CARACTERÍSTICAS SOCIODEMOGRÁFICAS, CLÍNICAS E DE VACINAÇÃO ASSOCIADA À COVID-19 EM GESTANTES E PUÉRPERAS: ESTUDO TRANSVERSAL

SOCIODEMOGRAPHIC, CLINICAL AND VACCINATION CHARACTERISTICS ASSOCIATED WITH COVID-19 IN PREGNANT AND POSTPARTUM WOMEN: CROSS-SECTIONAL STUDY

CARACTERÍSTICAS SOCIODEMOGRÁFICAS, CLÍNICAS Y DE VACUNACIÓN ASOCIADAS AL COVID-19 EN MUJERES EMBARAZADAS Y PUÉRPERAS: ESTUDIO TRANSVERSAL

Tipo de artigo: Artigo original

Gustavo Gonçalves dos Santos 

Enfermeiro Obstétrico e Doutorando em Ciências. Programa de Pós-graduação do Departamento de Ginecologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/UNIFESP). São Paulo - SP, Brasil. Orcid: ​​https://orcid.org/0000-0003-1615-7646 

Edson Silva do Nascimento 

Enfermeiro Neonatologista e Doutorando em Ciências. Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM/USP). São Paulo - SP, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6343-0401   

Luis Henrique de Andrade 

Enfermeiro Obstétrico e Doutorando em Ciências. Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). São Paulo - SP, Brasil.

Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2982-5252 

Taís de Abreu Ferro

Enfermeira Neonatologista e Doutoranda em Ciências. Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EE/USP). São Paulo - SP, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1878-6825 

Lucia Helena Ferreira Viana

Enfermeira Saúde da Família e Mestra em Ciências Sociais. Centro Universitário Piaget (UNIPIAGET). São Paulo - SP, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0009-0009-7879-0341 

Célia Maria Pinheiro dos Santos

Assistente Social e Mestra em Ciências. Doutoranda em Saúde Coletiva. Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho” (FMB/UNESP). São Paulo - SP, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0159-7139 

Cícero Ricarte Beserra Junior

Enfermeiro Obstétrico e Mestre em Ciências. Enfermeiro da Estratégia Saúde da Família do Município de Senador Pompeu. Ceará - CE, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7871-0761 

Pedro Vitor Mendes Santos

Enfermeiro Obstétrico e Mestre em Ciências. Doutorando em Ciênicas. Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Piauí. Teresina - PI, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2249-1440 

Priscilla Sete de carvalho Onofre

Enfermeira Obstétrica e Doutora em Ciências. Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (EPE/UNIFESP). São Paulo - SP, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8830-0993 

Beatriz María Bermejo-Gil 

Enfermeira e Doutora em Ciências. Facultad de Enfermería y Fisioterapia de la Universidad de Salamanca (USAL). Salamanca, Espanha. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1878-1090 

Leticia López Pedraza

Enfermeira, Matrona e Doutora em Ciências. Escuela Universitaria de Enfermería Cruz Roja de la Universidad Autónoma de Madrid (EUE/UAM). Madrid, Espanha. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3557-375X 

Giovana Aparecida Gonçalves Vidotti

Enfermeira e Doutora em Ciências. Programa de Pós-graduação do Departamento de Ginecologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/UNIFESP). São Paulo - SP, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0070-7044 

RESUMO

Objetivo: O estudo analisou as características sociodemográficas, clínicas e de vacinação associadas à COVID-19 em gestantes e puérperas no Brasil, utilizando dados do Observatório Obstétrico Brasileiro (OOBr). Método: Trata-se de um estudo transversal, descritivo e exploratório, baseado em dados secundários do OOBr. Foram incluídas gestantes e puérperas notificadas com COVID-19 entre 2020 e 2024. A análise contemplou variáveis sociodemográficas, clínicas e de vacinação, com apresentação gráfica das tendências ao longo do período. Resultados: Os dados mostraram maior incidência da doença em gestantes de 20 a 34 anos, com predominância de mulheres pardas e brancas. O pico de hospitalizações ocorreu em 2021, seguido por redução nos anos seguintes. A vacinação demonstrou baixa adesão inicial, mas aumentou progressivamente. A mortalidade materna relacionada à COVID-19 afetou principalmente mulheres com comorbidades. Conclusão: O estudo destaca a importância da vacinação e do acompanhamento pré-natal na redução da morbidade e mortalidade materna, evidenciando desigualdades regionais no acesso à saúde.

