CONSTRUÇÃO E VALIDAÇÃO DE CARTILHA EDUCATIVA SOBRE PLANTAS MEDICINAIS USADAS POR QUILOMBOLAS DO CERRADO

CONSTRUCTION AND VALIDATION OF AN EDUCATIONAL BOOKLET ON MEDICINAL PLANTS USED BY QUILOMBOLA COMMUNITIES OF THE CERRADO

CONSTRUCCIÓN Y VALIDACIÓN DE UNA CARTILLA EDUCATIVA SOBRE PLANTAS MEDICINALES UTILIZADAS POR COMUNIDADES QUILOMBOLAS DEL CERRADO

Elias Emanuel Silva Mota

Doutor em Genética e Melhoramento de Plantas

Universidade de Rio Verde – UniRV

Mariane Mourato Silva

Bacharel em Enfermagem

Enfermeira do PSF Goianésia

Rita de Cássia Thatylla Costa

Bacharel em Enfermagem

Flávia Alves Amorim Souza Sales

Mestre em Enfermagem

Pontifícia Universidade Católica de Goiás

Meillyne Alves dos Reis

Doutora em Enfermagem

Universidade Estadual de Goiás

Resumo

Objetivo: descrever a construção e a validação de conteúdo de uma cartilha educativa sobre o uso de plantas medicinais por comunidades quilombolas do Cerrado. Material e Método: trata-se de estudo metodológico realizado em três etapas: revisão da literatura; construção da tecnologia educacional; e validação da tecnologia educacional. O critério para validação foi concordância superior a 80%, analisada por meio dos índices de validação (IVC). Resultados: a cartilha foi estruturada em seções sobre preparo e medidas de referência de fitoterápicos, com descrição e ilustração de 38 plantas medicinais. Utilizou linguagem clara e acessível. O IVC global foi de 95,4%. Conclusão: a cartilha sobre o uso de plantas medicinais por quilombolas do Cerrado foi construída e validada por especialistas, sendo considerada adequada para promover o uso seguro dos fitoterápicos. O material apoiará o público-alvo, profissionais de saúde e a população, fortalecendo o autocuidado.

Palavras-chave: Tecnologia educacional; Educação em saúde; Quilombolas; Plantas medicinais; Fitoterapia.

INTRODUÇÃO

A história do Brasil foi marcada por processos de resistência e luta protagonizados por negros e negras submetidos a exploração hierárquica e à violência do regime escravista1. Nesse contexto, os quilombos emergiram como formas coletivas como formas coletivas de organização social resultantes das fugas de pessoas escravizadas em busca de liberdade, autonomia e preservação de seus modos de vida. Essas fugas ocorreram ao longo de todo período escravista e após a abolição formal da escravidão1,2.

Os quilombos, também denominados mocambos em determinados períodos históricos, constituíam-se como espaços de refúgio e resistência, formados tanto por fugas individuais quanto coletivas, que se tornaram progressivamente mais frequentes e estruturadas2. Os mocambos constituíam-se como aglomerados formados por populações negras oriundas de diferentes regiões do Brasil, portadoras de distintas experiências culturais, sociais e estratégias de sobrevivência3.

No entanto, desde o seu surgimento, essas comunidades passaram a vivenciar condições de vulnerabilidade social que, em muitos casos, persistem até a atualidade, em decorrência da insuficiência e da descontinuidade das políticas públicas voltadas ao atendimento de suas necessidades específicas4.

No contexto contemporâneo, as atividades laborais desenvolvidas nos territórios quilombolas caracterizam-se predominantemente pela informalidade e pela ausência de vínculos empregatícios formais, com destaque para a produção de artesanato, a agricultura familiar e as hortas comunitárias5.

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP, indicam que o Brasil possui apenas 2.526 escolas quilombolas, das quais apenas 2.174 oferecem o ensino fundamental e apenas 74 ofertam o ensino médio. Ressalta-se que, no estado de Goiás não há escolas localizadas em territórios quilombolas que ofertem o ensino médio. Essa realidade contribui significativamente para o aumento da evasão escolar entre os estudantes quilombolas, reforçando desigualdades educacionais perpetuando ciclos de vulnerabilidade socioeconômica na população afrodescendente6.  

