BOAS PRÁTICAS OBSTÉTRICAS NA ASSISTÊNCIA AO PARTO EM UM MUNICÍPIO DO NORDESTE BRASILEIRO

GOOD OBSTETRIC PRACTICES IN CHILDBIRTH CARE IN A MUNICIPALITY IN NORTHEASTERN BRAZIL

BUENAS PRÁCTICAS OBSTÉTRICAS EN LA ATENCIÓN AL PARTO EN UN MUNICIPIO DEL NORDESTE DE BRASIL

Tipo de artigo: Artigo de estudo primário

Autores

Tays Campos Ribeiro

Enfermeira, Universidade Federal do Maranhão

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7608-9924

Thaís Michele Lopes Soares

Enfermeira, Universidade Federal do Maranhão

Orcid: https://orcid.org/0009-0008-2587-1407

Laiana Pereira Ribeiro

Enfermeira, Universidade Federal do Maranhão

Orcid: https://orcid.org/0009-0002-0079-0463

Danielly de Kássia Silveira Sá

Enfermeira, Universidade Federal do Maranhão

Orcid: https://orcid.org/0009-0005-8723-1841

Gleicyelen Rego Lopes

Enfermeira, Universidade Federal do Maranhão

Orcid: https://orcid.org/0009-0001-5320-5398

Ellen Rose Sousa Santos

Mestra Enfermeira, Universidade Federal do Maranhão

Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7158-868X

Dayanne da Silva Freitas

Doutora Enfermeira, Universidade Federal do Maranhão

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7796-8218

RESUMO

Objetivo: Identificar a adesão às boas práticas obstétricas na assistência ao parto a partir da percepção das puérperas. Método: Estudo descritivo, transversal e quantitativo, realizado com 326 mulheres no puerpério imediato, internadas em uma maternidade da Baixada Maranhense. A coleta de dados ocorreu entre abril e agosto de 2023, por meio de instrumento estruturado, e os dados foram analisados por estatística descritiva. Resultado: Observou-se baixa adesão às práticas recomendadas, destacando-se a limitação da liberdade de posição durante o parto, a ausência de acompanhante e a não realização da amamentação na primeira hora de vida. Conclusão: Apesar das recomendações nacionais e internacionais para a humanização da assistência obstétrica, as boas práticas ainda são pouco implementadas no contexto estudado, evidenciando a necessidade de qualificação da assistência ao parto.

DESCRITORES: Parto humanizado; Assistência ao parto; Obstetrícia; Período pós-parto.

  ABSTRACT

Objective: To identify adherence to good obstetric practices in childbirth care from the perspective of postpartum women. Method: A descriptive, cross-sectional, and quantitative study was conducted with 326 women in the immediate postpartum period, hospitalized in a maternity hospital in the Baixada Maranhense region. Data collection took place between April and August 2023, using a structured instrument, and the data were analyzed using descriptive statistics. Result: Low adherence to recommended practices was observed, highlighting the limitation of freedom of position during childbirth, the absence of a companion, and the failure to breastfeed in the first hour of life. Conclusion: Despite national and international recommendations for the humanization of obstetric care, good practices are still poorly implemented in the studied context, highlighting the need to improve the quality of childbirth care.

DESCRIPTORS: Humanized childbirth; Childbirth assistance; Obstetrics; Postpartum period.

RESUMEN

Objetivo: Identificar la adherencia a las buenas prácticas obstétricas en la atención del parto desde la perspectiva de las puérperas. Método: Estudio descriptivo, transversal y cuantitativo realizado con 326 mujeres en el puerperio inmediato, hospitalizadas en una maternidad de la región de Baixada Maranhense. La recolección de datos se realizó entre abril y agosto de 2023 mediante un instrumento estructurado, y los datos se analizaron mediante estadística descriptiva. Resultado: Se observó una baja adherencia a las prácticas recomendadas, destacando la limitación de la libertad de posición durante el parto, la ausencia de acompañante y la falta de lactancia materna en la primera hora de vida. Conclusión: A pesar de las recomendaciones nacionales e internacionales para la humanización de la atención obstétrica, las buenas prácticas aún presentan una implementación deficiente en el contexto estudiado, lo que resalta la necesidad de mejorar la calidad de la atención del parto. 

