivo: Descrever os benefícios da Terapia Assistida por Animais no cuidado à criança hospitalizada. Método: Revisão integrativa nas bases de dados BVS (Lilacs, IBECS, BDEnf), MEDLINE e Scopus, entre abril e setembro de 2023, utilizando os descritores “criança hospitalizada”, “terapia assistida com animais” e “hospitalização”. Resultados: Sete artigos compuseram a amostra, destacando-se a facilitação da adaptação da criança ao ambiente hospitalar, o aumento da adesão ao tratamento e o favorecimento da recuperação clínica. A interação com os animais atuou como fonte de distração, prazer e entretenimento, contribuindo para o bem-estar e a melhora do humor, favorecendo também a comunicação, a socialização e o fortalecimento do vínculo entre criança, familiares e equipe de enfermagem. Conclusão: A terapia assistida com animais configura-se como uma estratégia complementar relevante no cuidado à criança hospitalizada, ao qualificar a humanização da assistência e gerar benefícios terapêuticos para a criança, seus familiares e a equipe de enfermagem.

DESCRITORES: Terapia assistida com animais; Criança hospitalizada; Terapia complementar; Hospitalização.

INTRODUÇÃO

Crianças hospitalizadas ou em tratamento que envolvem cuidados complexos tendem a apresentar uma variedade de sintomas psicossociais negativos, tais como ansiedade, depressão, tristeza, dificuldade de comunicação, perda da independência e o medo. Isso é ainda mais exacerbado por oportunidades limitadas de convívio com colegas, ausência do espaço de brincar ou mesmo, pela carga de dor associada à patologia em curso(1).  Para mais, esse sofrimento não se restringe às crianças, mas também, aos pais, cuidadores e familiares(2).

Para contornar essas dificuldades, a Terapia Assistida com Animais (TAA) tem sido utilizada em diferentes contextos(3-5), desvelando-se como uma prática promissora no manejo de eventos como dor, medo e ansiedade, complementando a terapia farmacológica(6). Evidências provenientes de uma revisão sobre o tema mostrou que a TAA possui efeitos terapêuticos significativos, modulando o estado psicopatológico de crianças, melhorando suas relações interpessoais e o bem-estar percebido(7).

No âmbito hospitalar pediátrico, sua aplicação tem se destacado por fornecer múltiplas dimensões do cuidado. Além de contribuir para a redução de efeitos adversos associados ao câncer(1), a TAA tem demonstrado impacto positivo na diminuição de complicações psiquiátricas(8), e na melhoria na qualidade de vida, atenuando o estado de ansiedade pré e pós-intervenções invasivas, bem como a frequência e intensidade da dor nos casos de síndrome de dor crônica(9).

Essas evidências se somam à percepção de familiares, que frequentemente relatam a TAA como uma intervenção valiosa, capaz de reduzir a ansiedade e apoiar o bem-estar emocional das crianças hospitalizadas. Nesse processo, os enfermeiros assumem um papel central, não apenas no manejo clínico, mas também na integração da TAA a um cuidado centrado na família, fortalecendo o vínculo entre equipe de saúde, pacientes e seus cuidadores, e promovendo uma experiência hospitalar mais humanizada e positiva para a criança e sua família(10).

Entretanto, apesar dos avanços já documentados, a literatura ainda carece de estudos que aprofundem a compreensão sobre os benefícios da TAA na hospitalização pediátrica, bem como sobre as estratégias de sua implementação na prática clínica. Diante dessa lacuna, este estudo tem como objetivo descrever os benefícios da terapia assistida com animais no cuidado à criança hospitalizada.

MÉTODOS

Trata-se de uma revisão integrativa, realizada entre abril e setembro de 2023, seguindo as etapas: a) escolha e definição do tema e estabelecimento de hipótese ou questão de pesquisa; b) amostragem ou busca na literatura; c) estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão; d) organização e sumarização das informações extraídas dos estudos selecionados e categorização dos estudos; e) avaliação dos estudos incluídos na revisão, interpretação dos resultados e sugestões para futuras pesquisas; e, f) apresentação da revisão/síntese do conhecimento(11). A revisão seguiu as recomendações de relato da Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), da Equator Network.

