PREVALÊNCIA DO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS E COMPLICAÇÕES OBSTÉTRICAS EM GESTANTES ASSISTIDAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA
PREVALENCE OF PSYCHOACTIVE SUBSTANCES USE AND OBSTETRIC COMPLICATIONS IN PREGNANT WOMEN ASSISTED IN PRIMARY CARE
PREVALENCIA DEL CONSUMO DE SUSTANCIAS PSICOACTIVAS Y COMPLICACIONES OBSTÉTRICAS EN MUJERES EMBARAZADAS ATENDIDAS EN ATENCIÓN PRIMARIA
Tipo de artigo: Artigo original
Autores
Maryah Cecília Ledesma Ribeiro
Acadêmica de Enfermagem na Universidade Franciscana (UFN).
Orcid: https://orcid.org/0009-0005-6449-7065
Daiana Foggiato de Siqueira
Enfermeira, doutora em Enfermagem e professora adjunta no departamento de Enfermagem na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8592-379X
Priscila de Melo Zubiaurre
Psicóloga, mestre em Enfermagem e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2594-4628
Josi Barreto Nunes
Enfermeira no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) e mestre em Saúde Materno Infantil.
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9364-841X
Naiana Oliveira dos Santos
Enfermeira, doutora em Enfermagem e professora adjunta no departamento de Enfermagem na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5439-2607
Clândio Timm Marques
Matemático, doutor em Estatística e Investigação Operacional e professor adjunto no departamento de Matemática da Universidade Franciscana (UFN).
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9984-0100
Lisiele Marin Roath
Acadêmica de Enfermagem na Universidade Franciscana (UFN).
Orcid: https://orcid.org/0009-0007-3913-526X
Keity Laís Siepmann Soccol
Enfermeira, doutora em Enfermagem e professora adjunta no departamento de Enfermagem na Universidade Franciscana (UFN).
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7071-3124
RESUMO
Objetivo: verificar a prevalência do uso de substâncias psicoativas e as complicações obstétricas decorrentes do uso em gestantes assistidas na Atenção Primária à Saúde. Método: estudo transversal analítico, realizado com prontuários eletrônicos de mulheres gestantes, assistidas em um serviço da Atenção Primária de um município do interior do Rio Grande do Sul. A coleta de dados ocorreu em 2023, identificando 162 prontuários de gestantes que atendiam aos critérios estabelecidos. Realizou-se análise descritiva dos dados a partir de variáveis categóricas em forma percentual e as quantitativas em média e, para verificar a prevalência, aplicou-se o teste qui-quadrado. Resultados: as gestantes que fizeram o uso de tabaco tiveram parto prematuro cerca de duas vezes mais em relação às mulheres que não usaram. Conclusão: compreende-se a necessidade de facilitar o acesso de gestantes ao pré-natal e promover ações educativas acerca dos riscos associados ao uso de substâncias durante a gestação.
DESCRITORES: Gravidez; Uso de tabaco; Consumo de bebidas alcoólicas; Epidemiologia.
ABSTRACT
Objective: To determine the prevalence of psychoactive substance use and obstetric complications resulting from its use in pregnant women receiving primary health care. Method: An analytical cross-sectional study conducted with electronic medical records of pregnant women receiving primary health care in a municipality in the central region of Rio Grande do Sul. Data collection took place in 2023, identifying 162 medical records of pregnant women who met the established criteria. A descriptive analysis of the data was performed using categorical variables as percentages and quantitative variables as means. The chi-square test was used to determine prevalence. Results: Pregnant women who used tobacco had a preterm birth approximately twice as often as women who did not use tobacco. Conclusion: The need to facilitate pregnant women's access to prenatal care and promote educational activities regarding the risks associated with substance use during pregnancy is clear.