DESCRIPTORES: Parto humanizado; Asistencia al parto; Obstetricia; Posparto.

INTRODUÇÃO

        As boas práticas de atenção ao parto e nascimento configuram um modelo assistencial fundamentado em evidências científicas, com o objetivo de reduzir intervenções desnecessárias e promover desfechos maternos e neonatais favoráveis 1.

A humanização da assistência obstétrica, por meio da adoção dessas práticas, constitui uma estratégia essencial para a superação do modelo biomédico intervencionista, ao favorecer a autonomia da mulher, o respeito à fisiologia do parto e a vivência de experiências positivas do processo de parturição, contribuindo para maior satisfação, confiança e segurança 1,2.

Com o intuito de orientar a assistência obstétrica, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou, em 1996, recomendações para o cuidado durante o trabalho de parto e parto, posteriormente atualizadas em 2018 3. No contexto brasileiro, tais diretrizes foram fortalecidas por políticas públicas como a Rede Cegonha, instituída em 2011, e pela Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal, publicada em 2016, que estimulam práticas como o respeito à privacidade, o apoio contínuo à parturiente, o uso de métodos não farmacológicos para alívio da dor, a liberdade de posição e movimento, além do contato pele a pele e da amamentação na primeira hora de vida 4,5.

Apesar dos avanços normativos, a adesão às boas práticas obstétricas ainda representa um desafio, uma vez que intervenções não recomendadas permanecem amplamente utilizadas nas maternidades brasileiras, em desacordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, repercutindo negativamente nos desfechos maternos e neonatais 6.

Diante desse cenário, torna-se relevante o desenvolvimento de estudos que analisem as práticas assistenciais adotadas no cuidado obstétrico, especialmente sob a perspectiva das mulheres. Assim, este estudo tem como objetivo identificar a adesão às boas práticas obstétricas na assistência ao parto a partir da percepção das puérperas, partindo-se da hipótese de que essa adesão ocorre de forma parcial ou insuficiente, refletindo a persistência de um modelo assistencial centrado em intervenções médico-hospitalares e a limitada incorporação de práticas recomendadas para a humanização do cuidado.

MATERIAL E MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo, transversal e de natureza quantitativa, vinculado à pesquisa intitulada “Saberes e Experiências das Mulheres em Relação ao Pré-Natal e Trabalho de Parto”. O estudo foi conduzido no Hospital Materno Infantil Nossa Senhora das Mercês, localizado no município de Pinheiro-MA.

A população do estudo foi constituída por mulheres em puerpério imediato de parto cesáreo ou vaginal. Foram excluídas mulheres com diagnóstico de doença mental ou com incapacidade cognitiva.

Para o cálculo amostral, levou-se em consideração dados do Sistema de Informação de Nascidos Vivos referente ao ano de 2020 no município de Pinheiro, no qual foram registrados 2241 nascidos vivos, sendo 2133 (95,2%) ocorridos no Hospital Materno Infantil Nossa Senhora das Mercês. Com base nesse quantitativo, a amostra foi calculada considerando um nível de confiança de 95% e erro amostral de 5%, totalizando 326 mulheres. A fórmula utilizada para o cálculo foi: n=N.Z2.p. (1-p) / Z2.p.(1-p) + e2.N-1 (n: amostra calculada, N: população, Z: variável normal p: real probabilidade do evento, e: erro amostral) 7.

A coleta dos dados do estudo ocorreu no período de abril a agosto de 2023 e compreendeu a aplicação de um questionário estruturado, constituído por questões organizadas em blocos, sendo: Características sociodemográficas, econômicas e de saúde; Dados obstétricos e aspectos relacionados ao trabalho de parto e parto, elaborados com base em diretrizes nacionais e internacionais 3,5.

Antes da aplicação do instrumento, as participantes foram esclarecidas quanto aos objetivos da pesquisa e, após concordância, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para participantes menores de 18 anos, foi utilizado o Termo de Assentimento, sendo exigida a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido por um responsável legal maior de 18 anos.