Ressalta-se, ainda, o limitado conhecimento das comunidades quilombolas acerca dos serviços de saúde pública aos quais têm direito, assegurados pela Portaria GM/MS nº 4.036, de 29 de dezembro de 20217. Tal situação contribui para a maior exposição dessas comunidades a agravos à saúde, como doenças cardiovasculares, diabetes, enfermidades respiratórias crônicas, entre outras8.  

Observa-se ainda que o acesso aos serviços de saúde é significativamente restrito, uma vez que muitos territórios quilombolas apresentam ausência ou precariedade de transporte coletivo, além da inexistência de farmácias nas proximidades das moradias, dificultando a obtenção dos medicamentos necessários ao tratamento e à prevenção de doenças8,9.

Diante das limitações no acesso aos serviços formais de saúde, as comunidades quilombolas recorrem com frequência ao uso de plantas medicinais como estratégia de autocuidado. Essa prática, ancorada em saberes tradicionais, constitui uma herança ancestral que remonta à formação histórica dos quilombos e que vem sendo preservada e transmitida entre gerações, mantendo-se relevante até os dias atuais9.  

É importante ressaltar que o uso de plantas medicinais está profundamente enraizado na cultura quilombola, conferindo a essas comunidades um acervo significativo de saberes tradicionais relacionados à fitoterapia. Nesse sentido, a fitoterapia se revela uma estratégia acessível e culturalmente pertinente para a promoção da saúde desses povos10,11.

Contudo, embora detenham conhecimentos empíricos sobre o uso das plantas medicinais, os moradores das comunidades quilombolas necessitam do acompanhamento e da orientação de profissionais de saúde, a fim de obter informações seguras acerca das indicações terapêuticas, dos benefícios e das possíveis contraindicações dessas práticas11.

A articulação entre saberes tradicionais e conhecimento científico mostra-se fundamental para a prevenção de eventos adversos decorrentes do uso inadequado ou indiscriminado de plantas medicinais12.  

Diante desse contexto, mostrou-se pertinente a elaboração de uma cartilha educativa a respeito do uso adequado de plantas medicinais e medidas de biossegurança para informar as populações quilombolas. Esse tipo de tecnologia educativa caracteriza-se pela utilização de linguagem clara e acessível, aliada a utilização de imagens ilustrativas e descritivas que auxiliam na compreensão do leitor13.  

Ademais, por apresentar estrutura textual simples e recursos visuais didáticos, a cartilha educativa torna-se acessível inclusive a indivíduos com baixos níveis de escolaridade. Dessa forma, os materiais educativos ampliam o alcance das ações de educação em saúde e configuram-se como importantes tecnologias de apoio aos profissionais da saúde, contribuindo para processos de educação permanente e continuada.

Assim, objetivou descrever a construção e a validação de conteúdo de uma cartilha educativa sobre o uso de plantas medicinais por comunidades quilombolas do Cerrado.  

MATERIAL E MÉTODO

Trata-se de pesquisa metodológica conduzida em três etapas: levantamento de informações, construção da cartilha sobre plantas medicinais utilizadas por quilombolas do Cerrado e validação de conteúdo. A elaboração seguiu os princípios de Echer14 o que assegurou a qualidade e a efetividade do material.”

A primeira etapa consistiu na coleta de informações de um banco de dados oriundo de pesquisa com moradores das comunidades quilombolas Pombal e João Borges Vieira, situadas nas regiões central e norte de Goiás. A revisão em bases da área da saúde complementou os dados para a construção da cartilha. Utilizaram-se os descritores ‘plantas medicinais’, ‘etnobotânica’, ‘comunidade quilombola’, ‘contraindicação’ e os nomes científicos das espécies, com os operadores booleanos ‘and’ e ‘or’.

A segunda etapa contemplou a construção da cartilha, iniciada pela seleção e fichamento do conteúdo a partir do banco de dados e de artigos nacionais e internacionais. As informações essenciais foram organizadas em seções temáticas e, em seguida, elaborou-se o texto. Adotou-se linguagem clara e acessível, adequada também a leitores com baixa escolaridade, a fim de ampliar a compreensão e o alcance do material educativo13.

Em seguida, realizou-se a captação de imagens e a elaboração das ilustrações, com base no referencial bibliográfico e nos tópicos temáticos da cartilha. Um integrante da equipe produziu as figuras no software ibis Paint X 15, utilizando fotografias das plantas e diretrizes metodológicas. As ilustrações priorizaram clareza e atratividade, a fim de facilitar a compreensão e a memorização do conteúdo.