A busca foi baseada na seguinte questão norteadora: Quais os benefícios da terapia assistida com animais no cuidado à criança hospitalizada? Para estruturar a revisão, utilizou-se a estratégia PICo, em que: P (população) – Criança; I (intervenção) – Terapia Assistida com Animais; Co (contexto) – Hospitalização, a partir da combinação de descritores advindos do Medical Subject Headings (MeSH), Emtree, CINAHL Headings e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), além de palavras-chave sobre a temática, conectados pelos booleanos AND e/ou OR (Quadro 1).

Quadro 1 - Estratégia de extração, conversão, combinação, construção e uso dos termos, conforme estratégia PICo, 2023.

Objetivo/Problema

Quais os benefícios da terapia assistida com animais no cuidado à criança hospitalizada?

P

I

Co

Extração

Criança

Terapia assistida com animais

Hospitalização

Conversão

Children

Animal assisted therapy

Hospitalized child

Combinação

Child; children; childhood; pediatric; paediatric; pediatrics; paediatrics; hospitalized child; hospitalized children; hospitalised child; hospitalised children

Animal assisted therapy; animal assisted therapies; therapy, animal assisted; animal facilitated therapy; animal facilitated therapies; facilitated therapy, animal; therapy, animal facilitated; pet therapy; pet therapies; therapy, pet; pet facilitated therapy; pet facilitated therapies; therapy, pet facilitated; pet-assisted therapy; therapy, pet-assisted; AAT; canine-assisted therapy; dog assisted therapy; equine-assisted therapy; animal intervention; animal-assisted intervention

Hospital; hospitals; hospitalization; hospitalisation; inpatient care; inpatient; pediatric hospital; paediatric hospital; hospital ward; pediatric ward; paediatric ward

Construção

(Child OR children OR childhood OR pediatric OR paediatric OR pediatrics OR paediatrics OR "hospitalized child" OR "hospitalized children" OR "hospitalised child" OR "hospitalised children")

(Animal assisted therapy OR Animal assited therapies OR Therapy, animal assisted OR Animal facilitated therapy OR Animal facilitated therapies OR Facilitated therapy, animal OR Therapy, animal facilitated OR Pet therapy OR Pet therapies OR Therapy, pet OR Pet facilitated therapy OR Pet facilitated therapies OR Therapy, pet facilitated OR Pet-assisted therapy OR Therapy, pet-assisted OR ATT OR canine-assisted therapy OR dog assisted therapy OR equipe-assisted therapy OR animal intervention)

(Hospital OR hospitals OR hospitalization OR hospitalisation OR "inpatient care" OR inpatient OR "pediatric hospital" OR "paediatric hospital" OR "hospital ward" OR "pediatric ward" OR "paediatric ward")

Uso

(child OR children OR childhood OR pediatric OR paediatric OR pediatrics OR paediatrics OR "hospitalized child" OR "hospitalized children" OR "hospitalised child" OR "hospitalised children") AND ("animal assisted therapy" OR "animal-assisted therapy" OR "animal assisted therapies" OR "animal-assisted therapies" OR "therapy, animal assisted" OR "animal facilitated therapy" OR "animal-facilitated therapy" OR "animal facilitated therapies" OR "animal-facilitated therapies" OR "therapy, animal facilitated" OR "pet therapy" OR "pet therapies" OR "therapy, pet" OR "pet facilitated therapy" OR "pet-facilitated therapy" OR "pet facilitated therapies" OR "pet-facilitated therapies" OR "therapy, pet facilitated" OR "pet-assisted therapy" OR "therapy, pet-assisted" OR "AAT" OR "canine-assisted therapy" OR "dog-assisted therapy" OR "equine-assisted therapy" OR "animal intervention" OR "animal-assisted intervention") AND (hospital OR hospitals OR hospitalization OR hospitalisation OR "inpatient care" OR inpatient OR "pediatric hospital" OR "paediatric hospital" OR "hospital ward" OR "pediatric ward" OR "paediatric ward")

Fonte: elaborado pelos autores (2023).