     Os dados foram tabulados no Microsoft Excel 2016® e posteriormente foi realizada a estatística descritiva para caracterização da amostra e distribuição das frequências das diferentes variáveis analisadas. Foi realizada a análise descritiva, considerando IC 95%, utilizando Jamovi 2.3.28 e os resultados dispostos por meio de tabelas.

Este estudo foi submetido à Plataforma Brasil e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o parecer nº 5.984-505.

RESULTADOS        

No momento de coleta de dados foram abordadas 453 mulheres, dessas, 126 não aceitaram fazer parte do estudo e 1 não estava dentro dos critérios de inclusão. Desse modo, fizeram parte do estudo 326 mulheres. Destas mulheres, a maioria apresentou idade entre 20 e 34 anos 233 (71,5%), 138 (42,3%) possuíam ensino médio completo, 244 (74,8%) eram pardas, 212 (65%) eram casadas/união estável e 212 (65%) não possuíam ocupação. Quanto à renda familiar, 181 (55,5%) possuíam renda menor que 1 salário mínimo (Tabela 1).

TABELA 1. Caracterização sociodemográfica e estilo de vida dos participantes do estudo. Pinheiro-MA, 2023.

Variável

N

%

Faixa Etária

<15 anos

2

0,6

15 a 19 anos

62

19,0

20 a 35 anos

233

71,5

> 35 anos

29

8,9

Escolaridade

Sem instrução

0

0,0

Ensino fundamental incompleto

43

13,2

Ensino fundamental completo

26

8,0

Ensino médio incompleto

77

23,6

Ensino médio completo

138

42,3

Ensino superior incompleto

22

6,8

Ensino superior completo

20

6,1

Raça/cor

Branca

24

7,4

Parda

244

74,8

Preta

47

14,4

Amarela

5

1,5

Indígena

3

0,9

Outro

3

0,9

Estado civil

Solteira

113

34.7

Casada/estável

212

65.0

Viúva

0

0,0

Outro

1

0,3

Possui ocupação

Sim

114

35,0

Não

212

65,0

Renda familiar

Menos de 1 salário mínimo

181

55,5

1 salário mínimo

85

26,1

Entre 2 e 3 salários mínimos

54

16,6

Outro

6

1,8

Total

326

100,0

Fonte: Elaborado pelos autores

Em relação aos dados obstétricos,144 (44,2%) das mulheres relataram ser a segunda ou terceira gestação, 268 (82,2%) e 291 (89,3%) estavam com idade gestacional entre 37 e 41 semanas no momento do parto (Tabela 2).

TABELA 2. Descrição do perfil obstétrico das participantes do estudo. Pinheiro-MA, 2023.

Variável

N

%

Quantas vezes engravidou

1 gestação

 132

40,5

2 a 3 gestações

144

44,2

Mais de 3 gestações

50

15,3

Idade gestacional no momento do parto

0-21 semanas

0

0,0

22-27 semanas

0

0,0

28-36 semanas

24

7,4

37-41 semanas

291

89,3

42 semanas ou mais

11

3,3

Total

326

100,0

Fonte: Elaborado pelos autores

Na Tabela 3 observa-se os tipos de parto atual das entrevistadas, onde 159 (48,8%) das mulheres tiveram o parto vaginal e 167 (51,2%) tiveram o parto cesáreo.

TABELA 3. Tipo de parto das participantes do estudo. Pinheiro-MA, 2023.

Variável

n

%

Parto vaginal

159

48,8

Parto cesáreo

167

51,2

Total

326

100,0

Fonte: Elaborado pelos autores

As boas práticas obstétricas durante o trabalho de parto e parto nas mulheres que tiveram parto cesáreo e vaginal, podem ser observadas na Tabela 4.