DESCRIPTORS:
RESUMEN
Objetivo: Determinar la prevalencia del consumo de sustancias psicoactivas y las complicaciones obstétricas derivadas de su consumo en embarazadas que reciben atención primaria de salud. Método: Estudio transversal analítico realizado con historias clínicas electrónicas de embarazadas que reciben atención primaria de salud en un municipio de la región central de Rio Grande do Sul. La recolección de datos tuvo lugar en 2023, identificándose 162 historias clínicas de embarazadas que cumplieron con los criterios establecidos. Se realizó un análisis descriptivo de los datos utilizando variables categóricas como porcentajes y variables cuantitativas como medias. Se utilizó la prueba de chi-cuadrado para determinar la prevalencia. Resultados: Las embarazadas que consumieron tabaco tuvieron un parto prematuro aproximadamente el doble de veces que las mujeres que no consumieron tabaco. Conclusión: Es evidente la necesidad de facilitar el acceso de las embarazadas a la atención prenatal y promover actividades educativas sobre los riesgos asociados al consumo de sustancias durante el embarazo.
DESCRIPTORES:
INTRODUÇÃO
A gravidez é um período que implica mudanças significativas nos aspectos físicos, psicológicos, sociais e familiares das mulheres(1). A experiência de gestar um filho é emocionalmente intensa, repleta de sentimentos que podem ser complexos, mesmo quando ocorre em condições normativas(2).
Em relação à gestação, o consumo de substâncias psicoativas (SPAs) pela gestante representa um fator de impacto negativo nessa trajetória(3). Destaca-se que as SPAs podem ser classificadas em lícitas ou ilícitas, dependendo de sua autorização legal para o consumo. Dentre àquelas lícitas, encontram-se o tabaco e o álcool(4) que são as mais utilizadas pelas gestantes(5-6). Sabe-se que as prevalências estimadas no Brasil sobre o uso destas SPAs apresentam-se superiores à média mundial. Em senso realizado no ano de 2012, estima-se que cerca de 15,2% das gestantes consumiram bebida alcoólica e 9,6% teriam o hábito de fumar(7).
Com isso, pode-se dizer que o consumo de tabaco e álcool por gestantes representa um desafio significativo para a saúde materno-fetal(3), pois interfere no funcionamento fisiológico do organismo, podendo desencadear doenças e complicações obstétricas adversas. Entre as possíveis consequências, destacam-se as anomalias congênitas, o parto prematuro e, em casos mais graves, a morte fetal ou materna(8-10).
Para a prevenção de complicações, é ofertado, por meio da Atenção Primária à Saúde (APS), a assistência pré-natal. Ela compreende uma diversidade de intervenções e cuidados voltados às gestantes, com o intuito de promover um processo saudável, preparar a mãe para o parto e pós-parto e, identificar e gerenciar as possíveis complicações, dentre elas aquelas implicadas pelo uso de SPAs(11).
Frente ao exposto, compreende-se a necessidade de conhecer a dimensão de tal problemática e entender quais são os grupos de gestantes mais vulneráveis ao consumo de SPAs. Desse modo, é fundamental o desenvolvimento de pesquisas que avaliem a prevalência do uso de substâncias, especialmente de álcool, durante a gestação, para que, assim, seja possível traçar políticas públicas voltadas a essa questão no período de pré-natal, bem como ao rastreamento e ao aumento do acesso das gestantes aos serviços de saúde(12). Assim, a presente pesquisa tem como objetivo verificar a prevalência do uso de substâncias psicoativas e as complicações obstétricas decorrentes do uso em gestantes assistidas na Atenção Primária à Saúde.
MÉTODO
Trata-se de um estudo transversal analítico, realizado a partir de prontuários eletrônicos de gestantes, assistidas por uma unidade de Estratégia Saúde da Família (ESF), integrante da APS de um município do interior do Rio Grande do Sul. Para a elaboração do relatório, seguiu-se os passos sugeridos pelo checklist The Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).
A coleta de dados foi realizada do ano de 2023, por acadêmicos e doutores em Enfermagem. Para a seleção dos dados, considerou-se os critérios de inclusão: prontuários de gestantes, com idade igual ou superior a 18 anos que realizaram o pré-natal na ESF e que passaram pelo parto no período de 2020 a 2022.