Para a busca, utilizaram-se as seguintes bases de dados ou bibliotecas virtuais: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE via PubMed) e Scopus, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciência da Saúde (LILACS), Banco de Dados em Enfermagem (BDENF) e o Índice Bibliográfico Espanhol em Ciências da Saúde (IBECS).

Foram adotados como critérios de inclusão estudos primários, de natureza transversal, longitudinal ou ensaios clínicos, publicados em português, inglês ou espanhol, sem restrição quanto ao período de publicação. Excluíram-se capítulos de livros, teses, dissertações, monografias, estudos de caso, relatos de experiência, relatórios técnicos, editoriais e resumos apresentados em anais de eventos. A seleção dos estudos foi realizada no software Rayyan, com leitura independente por dois revisores, de modo a reduzir potenciais erros sistemáticos ou vieses de interpretação relacionados tanto aos resultados quanto ao delineamento das pesquisas. Em situações de discordância, um terceiro revisor foi acionado para garantir maior rigor metodológico e confiabilidade na triagem. Posteriormente, procedeu-se à extração dos dados, contemplando as seguintes variáveis: título do artigo, autores e ano de publicação, idioma, objetivos, tipo de estudo, nível de evidência, principais achados e lacunas ou limitações identificadas.

Para mais, também foi realizada uma avaliação do nível de evidência(12), categorizando os estudos em cinco níveis: Nível 1 – experimental (ensaios clínicos e revisões sistemáticas de ECR); Nível 2 – quase-experimental (estudos quase-experimentais e revisões sistemáticas correspondentes); Nível 3 – observacional analítico (coortes e estudos controlados por caso); Nível 4 – observacional descritivo (transversais, séries de casos e estudos descritivos); e Nível 5 – opinião de especialista e pesquisa em bancada (consensos e estudos de opinião).

Após análise crítica e rigorosa dos estudos, os dados foram analisados e apresentados de forma descritiva através de figuras, com o objetivo de tornar a visualização dos resultados mais clara e compreensível. Todos os aspectos éticos e legais foram assegurados, garantindo a legitimidade dos autores, os quais foram citados em todos os momentos em que os artigos foram mencionados.

RESULTADOS

Após a aplicação da estratégia de busca nas bases de dados selecionadas, foram identificados 48 artigos, sendo 11 na MEDLINE, 10 na SCOPUS, 17 na BVS, quatro na LILACS, quatro na BDENF e dois na IBECS. Após a remoção de duplicatas e a aplicação dos critérios de elegibilidade, bem como a análise da aderência à questão norteadora, sete estudos atenderam plenamente aos critérios estabelecidos e foram incluídos na amostra final para análise (Figura 1).

Figura 1 – Fluxograma PRISMA com seleção dos artigos incluídos na revisão, 2023.

Fonte: elaborado pelos autores (2023)

Observou-se concentração das publicações nos anos de 2004 e 2017, com dois estudos em cada período, correspondendo a 28,5% do total analisado. A base de dados MEDLINE destacou-se como a principal fonte dos artigos incluídos (n = 5; 71,4%). Quanto ao idioma, predominou a língua inglesa, presente em cinco estudos (71,4%), evidenciando a centralização da produção científica internacional sobre a temática. Em relação ao delineamento metodológico, verificou-se maior frequência de estudos descritivos (n = 3; 42,8%), os quais, majoritariamente, apresentaram nível de evidência 4b (n = 3; 42,8%). Observou-se a predominância de estudos de intervenção sem randomização e de delineamentos quase-experimentais, além de investigações observacionais e qualitativas, refletindo a diversidade metodológica empregada para avaliar a TAA em contextos de hospitalização pediátrica (Quadro 2).