Das mulheres que tiveram o parto vaginal, 101 (64,0%) receberam orientações sobre o seu trabalho de parto, 8 (5,0%) foram liberadas para adotar a posição mais confortável para parir, a 13 (8,0%) foi permitido o acompanhante durante o parto, 75 (47,0%) amamentaram na primeira hora de vida e 123 (77,0%) realizaram o contato pele a pele na primeira hora de vida, no entanto, por tempo menor que 10 minutos, segundo as mulheres correspondendo ao período de retirada da placenta. Quanto aos métodos de alívio da dor, 58 (36,0%) utilizaram a bola suíça, 49 (31,0%) foram orientadas quanto ao movimento de balanço do quadril e cavalinho, 106 (67,0%) foram orientadas sobre os exercícios respiratórios, 31 (19,0%) receberam massagem lombossacral e 1 (1,0%) realizou o banho de água morna. Nenhuma recebeu outros métodos como acupuntura, acupressão, auriculoterapia, aromaterapia e analgesia peridural.

Em relação às mulheres que tiveram parto cesáreo, vale destacar que estão incluídas tanto mulheres que entraram em trabalho de parto quanto mulheres que não entram em trabalho de parto e tiveram cirurgia agendada.

Das mulheres de parto cesáreo, 72 (43,0%) receberam informações sobre a progressão do trabalho de parto, 13 (8,1%) tiveram acompanhante durante o parto, 55 (33,0%) amamentaram na primeira hora de vida e 11 (7,0%) foram colocadas em contato pele a pele na primeira hora de vida. Para os métodos de alívio da dor, 32 (19,0%) utilizaram a bola suíça, 26 (16,0%) foram orientadas quanto ao movimento de balanço do quadril e cavalinho, 61 (37,0%) receberam orientações dos profissionais sobre os exercícios respiratórios e 11 (7,0%) receberam massagem lombossacral, não foram ofertados outros métodos como banho de água morna, acupuntura, acupressão, auriculoterapia, aromaterapia e analgesia peridural. Dessas mulheres submetidas a cesariana, 142 (85,0%) foram orientadas pelos profissionais sobre o motivo do parto cesáreo (Tabela 4).

TABELA 4. Caracterização das boas práticas durante o trabalho de parto e parto percebidas pelas mulheres. Pinheiro-MA, 2023.

