CONHECIMENTO DAS MULHERES SOBRE A INSERÇÃO DE DISPOSITIVO INTRAUTERINO EM UMA CASA DE PARTO

WOMEN'S KNOWLEDGE ABOUT INTRAUTERINE DEVICE INSERTION IN A BIRTHING CENTER

CONOCIMIENTOS DE LAS MUJERES SOBRE LA INSERCIÓN DEL DISPOSITIVO INTRAUTERINO EN UN CENTRO DE MATERNIDAD

Thaynara Ramos Maciel. Residente de Enfermagem do Programa de Residência de Enfermagem Obstétrica da Escola de Saúde Pública do Distrito Federal - ESP/DF. Brasília (DF), ORCID: 0009-0008-3205-1319,


Hygor Alessandro Firme Elias. Enfermeiro Obstetra, Mestre em Enfermagem, Tutor do Programa de Residência de Enfermagem Obstétrica da Escola de Saúde Pública do Distrito Federal - ESP/DF. Brasília (DF), ORCID: 0000-0002-4285-902X

Kelly da Silva Cavalcante Ribeiro. Enfermeira Obstetra, Mestre em Ciências da Saúde, Coordenadora da Residência de Enfermagem Obstétrica da Escola de Saúde Pública do Distrito Federal - ESP/DF. Brasília (DF), ORCID: 0000-0001-9882-9455

Lara Ramos Maciel. Economista, Doutoranda do Programa de Pós‐Graduação em Economia da Universidade de São Paulo (USP). ORCID: 0009-0008-0171-1230

Cecília Rosa de Oliveira Suares. Enfermeira da ESF. Goianésia (GO), ORCID: 0009-0007-5289-6581


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar o nível de conhecimento, percepções e expectativas de mulheres submetidas à inserção do dispositivo intrauterino (DIU) na Casa de Parto de São Sebastião, no Distrito Federal. MÉTODO: Estudo observacional, analítico, de abordagem quanti-qualitativa, realizado com 19 mulheres, com histórico reprodutivo prévio e sem uso anterior do DIU. Os dados foram coletados por meio de questionário semiestruturado e analisados por estatística descritiva e análise de conteúdo temática, segundo Bardin. RESULTADO: Observou-se predominância de mulheres jovens e de baixa renda. O DIU foi majoritariamente valorizado por sua eficácia contraceptiva e praticidade, embora persistam lacunas importantes no conhecimento sobre seu funcionamento, contraindicações e efeitos colaterais. As expectativas e motivações apresentaram tom predominantemente positivo, mas coexistem receios relacionados à dor, adaptação e complicações. CONCLUSÃO: Embora o acesso ao DIU esteja consolidado no serviço, há necessidade de fortalecer estratégias educativas que ampliem a compreensão das mulheres e promovam decisões reprodutivas mais informadas.

Palavras-chave: Dispositivo intrauterino. Direitos Sexuais e Reprodutivos. Enfermagem obstétrica. Serviços de Saúde da Mulher. Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde

INTRODUÇÃO

A contracepção desempenha papel central na redução de gestações não planejadas e da mortalidade materna e infantil; contudo, no Brasil, persistem dificuldades no acesso aos métodos contraceptivos de longa duração, como o dispositivo intrauterino (DIU), especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) (1-2-3). A desinformação sobre o método contribui para sua baixa adesão, apesar de sua reconhecida segurança, reversibilidade e elevada eficácia, permanecendo subutilizado em comparação a países desenvolvidos (4-5). O conhecimento limitado sobre o DIU associa-se a fatores sociodemográficos, como escolaridade, renda e região de residência, resultando em maior aceitação entre mulheres mais escolarizadas, brancas e residentes em áreas mais desenvolvidas, enquanto populações socialmente vulneráveis tendem a utilizar métodos de curta duração (4-5-6). Somado a esse contexto, ocorrem barreiras estruturais no SUS, incluindo a insuficiente capacitação profissional, a burocratização do procedimento e a centralização da inserção do DIU na figura médica, o que limita sua disseminação (5-7-8-9)        .Diante desse cenário, a literatura aponta a relevância de intervenções educativas e políticas públicas voltadas à disseminação de informações claras e acessíveis sobre o DIU, visando ampliar escolhas contraceptivas conscientes e equitativas (8-10-11). Nesse contexto, o presente estudo propõe avaliar o nível de conhecimento das mulheres atendidas na Casa de Parto de São Sebastião (CPSS), no Distrito Federal, e sua relação com fatores sociodemográficos e com intervenções educativas realizadas por enfermeiros obstetras ou outros profissionais de saúde, considerando a hipótese de que o conhecimento pode influenciar, ou não, a adesão ao método contraceptivo.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo observacional, analítico e de abordagem quanti-qualitativa, estruturado conforme recomendações do checklist STROBE. O estudo foi realizado na Casa de Parto de São Sebastião (CPSS), Distrito Federal, com coleta de dados entre agosto e novembro de 2025. A amostra incluiu 19 mulheres, selecionadas por conveniência, que foram submetidas à inserção do DIU após terem tido o último parto no local. Dentre os critérios de exclusão estavam as menores de 18 anos e mulheres em situação de vulnerabilidade social. Todas as participantes haviam vivenciado pelo menos uma gestação e não possuíam experiência prévia com o DIU.