Inicialmente, para identificar as gestantes foi consultada uma lista gerada pelo sistema eletrônico de informação da ESF que continha informações básicas dos prontuários dos usuários acompanhados pelo serviço. Assim, foram identificados 162 prontuários de gestantes que atendiam aos critérios estabelecidos.
Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário sociodemográficos contendo as seguintes variáveis: idade, escolaridade, raça/cor, ocupação, vínculo empregatício, estado civil, tipo de SPA de consumo e, se sofreu ou não complicações obstétricas na gestação. Em relação às complicações, elas foram pré-definidas, sendo: hemorragias, parto prematuro e parto tardio. Os dados foram duplamente digitados em planilha do Excel® e, posteriormente, transportados para o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 25.
Assim, para a caracterização da amostra, foi realizada uma análise descritiva dos dados dos prontuários, sendo que as variáveis categóricas foram apresentadas em forma percentual e as quantitativas em média, desvio padrão máximo e mínimo. Já para avaliar os fatores associados à prevalência do uso de SPAs com as complicações obstétricas, aplicou-se o teste do qui-quadrado. As associações foram consideradas significativas quando os resultados apresentaram o valor-p < 0,05.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o parecer nº 5.183.201 e CAAE 54327821.0.0000.5306. Ademais, seguiu os preceitos éticos da Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.
RESULTADOS
A idade média das gestantes foi de 28,1 anos, sendo que a maioria se autodeclarou branca (82,1%). Em relação à escolaridade, majoritariamente, apresentaram ensino básico (67,1%), seguida por ensino médio (27,3%) e superior (5,6%). A maioria era casada ou em união estável (40,7%) e vínculo empregatício não informado no prontuário (43,9%). Grande parte não continha a informação sobre o benefício social (76,4%), conforme apresentado na tabela 1.
Tabela 1 - Características sociodemográficas das gestantes.
Variáveis | Resultados |
Idade (média±DP) (mínima - máxima) | 28,1±7 (13-46 anos) |
Raça/cor | nº (%) |
Branco | 133 (82,1%) |
Não banco | 29 (17,9%) |
Escolaridade | nº (%) |
Ensino básico | 108 (67,1%) |
Ensino médio | 44 (27,3%) |
Ensino superior | 9 (5,6%) |
Estado civil | nº (%) |
Solteira | 40 (24,7%) |
Casada/União estável | 66 (40,7%) |
Não informado | 56 (34,6%) |
Vínculo empregatício | nº (%) |
Possui | 25 (15,4%) |
Não possui | 66 (40,7%) |
Não informado | 71 (43,9%) |
Benefício social | nº (%) |
Auxílio Brasil | 38 (23,6%) |
Não informado | 123 (76,4%) |
Em relação ao número de gestações, 49 mulheres estavam na primeira gestação, conforme exposto no gráfico 1. Com isso, a média é de 2,5 gestações por mulher, sendo que, destas, 160 foram gestações únicas (98,8%) e duas (1,2%) gemelares.
Gráfico 1 - Proporção de gestantes pelo número de gestações.
Dentre os 162 prontuários, em 32 haviam a indicação de que as gestantes faziam o uso de tabaco e em outros 12 o uso de álcool. A tabela 2 apresenta a associação do uso de tabaco em relação a algumas complicações obstétricas.
Tabela 2 - Associação entre uso de tabaco em relação as complicações obstétricas.
Complicações obstétricas | Uso de tabaco | p | |
Hemorragia | Sim | Não | 0,301 |
Sim | 0 (0%) | 4 (3,6%) | |
Não | 32 (100%) | 119 (96,7%) |
|
Parto prematuro | Sim | Não | |
Sim | 2 (6,2%) | 11 (8,9%) | 0,624 |
Não | 30 (93,8%) | 112 (91,1%) | |
Parto tardio | Sim | Não | |
Sim | 3 (9,4%) | 6 (4,9%) | 0,333 |
Não | 29 (90,6%) | 117 (95,1%) | |
Evidenciou-se que não houve associação entre o uso de tabaco em relação aos casos de hemorragia, parto prematuro e parto tardio. Ao analisar a complicação ‘hemorragia’, observou-se que 32 parturientes que faziam o uso de tabaco não apresentaram hemorragia, enquanto 3,3% não fizeram o uso desta substância e tiveram a complicação.