Variável

Parto vaginal

Parto cesáreo

N

%

N

%

Recebeu informações sobre a progressão do trabalho de parto

Sim

101

64,0

72

43,0

Não

58

36,0

95

57,0

Liberada para adotar a posição mais confortável para parir

Sim

8

5,0

0

0,0

Não

151

95,0

167

100,0

Acompanhante durante o parto

Sim

13

8,0

13

8,0

Não

146

92,0

154

92,0

Bebê colocado para mamar na primeira hora de vida

Sim

75

47,0

55

33,0

Não

84

53,0

112

67,0

Contato pele a pele na primeira hora de vida

Sim

123

77,0

11

7,0

Não

36

23,0

156

93,0

Utilização de bola suíça

Sim

58

36,0

32

19,0

Não

101

64,0

135

81,0

Orientação quanto ao movimento de balanço do quadril e cavalinho

Sim

49

31,0

26

16,0

Não

110

69,0

141

84,0

Orientação quanto exercícios respiratórios

Sim

106

67,0

61

37,0

Não

53

33,0

106

93,0

Massagem lombossacral

Sim

31

19,0

11

7,0

Não

128

81,0

156

93,0

Banho com água morna

Sim

1

1,0

0

0,0

Não

158

99,0

167

100,0

Acupuntura

Sim

0

0,0

0

0,0

Não

159

100,0

167

100,0

Acupressão

Sim

0

0,0

0

0,0

Não

159

100,0

167

100,0

Auriculoterapia

Sim

0

0,0

0

0,0

Não

159

100,0

167

100,0

Aromaterapia

Sim

0

0,0

0

0,0

Não

159

100,0

167

100,0

Analgesia peridural 

Sim

0

0,0

0

0,0

Não

159

100,0

167

100,0

Orientada pelos profissionais sobre o motivo do parto cesáreo

Sim

0

0,0

142

85,0

Não

0

0,0

25

15,0

Não se aplica

159

100

0

0,0

Total

159

100,0

167

100,0

Fonte: Elaborado pelos autores

DISCUSSÃO

A análise dos dados sociodemográficos evidenciou que a maioria das mulheres tinha idade entre 20 e 34 anos, ensino médio completo, autodeclarava-se parda, vivia em união estável ou era casada, não possuía ocupação formal e apresentava renda inferior a um salário mínimo. Esse perfil pode influenciar diretamente as experiências no parto e no pós-parto, uma vez que condições como menor escolaridade, renda reduzida e desemprego estão associadas ao acesso limitado a informações sobre direitos reprodutivos e práticas obstétricas baseadas em evidências, o que pode comprometer a qualidade da assistência recebida. Ademais, mulheres em situação de vulnerabilidade social apresentam maior exposição a práticas obstétricas desatualizadas e potencialmente violentas 6.

No que se refere às boas práticas observadas no local do estudo, constatou-se baixa adesão à liberdade de escolha da posição para parir, em desacordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde 3. Evidências científicas demonstram que a adoção de posições verticalizadas no parto vaginal está associada à melhora do bem-estar materno e fetal, à otimização da dinâmica uterina, à redução da duração do trabalho de parto e à menor incidência de episiotomia, em virtude dos efeitos biomecânicos da gravidade sobre a pelve materna 8. Ademais, estudo conduzido por Modi et al. (2023) 9 demonstrou que a possibilidade de escolha da posição esteve relacionada a experiências mais positivas, com maior conforto e satisfação das mulheres em relação ao processo de parturição.

Quanto à presença do acompanhante, observou-se baixa adesão ao direito assegurado pela Lei nº 11.108/2005, que garante à parturiente a presença de acompanhante de livre escolha durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato 10. No local do estudo, apenas 8% das mulheres com parto vaginal e 8% das submetidas à cesariana tiveram acompanhante no momento do parto, evidenciando discrepância entre a legislação vigente e a prática institucional.

A literatura demonstra que a presença do acompanhante está associada a maior sensação de segurança e confiança, com repercussões positivas na evolução fisiológica do parto e no fortalecimento dos vínculos familiares 11. Além disso, estudo transversal identificou que a ausência de acompanhante aumentou em 2,13 vezes a prevalência de contenção física durante o parto, enquanto sua presença esteve associada ao maior uso de métodos não farmacológicos e à liberdade de escolha da posição para parir 12.

Em relação à amamentação, a Organização Mundial da Saúde recomenda que seja iniciada na primeira hora de vida, por estar associada a benefícios relevantes para o binômio mãe-bebê, incluindo a redução do risco de hemorragia pós-parto, da mortalidade neonatal, o aumento da probabilidade de aleitamento materno exclusivo e o fortalecimento da interação mãe-bebê 3,13,14. Entretanto, no cenário analisado, essa prática mostrou-se pouco estimulada, especialmente entre mulheres submetidas à cesariana. Estudos recentes indicam que o parto vaginal está associado a maiores chances de amamentação na primeira hora de vida quando comparado ao parto cesáreo, evidenciando a influência da via de parto e das práticas assistenciais no início oportuno do aleitamento materno 15,16.

No que diz respeito aos métodos não farmacológicos de alívio da dor, constatou-se baixa adesão a essas intervenções na maternidade estudada, sobretudo entre mulheres submetidas à cesariana. Apenas uma parcela das parturientes utilizou recursos como bola suíça, massagem lombossacral e banho morno, além de receber orientações sobre exercícios respiratórios, balanço pélvico e uso do cavalinho, enquanto práticas como acupuntura, auriculoterapia e aromaterapia não foram disponibilizadas. Esses achados corroboram os resultados de Costa et al. (2021) 17, que também observaram maior utilização dessas estratégias entre mulheres com parto vaginal.

A literatura reconhece os métodos não farmacológicos como elementos centrais da humanização do parto, promovendo redução da dor, aumento do conforto e diminuição da ansiedade materna, além de fortalecer a autonomia da mulher e evitar intervenções desnecessárias, em consonância com as recomendações da Organização Mundial da Saúde 18.