A coleta de dados foi realizada por meio de questionário semiestruturado, abordando três eixos principais: características sociais, histórico reprodutivo e contraceptivo, e informações/conhecimentos sobre o DIU. As respostas exploraram aspectos como funcionamento, benefícios, contraindicações, efeitos colaterais, duração do método, expectativas, motivações e fontes de informação. Os dados foram organizados em banco anonimizado, submetidos à verificação, padronização e limpeza.

As variáveis quantitativas foram tratadas por estatísticas descritivas simples, enquanto as respostas qualitativas foram submetidas à análise de conteúdo, segundo Bardin(12). Para análise temática, realizou-se leitura flutuante, codificação e construção de categorias analíticas sobre conhecimento, benefícios, contraindicações, expectativas e motivações. O nível de compreensão do DIU foi categorizado em cinco grupos: “não soube explicar”, “compreensão parcial”, “compreensão baseada em efeitos”, “incerteza” e “compreensão funcional adequada”. As fontes de informação foram classificadas em “profissionais de saúde”, “redes informais” e “outros”.

As respostas sobre expectativas e motivações foram submetidas à análise de sentimentos (tom positivo, neutro ou negativo) e à análise de frequência lexical, incluindo a elaboração de uma nuvem de palavras, com caráter exploratório, com o objetivo de visualizar graficamente os termos mais recorrentes nas falas das entrevistadas.

 O tratamento inicial dos dados foi realizado no Microsoft Excel®, enquanto as análises estatísticas, visuais, de sentimentos e nuvem de palavras foram conduzidas no RStudio®. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FEPECS/SES/DF (parecer n° 7.643.710; CAAE 86013225.5.0000.5553).

RESULTADOS 

        Os dados da (Tabela 1) mostram predomínio de mulheres jovens, com média de idade de 24,7 anos, majoritariamente autodeclaradas pardas (57,9%) e pretas (21,1%). A maioria apresentava escolaridade até o ensino médio (84,2%) e declarou-se solteira (84,2%). Observou-se maior proporção de mulheres desempregadas (68,4%) e com renda familiar de até dois salários mínimos (78,9%). Menos da metade recebia benefícios sociais (42,1%), sendo o Bolsa Família o mais frequente. Quanto à ocupação, se destacou a categoria “do lar” (47,4%), com as demais distribuídas em diferentes atividades de serviços e cuidados.

     Tabela 1. Perfil socioeconômico das participantes.
São Sebastião - DF, Brasil, 2025

Faixa etária

n=19

%

13 a 19

4

21,1

20 a 24

6

31,6

25 a 29

6

31,6

30 a 34

1

5,3

35 a 39

2

10,5

Cor

Parda

11

57,9

Preta

4

21,1

Branca

2

10,5

Indígena

1

5,3

Amarela

1

5,3

Escolaridade

Médio completo

9

47,4

Médio incompleto

7

36,8

Fundamental incompleto

2

10,5

Superior incompleto

1

5,3

Estado civil

Solteira

16

84,2

União estável

2

10,5

Casada

1

5,3

Ocupação

Ocupadas

6

31,6

Desocupadas

13

68,4

Renda familia

Até 1 salário mínimo

9

47,4

1 a 2 salários mínimos

6

31,6

2 a 3 salários mínimos

4

21,1

Benefício social

Bolsa família

6

31,6

Prato cheio

2

10,5

DF Social

1

5,3

BPC LOAS

Nenhum

1

   9

5,3

47

Profissão

Do lar

9

47,4

Trancista

1

5,3

Monitora escolar

1

5,3

Manicure

1

5,3

Gerente de loja

1

5,3

Estudante

1

5,3

Cuidadora de idosos

1

5,3

Auxiliar de limpeza

1

5,3

Auxiliar de farmácia

1

5,3

Atendente em padaria

1

5,3

Atendente

1

5,3


       Fonte: Elaboração própria, 2025.