Após a construção, realizou-se a validação de conteúdo e aparência. O material foi avaliado por juízes especialistas na temática ou áreas afins, selecionados entre docentes da Faculdade Evangélica de Goianésia (FACEG) e profissionais da área. Utilizou-se o Instrumento de Validação de Conteúdo Educativo em Saúde (IVCES) e o Instrumento para Validação de Aparência de Tecnologias Educacionais em Saúde (IVATES), e considerou-se a concordância entre os especialistas16,17. O prazo de avaliação foi de 15 dias, em maio de 2023.

Os especialistas avaliaram objetivos, estrutura, apresentação, relevância do conteúdo, clareza da linguagem e pertinência teórico-prática da cartilha. Utilizou-se escala de Likert invertida18 (1 = discordo totalmente a 5 = concordo totalmente). Os escores 1 e 2 exigiram justificativas, e o item 3 não foi considerado. Os dados foram organizados e analisados no Microsoft Excel 2019.

A validação utilizou o Índice de Validação de Conteúdo (IVC), que mensura a concordância entre especialistas. Calculou-se pela razão entre itens com pontuação 4 ou 5 e o total avaliado. Adotou-se ponto de corte de IVC ≥ 0,7819. Após as sugestões dos juízes, realizaram-se ajustes no material educativo.

O estudo atende a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS)20 e obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) com o número em Pesquisa da CAEE: 45254921.7.0000.5076 e parecer Nº 5.555.504.

RESULTADOS

A construção da cartilha iniciou-se com a busca de informações em um banco de dados oriundo de pesquisa realizada, em 2023, com moradores dos quilombos Pombal e João Borges Vieira. O estudo caracterizou os saberes e as formas de uso de plantas medicinais em duas comunidades quilombolas do bioma Cerrado, com foco no resgate e na preservação de conhecimentos tradicionais e da identidade cultural do público-alvo.

A partir desses achados, o levantamento bibliográfico orientou a definição dos domínios da cartilha, incluindo nome popular e científico, uso tradicional, parte utilizada, modo de preparo e medidas de referência. Além disso, a consulta às bases científicas da área da saúde complementou as informações, especialmente no que se refere às contraindicações das espécies selecionadas.

Das 88 plantas mencionadas pelos quilombolas das duas comunidades, 38 foram selecionadas para compor a cartilha educativa. A escolha considerou a frequência de citação entre os informantes e a facilidade de acesso, com prioridade para espécies amplamente referidas e prontamente disponíveis aos moradores.

Após a coleta dos dados, a cartilha foi organizada em seções temáticas: capa; folha de rosto; ficha catalográfica; sumário; introdução, com objetivo, processo de elaboração e agradecimentos; modos de preparo dos fitoterápicos utilizados pelos quilombolas; plantas medicinais, com nome popular e científico, uso, parte empregada, forma de preparo, medida de referência e contraindicações; e referências consultadas.

Na segunda fase, elaborou-se o texto com articulação entre o saber tradicional quilombola sobre plantas medicinais e a literatura científica, em linguagem simples e acessível ao público-alvo. As ilustrações foram produzidas no aplicativo Ibis Paint X, a partir de fotografias das espécies e referências visuais do Pinterest, para assegurar fidelidade às imagens reais. Utilizaram-se cores vivas, com destaque para o verde, associado à saúde, vitalidade e harmonia.

A capa da cartilha apresentou uma ilustração baseada nas principais plantas medicinais utilizadas pelos quilombolas cerradeiros, a partir de fotografias originais das espécies. O verde recebeu destaque para reforçar, visualmente, a conexão com a natureza. O sumário adotou as cores predominantes do material e uma organização dinâmica, em consonância com a proposta estética das ilustrações.

Incluiu-se, no início da cartilha, uma página sobre os modos de preparo dos fitoterápicos utilizados pelo público-alvo, com o objetivo de reduzir repetições nas descrições das 38 plantas selecionadas. Também foi acrescentada uma seção de medidas de referência para líquidos e sólidos, que orienta o leitor quanto às equivalências em mililitros e gramas. Nas páginas seguintes, cada planta foi apresentada em diagramação padronizada, acompanhada de ilustrações e indicação das partes empregadas no preparo. Essa organização buscou tornar o material mais leve, claro e atrativo, evitando desgaste durante a leitura.