Quadro 2 - Caracterização metodológica dos estudos incluídos e níveis de evidência, 2023.

No

Objetivo

Tipo de estudo

Amostra

NE

A1(13)

Projetar e implementar um programa de terapia animal de um ano para a população de oncologia pediátrica que atendesse aos padrões de segurança, qualidade e eficiência

Ensaio clínico (sem grupo controle)

n= 27

4

A2(14)

Explorar a eficácia da terapia de visitação canina no tratamento da dor pediátrica em um hospital infantil de atendimento terciário

Ensaio clínico (pré-pós)

n= 25

2

A3(15)

Avaliar a implementação do programa de terapia com animais "A Magical Dream", descrevendo a relação observada entre a participação no programa e a qualidade do atendimento e a satisfação dos pais e das enfermeiras participantes

Estudo observacional descritivo

n= 34

4

A4(16)

Verificar a interação lúdica entre crianças e cães na Atividade Assistida por Animais

Estudo observacional descritivo

n= 14

4

A5(17)

Avaliar a viabilidade do estudo de atividades assistidas por animais em oncologia pediátrica e coletar dados preliminares sobre benefícios potenciais

Estudo quase-experimental

n= 19

2

A6(18)

Apreender a percepção de profissionais da equipe de enfermagem e responsáveis por crianças e adolescentes com câncer acerca da Terapia Assistida com Cães

Estudo qualitativo

n= 16

5

A7(19)

Avaliar o efeito de uma visita breve de terapia com animais de estimação e uma intervenção de comparação sobre a ansiedade em crianças hospitalizadas

Estudo quase-experimental

n= 93

2

Legenda: A1= artigo número 1, A2= artigo número 2 (...); NE= nível de evidência, conforme o Joana Briggs Institute (2023).

Fonte: elaborado pelos autores (2023).

Independentemente do delineamento metodológico, os achados apontam resultados consistentes quanto aos efeitos positivos da interação com cães, especialmente no que se refere à redução da ansiedade, dor, medo e cansaço, além do aumento do bem-estar, relaxamento, alegria, motivação e aceitação da hospitalização. Destaca-se ainda a diminuição do uso de medicamentos analgésicos em alguns estudos, bem como o impacto favorável na experiência da criança frente a procedimentos invasivos, quimioterapia e cirurgia. Além dos benefícios direcionados às crianças, os estudos também ressaltam repercussões positivas no ambiente hospitalar como um todo, incluindo maior satisfação dos pais, fortalecimento do vínculo entre criança, família e equipe de enfermagem, e melhora da comunicação e da interação interpessoal (Quadro 3).

Entretanto, limitações metodológicas recorrentes foram identificadas, como amostras reduzidas, ausência de grupo controle, dependência de medidas subjetivas de autorrelato, fragilidades psicométricas dos instrumentos utilizados e desafios logísticos relacionados à disponibilidade e ao manejo dos animais. Tais limitações reforçam a necessidade de investigações futuras com delineamentos mais robustos e maior rigor metodológico, apesar da consistência dos achados favoráveis à TAA (Quadro 3).

Quadro 3 – Síntese das intervenções, principais achados, benefícios e limitações dos estudos incluídos sobre Terapia Assistida por Animais em crianças hospitalizadas, 2023.

No

Intervenções do estudo

Principais achados (síntese)

Benefícios observados

Principais limitações

A1

Programa estruturado de terapia assistida por cães em oncologia pediátrica

Melhora da adaptação após quimioterapia e cirurgia.

Adaptação à hospitalização e melhora da recuperação.

Risco infeccioso; alergias; impactos organizacionais e financeiros.

A2

Terapia de visitação canina para manejo da dor

Redução da dor percebida e menor uso de analgésicos.

Manejo da dor; distração; bem-estar emocional.

Amostra reduzida; autorrelato da dor.

A3

Programa “A Magical Dream”, baseado em terapia assistida por cães

Fortalecimento emocional e comportamental da criança.