        

Os dados de saúde reprodutiva e histórico contraceptivo (Tabela 2) indicam que a maioria das participantes não vivenciou óbito de filhos (78,9%) e não relatou perdas gestacionais (68,4%). Observou-se baixa intenção reprodutiva, com predominância de mulheres que não desejavam ter mais filhos (84,2%). A quase totalidade já havia utilizado algum método contraceptivo (94,7%), embora quase a metade não tenha realizado exame ginecológico antes da inserção do DIU (47,4%). O primeiro contato com o método ocorreu, principalmente, por meio de familiares e redes sociais, concentrando-se no período da vida reprodutiva fora da gestação (57,9%).

     Tabela 2. Saúde reprodutiva e contraceptiva das participantes. São Sebastião - DF, Brasil, 2025.

Algum dos filhos faleceu

n=19

%

Sim

4

21,1

Não

15

78,9

Aborto espontâneo ou induzido

Sim

6

31,6

Não

13

68,4

Pretensão em ter mais filhos

Sim

3

15,8

Não

16

84,2

Exame ginecológico antes do DIU

Não

9

47,4

Preventivo

5

26,3

Preventivo e ultrassom/transvaginal

4

21,1

Sim (não especificado)

1

5,3

Já utilizou contraceptivo

Sim

18

94,7

Não

1

5,3

Mediador do primeiro contato com DIU

Familiares

6

31,6

Rede social

5

26,3

Profissional de saúde

4

21,1

Meios digitais

2

10,5

Serviço de saúde

1

5,3

Não lembra

1

5,3

Ciclo de vida no primeiro contato com DIU

Vida reprodutiva fora da gestação

11

57,9

Indefinido/Não lembra

2

10,5

Gestação/Pré-natal

2

10,5

Busca ativa de informação

2

10,5

Pós-parto

1

5,3

Contato precoce/juventude

1

5,3

         Fonte: Elaboração própria, 2025.

As narrativas na (Tabela 3) revelaram predominância de desconhecimento ou dificuldade de explicação sobre o funcionamento do DIU, embora parte das participantes o reconhecesse como método contraceptivo eficaz, este citado como principal benefício por 11 das 19 entrevistadas. A maioria compreendeu que o DIU não protege contra as infecções sexualmente transmissíveis (78,9%), enquanto o desconhecimento sobre as contraindicações foi elevado (63,2%), sendo a gravidez a mais citada delas (21,1%). Os efeitos colaterais mais relatados foram alterações menstruais (n=11) e dores ou cólicas (n=10), além de menções à expulsão, aumento de peso e alterações cutâneas. A duração do método foi corretamente informada por 57,9% das participantes, 31,6% não souberam responder, e 94,7% perceberam mínima interferência nas práticas sexuais. Quanto ao procedimento, 57,9% acreditaram ser necessário repouso após a inserção e 63,2% relataram medo, principalmente relacionado à dor, alterações menstruais, expulsão ou falha do método. Sobre profissionais habilitados para inserção, 42,1% citaram médicos e enfermeiros generalistas, e 31,6% mencionaram enfermeiros obstetras. A percepção quanto à suficiência das informações recebidas foi dividida, com 10 participantes avaliando-as como adequadas e nove apontando orientações insuficientes, evidenciando barreiras informacionais e a necessidade de educação padronizada sobre o DIU.

Tabela 3. Nível de compreensão e percepções sobre o DIU.
São Sebastião - DF, Brasil, 2025

Funcionamento

n=19

%

Compreensão funcional adequada

3

15,8

Compreensão baseada em efeitos

2

10,5

Compreensão parcial

1

5,3

Incerteza

3

15,8

Não soube informar

10

52,6

Benefício percebido*

Eficácia contraceptiva

11

57,9

Praticidade/comodidade

4

21,1

Bem-estar corporal

4

21,1

Alternativa aos métodos hormonais

3

15,8

Duração prolongada

3

15,8

Proteção contra IST's

Sim

2

10,5

Não

15

78,9

Não soube informar

2

10,5

Contraindicações

Gravidez

4

21,1

Condições ginecológicas específicas

2

10,5

Condições clínicas gerais

1

5,3

Não soube informar

12

63,2

Efeitos colaterais*

Alterações no fluxo menstrual

11

57,9

Dor e cólicas

10

52,6

Expulsão ou rejeição do DIU

4

21,1

Outros efeitos corporais

4

21,1

Não soube informar

4

21,1

Duração

Conhecimento adequado

11

57,9

Conhecimento impreciso

2

10,5

Não soube informar

6

31,6

Interferência na saúde sexual

Sim

1

5,6

Não

18

94,7

Necessidade de repouso

Sim

11

57,9

Não

5

26,3

Não soube informar

3

15,8

Receios ou medo

Sim

12

63,2

Não

7

36,8

Profissional aptos a inserir ou retirar

 Médicos generalistas

8

42,1

Enfermeiros generalistas e enfermeiros obstetra

6

31,6

Médicos ginecologistas

3

15,8

Outros profissionais capacitados

2

10,5

Suficiência das informações recebidas

Suficientes

10

52,6

Insuficientes

9

47,4

          Fonte: Elaboração própria, 2025.