A cartilha foi produzida no aplicativo Canva, com tipografias Pony Club e Wodland, tamanhos entre 15 e 68, espaçamento de 1,5 e paleta composta por verde escuro, verde claro, amarelo claro e marrom claro, em alusão à natureza e aos chás medicinais. O material totalizou 55 páginas e foi impresso em papel Couché 115 g, em sistema offset.

A validação do conteúdo e da aparência da cartilha contou com a avaliação de juízes experts. Foram convidados 12 profissionais para compor uma equipe multiprofissional, porém apenas (oito) devolveram o instrumento no prazo, constituindo a amostra final. O grupo incluiu quatro enfermeiras (duas especialistas em plantas medicinais, uma com experiência em população negra e outra em biotecnologia), um agrônomo com atuação em agroecologia, uma farmacêutica da atenção básica, uma geógrafa da área de ciências humanas e uma linguista com expertise em sociolinguística e produção de conhecimento por mulheres negras. Entre os juízes, quatro eram doutores, dois doutorandos e dois especialistas, com idades entre 24 e 59 anos.

A validação da cartilha educativa deu-se através do cálculo do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), conforme descrito na Tabela 1. Foram calculados os IVCs para cada um dos itens avaliativos na cartilha, e os resultados obtidos foram iguais ou superiores a 87,5%. Na maioria dos itens avaliados, houve unanimidade nas respostas dos especialistas sobre a relevância dos mesmos, ou seja, o IVC foi de 100%. A média global do IVC foi de 95,4%, confirmando a validação da aparência e conteúdo da cartilha pelos especialistas.

Tabela 1 – Validação de conteúdo dos itens da cartilha “Construção e validação de cartilha educativa sobre plantas medicinais usadas por quilombolas do Cerrado”. Goianésia, Goiás, Brasil, 2023.

Critérios de avaliação da cartilha

N=8

IVC (%)

Objetivos

 

 

1.1 Os objetivos são coerentes com as necessidades de educação em saúde no uso de plantas medicinais.

8

100

1.2 A cartilha é importante para valorização e disseminação dos saberes sobre plantas medicinais dos quilombolas cerradeiros.

8

100

1.3 As informações da cartilha trazem um conhecimento empírico, fruto de observações e experiências vivenciadas pelos quilombolas cerradeiros.

8

100

1.4 A cartilha pode circular no meio científico da área.

7

87,5

1.5 A cartilha está formulada em um estilo centrado nos povos qui,lombolas, ou seja, o quilombola é o foco da importância.

7

87,5

Estrutura e apresentação

 

 

2.1 A cartilha é apropriada para os moradores de comunidades quilombolas.

7

87,5

2.2 O texto está claro e objetivo.

7

87,5

2.3 As informações estão cientificamente (contraindicações) e empiricamente corretas.

7

87,5

2.4 O material está apropriado ao nível sociocultural dos quilombolas.

8

100

2.5 Existe uma sequência lógica do conteúdo apresentado.

8

100

2.6 As informações estão estruturadas em concordância e ortografia.

7

87,5

2.7 A redação da cartilha corresponde ao nível de conhecimento dos quilombolas.

8

100

2.8 As informações da capa, contracapa, sumário e introdução (apresentação, elaboração da cartilha e agradecimentos) são coerentes.

8

100

2.9 O tamanho do título e dos tópicos está adequado.

8

100

2.10 As ilustrações estão expressivas e suficientes.

7

87,5

2.11 O material promove e estímulo a adesão ao uso das plantas medicinais.

8

100

2.12 O número de páginas está adequado.

8

100

Relevância

 

 