Aceitação da internação; redução da ansiedade; melhora da socialização.

Amostra pequena; instrumentos sem validação psicométrica.

A4

Interação lúdica em atividade assistida por cães

Interação lúdica favorecendo o humor e bem-estar da criança.

Melhora do humor e da interação criança-família-equipe.

Limitações logísticas; amostra reduzida.

A5

Visitas de cães de terapia em oncologia pediátrica

Reducação da preocupação, cansaço e emoções negativas.

Relaxamento; bem-estar da criança e dos pais.

Ausência de grupo controle.

A6

Terapia Assistida com cães, segundo percepção de profissionais e familiares

Percepção positive da TAA por profissionais e familiars

Adaptação hospitalar; Cuidado humanizado.

Número reduzido de profissionais e cães

A7

Pet therapy; embora o termo seja mais amplo, o estudo refere-se a cães

Redução significative da ansiedade em crianças em TAA.

Diminuição da ansiedade; melhora da satisfação dos pais.

Estudo unicentro, com alta heterogeneidade da amostra.

Fonte: elaborado pelos autores (2023).

DISCUSSÃO

Os resultados indicaram que a TAA se consolida como uma intervenção complementar ao tratamento pediátrico, com alto valor na humanização do cuidado e efeitos mensuráveis em desfechos emocionais, comportamentais e fisiológicos, tais como: a adaptação facilitada da criança ao ambiente hospitalar, maior adesão aos tratamentos e melhora da recuperação clínica(13,15,18); diminuição do uso de analgésicos e de medicamentos para dor após interação com animais(14,17), além de aproximar profissionais, familiares e a criança, melhorando a comunicação e a socialização(16-18).

 Ainda, a interação com cães terapêuticos também tem sido identificada como potente fonte de distração, prazer, felicidade e entretenimento, contribuindo diretamente para a melhora do humor, bem-estar, diversão e estados emocionais positivos(14,16). O ambiente torna-se mais acolhedor e descontraído, com impacto significativo tanto para a criança quanto para seus pais ou responsáveis, promovendo redução de ansiedade, relaxamento, diminuição de sentimentos negativos e fortalecimento da segurança emocional da díade criança-família(15,17,19).

A literatura corrobora que a TAA não tem finalidade curativa, mas age como recurso terapêutico coadjuvante capaz de deslocar temporariamente o foco da dor e do sofrimento, resgatando autoestima, alegria e confiança da criança, favorecendo socialização e colaboração com profissionais de saúde(20-21). Além disso, a TAA reduz a dor, medo, estresse e a ansiedade em crianças em hospitalização e durante procedimentos medicos(22-23).

Esse efeito emocional estende-se aos acompanhantes, que também vivenciam diminuição de estresse, medo e solidão associados à experiência hospitalar(23). A interação também viabiliza maior engajamento social, confiança no ambiente, aproximação com a equipe multidisciplinar e melhor socialização entre pares(22,24-25).

No campo da dor pediátrica, há evidências consistentes de que a TAA contribui para a redução da percepção dolorosa e sofrimento comportamental, afetando positivamente parâmetros como frequência respiratória, saturação de oxigênio, pressão arterial diastólica, frequência cardíaca e oxigenação cerebral. Ainda, é segura e viável em unidades pediátricas, inclusive em unidades de terapia intensiva, tendo elevada aceitação por parte de cuidadores, profissionais e pacientes. A prática é classificada como alternativa não farmacológica eficaz na redução da dor, do medo e da ansiedade em contextos pediátricos(5,26).

Em contextos cirúrgicos, a presença de cães foi associada à menor necessidade de medicação analgésica após procedimentos e maior percepção de bem-estar(6). Pacientes pediátricos submetidos a cirurgias relataram melhora significativa da dor e redução da necessidade de analgésicos, reforçando potencial de incorporação em protocolos de alívio de dor pós-operatória(27).