A análise da (Figura 1) mostrou a prevenção da gravidez como principal fator na escolha do DIU, destacada na nuvem de palavras por termos como “gravidez”, “prevenção” e “não”, indicando a centralidade do controle reprodutivo. Observou-se ainda preocupação com a praticidade e o manejo cotidiano da contracepção, expressa por palavras como “pílula”, “tomar” e “usar”, sugerindo desgaste com métodos que demandam adesão contínua, além de menções à experiência corporal e às características do método, como “hormonal”, “dor” e “duração”. O discurso apresentou predominância de avaliação positiva (84,2%), com 15,7% de posicionamentos neutros e ausência de registros de avaliação negativa.

Figura 1 – Nuvem de palavras das expectativas e motivações para o uso do DIU

 

                                                 

 Fonte: Elaboração própria, 2025.

DISCUSSÕES

        Os achados evidenciaram um perfil socioeconômico marcado por juventude, baixa escolaridade, inserção laboral precária e renda reduzida, com predominância de mulheres pardas e pretas, refletindo a composição racial historicamente observada nos serviços públicos de saúde no Brasil e as persistentes desigualdades sociais e raciais que atravessam o acesso à informação e aos serviços de saúde (13). As mulheres negras são majoritariamente atendidas pelo Sistema Único de Saúde, enquanto mulheres brancas, em geral, acessam planos privados, expondo negras e pardas a maior vulnerabilidade ao longo da vida reprodutiva (14).

                No âmbito da saúde reprodutiva, embora o uso prévio de métodos contraceptivos seja elevado, observa-se fragilidade no acompanhamento antes da inserção do DIU, como a ausência de exame ginecológico em parte significativa das participantes. Ainda que as diretrizes não exijam tais exames como pré-requisito para inserção, sua ausência pode gerar insegurança e reforçar medos relacionados ao procedimento, apontando falhas na comunicação e na padronização das orientações (15).

        As narrativas indicam que a oferta do DIU ocorre predominantemente em contextos de maior contato com os serviços de saúde, especialmente durante a internação para o parto; corroborando a literatura que aponta esse momento como oportunidade estratégica para ampliação do acesso ao método (16). Contudo, persistem barreiras relacionadas ao desconhecimento das usuárias quanto à capacidade técnica dos serviços e ao papel da enfermagem na inserção do DIU, refletindo a permanência de um do modelo biomédico vigente(17).

        Ademais, observou-se um paradoxo entre a elevada confiança na eficácia do DIU e a compreensão limitada sobre seu funcionamento, fenômeno também descrito em outros estudos, nos quais a decisão pelo método se apoia em informações fragmentadas e redes informais (17-18). O desconhecimento sobre contraindicações e efeitos colaterais, aliado aos receios relacionados à dor, expulsão e alterações menstruais, reforça a necessidade de estratégias educativas estruturadas e contínuas, especialmente diante da busca autônoma por informações em meios digitais (17-18).

        Por fim, as motivações identificadas, como duração, eficácia e segurança, convergem com achados recentes que apontam esses fatores como determinantes para adesão ao método indicando que a ampliação do acesso ao DIU deve estar articulada à promoção da equidade, ao enfrentamento das desigualdades raciais e sociais e à valorização do papel da enfermagem na saúde sexual e reprodutiva (19).

CONCLUSÃO

Conclui-se que, embora o DIU seja amplamente reconhecido como método contraceptivo eficaz e desejável, persistem lacunas informacionais e desigualdades sociais e étnicas que limitam a compreensão plena de seu uso, funcionamento e possíveis efeitos. Esses achados evidenciam a necessidade de fortalecimento das ações educativas em saúde sexual e reprodutiva, com enfoque na equidade e na qualificação da comunicação nos serviços de saúde, destacando-se o papel estratégico da enfermagem obstétrica na ampliação do acesso ao DIU, na humanização do cuidado e no fortalecimento da autonomia das mulheres no âmbito do Sistema Único de Saúde.

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