3.1 Os temas retratam pontos-chave que devem ser reforçados na educação em saúde no uso de plantas medicinais.

8

100

3.2 O material permite a transferência e generalizações do aprendizado a diferentes contextos.

7

87,5

3.3 A cartilha propõe a construção do conhecimento sobre os saberes dos povos quilombolas sobre plantas medicinais.

8

100

3.4 A cartilha aborda assuntos necessários sobre o uso das plantas medicinais.

8

100

Aparência

4.1. As ilustrações estão adequadas para o público-alvo

8

100

4.2. As ilustrações são claras e fáceis de compreender

8

87,5

4.3. As ilustrações são relevantes para a compreensão do conteúdo pelo público-alvo

8

87,5

4.4. As cores das ilustrações estão adequadas para o tipo de material

8

87,5

4.5. As formas das ilustrações estão adequadas para o tipo de material

8

100

4.6. As ilustrações retratam o cotidiano do público-alvo da intervenção

8

87,5

4.7. A disposição das figuras está em harmonia com o texto

8

87,5

4.8. As figuras utilizadas elucidam o conteúdo do material educativo

8

87,5

4.9. As ilustrações ajudam na exposição da temática e estão em uma sequência lógica

8

87,5

4.10. As ilustrações estão em quantidade adequada para o material educativo

8

87,5

4.11. As ilustrações estão em tamanhos adequados para o material educativo

8

100

4.12. As ilustrações ajudam na mudança de comportamento do público-alvo

8

100

Fonte: Elaborado pelos autores, 2023.

Apesar da elevada concordância, as sugestões dos especialistas na versão inicial foram incorporadas por sua pertinência, com o objetivo de aprimorar conteúdo e apresentação. As principais alterações incluíram simplificação de frases, substituição de termos técnicos e ajustes na formatação (Quadro 1). Após essas adequações, definiu-se a versão final da cartilha.

Quadro 1 – Sugestões dos juízes especialistas que participaram da validação da cartilha.

Página

Sugestões dos juízes especialistas

Análise

Capa

Colocar “quilombolas cerradeiros” no feminino caso a pesquisa tenha sido feita apenas com mulheres. Ou sem colocar gênero: “quilombolas do cerrado” (J1).

Aceito

Contracapa

Colocar título da seção: expediente/produção/ficha catalográfica/realização, abreviar sobrenomes e colocar embaixo do símbolo de enfermagem o nome de curso (Curso de Enfermagem) (J1, J2, J4).

Aceito

5

Corrigir “falta de transporte pública gratuito” por “falta de transporte público gratuito”, acrescentar referências e rever escrita textual (J2, J3, J5, J8).

Aceito

7

Refazer a imagem da Domingas para que os traços fiquem equivalentes à idade dela e reformular e adequar escrita para que fique mais clara (J1, J8).

Rejeitado

9

Corrigir erro ortográfico na descrição do sumo. Item 3.

Aceito

18

Substituir “uma xícara de café em meio litro de água (chá) ou um litro de álcool” para que fique mais compreensível e exemplificar contraindicações: “uso durante a gestação (pode causar aborto)” (J8).

Aceito

20

Exemplificar o termo “alérgicos”, colocando entre parênteses: indivíduos que tenham quaisquer problemas de alergia (J8).

Aceito

21

Substituir o termo “amas”.

Aceito

22

Rever se a planta não deve ser ingerida ou não deve ser ingerida somente em altas quantidades, inserir o “e” em: “protetor solar, câncer e infecção e corrigir nome científico (epiteto específico inicia com letra minúscula)” (J1).

Aceito

25

Substituir: “uso interno durante a gravidez” por “ingerir durante a gravidez” (J8).

Aceito

29

Inserir o “e” em: “cólicas menstruais e gases em criança (J1).

Aceito

31

Substituir “gripe, tosse, febre, abortivo, infecção, gases, cólica e dor de barriga” por “pode ter efeito abortivo e é nefrotóxico” (J8).

Rejeitado

32

Rever uso popular e contraindicações, adequando a uma linguagem mais clara (J8).

Aceito

44

Rever a expressão: “ingerir proporcionalmente a mesma quantidade de salada” que consta na medida de referência (J5).

Rejeitado

45

Substituir o termo “o uso interno” por “o uso do chá” (J8).

Aceito

Fonte: Elaborado pelos autores, 2023.

DISCUSSÃO

A cartilha retratou os métodos de preparo utilizados pelos moradores da comunidade quilombolas, bem como as finalidades terapêuticas das plantas. Além de apoiar a educação em saúde nas comunidades quilombolas, a cartilha também disponibiliza informações acessíveis à população e aos profissionais de saúde. Esses podem utilizá-la para qualificar a comunicação e orientar pacientes e famílias, fortalecendo o cuidado e o trabalho da equipe 21.

Além de ampliar o conhecimento, o material educativo valoriza os saberes tradicionais das comunidades quilombolas22. A fitoterapia integra a cultura quilombola e constitui prática ancestral transmitida oralmente entre gerações. Nesse sentido, o material educativo ultrapassa o registro informativo e contribui para a preservação da identidade cultural dessas comunidades22, 23.