Em populações específicas, como crianças com Transtorno do Espectro Autista, a TAA foi associada à redução de comportamentos agressivos, menor agorafobia, maior engajamento, diversão e participação em atividades, além da melhoria do apetite e independência(25). Contextos de elevada complexidade clínica também reforçaram benefícios expressivos: crianças e adolescentes com câncer tiveram diminuição relevante da dor, ansiedade e pressão arterial, com relato de grande eficácia no alívio sintomatológico(20).

Quanto à aplicabilidade da TAA para a enfermagem, o uso terapêutico de cães tem sido conceituado como ferramenta relevante para a recuperação clínica e psicológica de crianças hospitalizadas e adolescentes, sendo reconhecida como possibilidade de atuação especializada da Enfermagem Pediátrica. Ademais, reforça-se que compete ao enfermeiro o papel de facilitador dessa prática, por meio da criação de um espaço institucional seguro, orientação aos pacientes, familiares e equipe com incorporação à prescrição de Enfermagem, quando pertinente(28).

Além disso, evidências mostram que a TAA fortalece comunicação, integração e formação de vínculos de cuidado no contexto pediátrico e pode ser parte do processo terapêutico convencional e mediador afetivo no acolhimento clínico, colaborando para reduzir sintomas depressivos, estimular autoestima e propiciar melhor manejo comportamental da criança frente aos procedimentos e rotinas das unidades de saúde(23).

Embora haja um volume crescente de estudos internacionais sobre TAA em pediatria, os resultados também indicaram lacunas persistentes na literatura brasileira, especialmente sob a ótica dos enfermeiros e na institucionalização da TAA como parte do plano terapêutico assistencial, o que limita sua generalização e implementação ampliada nos serviços nacionais(29).

Em relação às limitações, destaca-se a escassez e a heterogeneidade metodológica dos estudos disponíveis, o que resultou em amostras reduzidas e, em alguns casos, em delineamentos com menor rigor experimental, limitando a generalização dos achados. Observa-se ainda que todos os estudos incluídos utilizaram exclusivamente cães como mediadores da TAA, o que restringe a compreensão sobre o potencial terapêutico de outras espécies e reduz a diversidade interespecífica das intervenções analisadas. Adicionalmente, a predominância de medidas subjetivas, a ausência de grupos controle em parte das investigações e a concentração de estudos em contextos internacionais constituem limitações relevantes. Diante disso, pesquisas futuras devem ampliar o escopo metodológico e geográfico, explorar diferentes espécies animais e investigar, de forma sistemática, o impacto da TAA sobre a equipe de enfermagem, especialmente no que se refere à satisfação profissional, ao enfrentamento do estresse ocupacional e à prevenção da exaustão em ambientes pediátricos.

Apesar das evidências sobre os benefícios da TAA, ainda há uma lacuna na literatura quanto à sua aplicação e eficácia no contexto brasileiro, especialmente sob a ótica dos enfermeiros. Nesse sentido, a incorporação de diferentes perspectivas e a realização de estudos multicêntricos podem enriquecer a compreensão dos fatores que influenciam a aceitação e o sucesso da TAA em diversos cenários de saúde.

CONCLUSÃO

A TAA mostra-se uma intervenção complementar relevante no cuidado pediátrico hospitalar, ao favorecer a adaptação da criança ao ambiente institucional e qualificar o cuidado de enfermagem por meio de práticas mais humanizadas, relacionais e acolhedoras, com efeitos consistentes na redução da ansiedade, estresse, medo, dor e sofrimento emocional, além de melhorar o bem-estar, o humor, a comunicação entre criança, família e equipe e a adesão ao tratamento em diferentes contextos clínicos. Contudo, permanece a necessidade de ampliar a produção científica nacional, especialmente por meio de estudos brasileiros, multicêntricos e longitudinais, que aprofundem a análise de desfechos de longo prazo, do impacto da TAA sobre a equipe de enfermagem e da definição de parâmetros assistenciais que subsidiem sua incorporação sistemática em protocolos e prescrições de Enfermagem no âmbito do Sistema Único de Saúde.

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