Verificou-se que as gestantes que usaram tabaco tiveram parto prematuro cerca de duas vezes mais em relação às mulheres que não usaram (OR = 2,017). O mesmo foi percebido em relação as gestantes que usaram tabaco em comparação com aquelas que não fizeram o uso e, ainda assim, tiveram o parto tardio, conforme expressado na tabela 3.
Tabela 3 - Associação do uso de álcool com as complicações obstétricas.
Complicações obstétricas | Uso de álcool | p | |
Hemorragia | Sim | Não | 0,557 |
Sim | 0 (0%) | 4 (2,8%) | |
Não | 12 (100%) | 139 (97,2%) |
|
Parto prematuro | Sim | Não | |
Sim | 1 (8,3%) | 12 (8,4%) | 0,994 |
Não | 11 (91,7%) | 131 (91,6%) | |
Parto tardio | Sim | Não | |
Sim | 0 (0%) | 9 (6,3%) | 0,371 |
Não | 12 (100%) | 134 (93,7%) | |
Evidenciou-se não haver associação entre o uso de álcool e os casos de hemorragia (p=0,557), parto prematuro (p=0,994) e parto tardio (p=0,371). Na análise da hemorragia, nota-se que as parturientes que consumiram álcool (12) não apresentaram hemorragia, enquanto as que não consumiram (quatro) tiveram esta complicação.
DISCUSSÃO
Os resultados quanto a idade média das gestantes (28,1 anos) converge com resultados de outras pesquisas(5;7;13;10) realizadas. Apesar disso, destaca-se que a idade de início do uso de SPAs tem se mostrado precoce, sugerindo o período da adolescência como um fator de risco decisivo para desenvolver tal comportamento(5).
Evidenciou-se que as mulheres com maior prevalência de uso de SPAs, relacionadas à complicações obstétricas, são predominantemente brancas, com níveis de escolaridade mais baixos e com parceiro(a), sem mencionar se possuem emprego ou recebem assistência social. Nesse viés, os dados de raça/cor e possuir companheiro(a) divergem daqueles encontrados na literatura que afirma que, comumente, são negras e sem companheiro(a)(10;14-15). Ainda, mulheres casadas tendem a fumar menos em comparação com aquelas que possuem outros estados civis(16)
No que tange a escolaridade, uma possível razão para o maior consumo de SPAs entre gestantes com menor nível é a falta de acesso a informações sobre os efeitos prejudiciais desse hábito. Pesquisa(17), mostrou maior prevalência de consumo de álcool durante a gravidez, especialmente entre mulheres com menor nível educacional, o que pode ser atribuído à falta de conhecimento e baixo acesso a informação, além da aceitação cultural do consumo de substâncias lícitas. Um outro estudo(10;14), ratifica a informação de que gestantes com menor escolaridade possuem alta frequência no consumo de álcool e uso de tabaco.
Apesar de a maioria (43,9%) dos prontuários não conter a informação sobre vínculo empregatício das gestantes, a segunda maior prevalência foi em relação àquelas mulheres que não possuíam vínculo (40,7%). Este dado vai ao encontro dos resultados da pesquisa(10) que analisou a prevalência do uso de álcool entre os anos de 2011 e 2012 no Brasil, cuja aponta maior prevalência do uso de tabaco e álcool por gestantes que apresentavam maior vulnerabilidade social e classes econômicas mais baixas. Tal fato pode estar associado aos desafios no acesso dessas mulheres à assistência ao pré-natal à dificuldades em aderir as ações de promoção de saúde.
No que se refere ao número de gestações, os resultados revelaram o predomínio de multigestas. Estudos(5;6) evidenciaram que multigestas apresentam maior prevalência ao uso de SPAs em comparação às mulheres que tem menos filhos. Pode-se presumir que este comportamento tem relação à gestações não planejadas(5).