Ademais, por apresentar baixa complexidade teórica, linguagem simples e ilustrações didáticas, o material mostrou-se potencialmente compreensível mesmo para indivíduos com baixos níveis de escolaridade. O vocabulário empregado foi adequado ao público-alvo, evitando termos técnicos e privilegiando palavras claras e acessíveis, o que favorece a apropriação do conteúdo. A utilização de ilustrações também se destacou como estratégia relevante para captar a atenção do leitor, uma vez que recursos visuais ampliam as possibilidades de aprendizagem e retenção das informações13,22.

Para assegurar a qualidade da cartilha, esta passou por um processo de validação conduzido por juízes de diferentes áreas do conhecimento, o que possibilitou a integração de saberes complementares e resultou em contribuições qualificadas para o aprimoramento do conteúdo. A literatura aponta que a atuação multiprofissional no desenvolvimento de tecnologias educacionais amplia as perspectivas de análise e fortalece a qualidade final do material produzido. Nesse sentido, a cartilha apresentou conformidade com os padrões da língua portuguesa e com princípios de design instrucional que facilitam a navegação e a compreensão do conteúdo, reduzindo a necessidade de leitura exaustiva17.

Resultados semelhantes foram identificados em estudos que abordaram o uso de plantas medicinais em diferentes contextos, como durante a gestação, nos quais cada planta foi apresentada com nome popular e científico, indicações terapêuticas, parte utilizada, contraindicações e modo de preparo. Essas pesquisas também destacaram o uso de linguagem simples e didática, tornando o processo de aprendizagem acessível, interativo e dinâmico, abordagem igualmente adotada na construção da presente cartilha educativa. Outro material educativo analisado apresentou estrutura semelhante, contemplando capa, apresentação, índice e informações sobre cultivo, cuidados, preparo, indicações e modo de uso de plantas medicinais. Embora esse material tenha utilizado imagens reais das plantas, observa-se que ilustrações bem elaboradas, como as utilizadas neste estudo, também são capazes de transmitir informações com clareza e eficácia16,17.

De modo geral, as avaliações realizadas pelos juízes mostraram-se alinhadas à proposta da cartilha, conforme evidenciado pelos resultados obtidos. Estudos metodológicos semelhantes também reportam elevados índices de validação de materiais educativos. Como exemplo, uma cartilha voltada à promoção da alimentação saudável entre pessoas com diabetes apresentou índice de validade de conteúdo de 0,96, enquanto outro estudo direcionado à promoção da saúde de pessoas hipertensas alcançou um IVC global de 0,9124,25. Esses achados reforçam a consistência metodológica e a confiabilidade dos materiais educativos validados por meio desse instrumento.

Embora o Índice de Validade de Conteúdo global obtido neste estudo tenha sido considerado satisfatório, os juízes sugeriram ajustes pontuais que contribuíram para o aprimoramento do material, evidenciando o caráter construtivo do processo de validação. Outros estudos que validaram cartilhas educativas impressas também utilizaram o IVC como método de validação e passaram por reformulações até alcançar a versão final, ressaltando a importância dessa etapa no desenvolvimento de tecnologias educacionais em saúde13,16,17,19.

Como limitação do estudo, destaca-se o fato de a cartilha educativa não ter sido validada junto ao público-alvo, o que restringe a avaliação direta do nível de compreensão dos quilombolas sobre o conteúdo apresentado. No entanto, ressalta-se que as informações que fundamentaram a elaboração do material derivam de pesquisa previamente conduzida em comunidades quilombolas, o que conferiu maior aderência cultural ao conteúdo. Ademais, a cartilha foi desenvolvida com linguagem acessível e recursos visuais didáticos, com o propósito de facilitar a compreensão e promover a educação em saúde sobre o uso seguro e adequado das plantas medicinais.

CONCLUSÃO

A cartilha educativa sobre o uso das principais plantas medicinais por quilombolas do Cerrado foi construída e validada quanto ao conteúdo por juízes especialistas. Trata-se de um recurso a ser incorporado em ações educativas, com potencial para qualificar o conhecimento sobre o uso seguro e adequado dessas plantas.

O material oferece suporte ao público-alvo, aos profissionais de saúde e à população em geral, ao esclarecer dúvidas e fortalecer o autocuidado. A cartilha reúne informações sobre as partes utilizadas, modos de preparo, medidas de referência e contraindicações das espécies abordadas.

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