Quanto ao acesso à informação, constatou-se que a maioria das mulheres recebeu orientações sobre a progressão do trabalho de parto e as indicações para o parto operatório, configurando um desfecho favorável no contexto da avaliação da assistência obstétrica. Entretanto, a presença isolada dessa prática mostra-se insuficiente para assegurar uma assistência plenamente qualificada. A literatura evidencia que a comunicação eficaz, caracterizada pela transmissão clara de informações, escuta ativa e abordagem acolhedora, exerce impacto positivo sobre a experiência do parto, ao ampliar a satisfação materna, a percepção de segurança e o sentimento de controle sobre o processo parturitivo. Nesse contexto, ao reconhecer a parturiente como sujeito ativo do cuidado, a comunicação qualificada assume papel estratégico não apenas na melhoria da experiência assistencial, mas também como elemento fundamental para a superação do modelo tecnocrático ainda hegemônico na atenção obstétrica 19.

O contato pele a pele na primeira hora de vida foi mais frequentemente referido entre mulheres submetidas ao parto vaginal, sendo pouco observado entre aquelas que realizaram cesariana. Contudo, mesmo nos partos vaginais, a prática não foi efetivamente implementada, uma vez que o tempo de contato observado foi inferior a 10 minutos, em desacordo com as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Evidências apontam diferença significativa na realização do contato pele a pele entre as vias de parto, com maior prevalência no parto vaginal quando comparado à cesariana 16,20.

Conforme as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o contato pele a pele imediato e contínuo entre mãe e recém-nascido a termo, clinicamente estável, deve ser assegurado por, no mínimo, uma hora após o nascimento, inclusive em cesarianas, na ausência de contraindicações 21. Essa prática contribui para a colonização cutânea pela microbiota materna, favorece a estabilidade térmica, glicêmica e hemodinâmica neonatal, reduz a necessidade de hospitalização e está associada ao início oportuno e à maior duração do aleitamento materno, além de reduzir o risco de hemorragia pós-parto, atenuar a dor materna e promover maior satisfação da mulher e fortalecimento do vínculo mãe-bebê 22-24.

Dessa forma, a assistência ao parto e ao nascimento deve ser orientada por um modelo de cuidado humanizado e fundamentado em evidências científicas. A incorporação sistemática das práticas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde configura-se como estratégia central para a superação do modelo tecnocrático ainda predominante, ao favorecer o protagonismo da mulher, qualificar a experiência do parto e promover maior satisfação materna, contribuindo para a consolidação de uma assistência obstétrica centrada na mulher 1.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise das boas práticas obstétricas evidenciou sua adoção restrita a uma parcela reduzida das parturientes, refletindo a permanência de um modelo assistencial predominantemente tecnocrático, centrado em intervenções médico-hospitalares, em detrimento de uma abordagem baseada no cuidado humanizado e nas necessidades da mulher.

Os resultados ressaltam os desafios persistentes para a efetiva implementação de práticas obstétricas centradas na mulher e oferecem subsídios relevantes para o aprimoramento de políticas públicas e intervenções voltadas à reorientação do modelo assistencial. Como limitação do estudo, destaca-se a não distinção, no momento da coleta de dados, entre mulheres que entraram em trabalho de parto e aquelas submetidas à cesariana eletiva, o que pode ter influenciado a interpretação dos achados.

Diante desse cenário, recomenda-se a realização de estudos futuros que investiguem estratégias de educação permanente em saúde no contexto das maternidades brasileiras, considerando que a manutenção de práticas desatualizadas evidencia a necessidade de qualificação contínua dos profissionais para a incorporação efetiva das boas práticas obstétricas.

REFERÊNCIAS

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AGRADECIMENTOS, APOIO FINANCEIRO OU TÉCNICO, DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO E/OU DE AFILIAÇÕES:

Os autores agradecem às mulheres que participaram do estudo e à instituição onde a pesquisa foi realizada pela colaboração concedida. Este trabalho não contou com apoio financeiro de agências de fomento, tendo sido desenvolvido no âmbito do Curso de Enfermagem da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), como requisito para a conclusão do Trabalho de Conclusão de Curso. Os autores declaram não haver conflito de interesses financeiros, institucionais ou pessoais relacionados à realização deste estudo.