Quanto à associação do uso de tabaco durante a gestação com complicações obstétricas, os resultados indicaram que as gestantes tiveram parto prematuro cerca de duas vezes mais em relação às mulheres que não usaram. Além do mais, evidenciou-se que não houve associação entre o uso do álcool e os casos de hemorragia, de parto prematuro e de parto tardio. Embora esta pesquisa não tenha apresentado uma associação entre o uso de tabaco e as complicações obstétricas, sabe-se que elas estão significativamente relacionadas ao uso e abuso de SPAs, configurando-se um problema de saúde pública(13;18-19).
Sabe-se que o tabagismo ativo e passivo, bem como o consumo de álcool durante a gravidez estão associados a maior taxa de incidência de parto prematuro. Ademais, as gestantes cujos cônjuges eram fumantes, apresentaram um risco aumentado de parto prematuro(20). As gestantes fumantes ativas tiveram uma idade gestacional ao parto menor em comparação com as mulheres expostas passivamente ao fumo e as não fumantes(21).
No que tange ao uso de álcool, não houve associação com as complicações obstétricas de hemorragia, parto prematuro e parto tardio. Além do mais, os resultados evidenciaram que as gestantes que não fizeram o uso da substância apresentaram hemorragia. Ainda que este tenha sido o resultado, compreende-se que o álcool possui efeito teratogênico e pode causar danos durante toda a gestação, dependendo da quantidade consumida, da genética e da nutrição materna. Seu uso pode resultar em danos físicos e/ou mentais, aborto, lesões cerebrais fetais e síndrome alcoólica fetal(18;22), além de dificuldades para dormir, distúrbios de atenção e linguagem, problemas comportamentais, distúrbios cognitivos(23), maior incidência de diabetes mellitus gestacional, doença hipertensiva e síndromes hemorrágicas(24). Sendo assim, compreende-se que há uma associação estatisticamente significativa entre consumo de álcool e intercorrências gestacionais(6).
Destaca-se que gestantes com consultas de pré-natal insuficientes apresentaram maior prevalência de consumo de álcool durante a gravidez, o que indica menos oportunidades de receber orientações sobre os riscos deste comportamento durante o período(10). Desse modo, compreende-se que o papel dos profissionais da saúde na condução das consultas de pré-natal de usuárias de SPAs é desafiador, pois demanda reconhecer o uso, orientar e prestar um cuidado adequado às gestantes(25). Para isso, é necessário estabelecer vínculo com as gestantes para que se sintam acolhidas e aumentar a adesão ao pré-natal(5).
Por fim, considera-se que a limitação da pesquisa esteja relacionada a possíveis subnotificações nos prontuários quanto ao uso de SPAs. Apesar disso, os dados encontrados são relevantes, pois contribuem para a produção dos epidemiológico sobre uso de SPAs por gestantes, especialmente de tabaco e álcool, e a associação destas com as complicações obstétricas.
CONCLUSÃO
O estudo possibilitou verificar a prevalência do uso de SPAs e as complicações obstétricas decorrentes do uso em gestantes assistidas na APS. Evidenciou-se que as gestantes que fizeram o uso do tabaco tiveram parto prematuro cerca de duas vezes mais em relação às mulheres que não fizeram o uso.
Ressalta-se que o consumo de álcool e tabaco representa um fator de risco significativo para a gestação. Portanto, é imprescindível evitar o uso na gravidez, uma vez que não há evidências sobre doses seguras do consumo.
Frente ao exposto, compreende-se a necessidade de facilitar o acesso de gestantes ao pré-natal e promover ações educativas acerca dos riscos do uso de SPAs durante a gestação. Para isso, a abordagem desse tema por parte dos profissionais de saúde deve ocorrer de forma acolhedora e esclarecedora, contribuindo para a adesão da usuária às ações de cuidado durante o período gestacional.
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AGRADECIMENTOS, APOIO FINANCEIRO OU TÉCNICO, DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO E/OU DE AFILIAÇÕES:
Os autores declaram que a presente pesquisa não contou com apoio financeiro ou técnico.
Os autores declaram não haver conflitos de interesse financeiro e/ou de afiliações.