DESCRITORES: COVID-19; Características da População; Monitoramento Epidemiológico; Saúde da Mulher; Sistema de Informação em saúde

ABSTRACT

Objective: This study analyzed the sociodemographic, clinical, and vaccination characteristics associated with COVID-19 in pregnant and postpartum women in Brazil, using data from the Brazilian Obstetric Observatory (OOBr). Method: A cross-sectional, descriptive, and exploratory study was conducted using secondary data from the OOBr. Pregnant and postpartum women diagnosed with COVID-19 between 2020 and 2024 were included. The analysis considered sociodemographic, clinical, and vaccination variables, with graphical representation of trends over time. Results: The data showed a higher incidence of the disease among pregnant women aged 20 to 34 years, with a predominance of mixed-race and white women. Hospitalizations peaked in 2021, followed by a decline in subsequent years. Vaccination adherence was initially low but increased over time. Maternal mortality related to COVID-19 primarily affected women with comorbidities. Conclusion: The study highlights the importance of vaccination and prenatal care in reducing maternal morbidity and mortality, revealing regional inequalities in healthcare access.

DESCRIPTORS: COVID-19; Population Characteristics; Epidemiological Monitoring; Women's Health; Health Information System

RESUMEN

Objetivo: Este estudio analizó las características sociodemográficas, clínicas y de vacunación asociadas con la COVID-19 en mujeres embarazadas y puérperas en Brasil, utilizando datos del Observatorio Obstétrico Brasileño (OOBr). Método: Se realizó un estudio transversal, descriptivo y exploratorio basado en datos secundarios del OOBr. Se incluyeron mujeres embarazadas y puérperas diagnosticadas con COVID-19 entre 2020 y 2024. El análisis consideró variables sociodemográficas, clínicas y de vacunación, con representación gráfica de las tendencias a lo largo del tiempo. Resultados: Los datos mostraron una mayor incidencia de la enfermedad en mujeres embarazadas de entre 20 y 34 años, con predominio de mujeres mestizas y blancas. Las hospitalizaciones alcanzaron su punto máximo en 2021, seguidas de una disminución en los años posteriores. La adherencia a la vacunación fue inicialmente baja, pero aumentó con el tiempo. La mortalidad materna relacionada con la COVID-19 afectó principalmente a mujeres con comorbilidades. Conclusión: El estudio resalta la importancia de la vacunación y del cuidado prenatal para reducir la morbilidad y mortalidad materna, evidenciando desigualdades regionales en el acceso a la salud.

DESCRIPTORES: COVID-19; Características de la Población; Vigilancia Epidemiológica; Salud de la Mujer; Sistema de Información Sanitaria

INTRODUÇÃO

A pandemia de COVID-19 trouxe desafios significativos para a saúde pública global, afetando de maneira particular gestantes e puérperas. Alterações imunológicas e fisiológicas inerentes à gestação podem aumentar a suscetibilidade a infecções respiratórias graves, incluindo a causada pela Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2). Assim, é importante reconhecer que gestantes com COVID-19 têm maior probabilidade de hospitalização, necessidade de cuidados intensivos e ventilação mecânica em comparação com mulheres não grávidas(1).

Diante desse contexto de maior risco, as manifestações clínicas da COVID-19 em gestantes podem variar de assintomáticas a quadros graves, sintomas comuns incluem: febre, tosse e dispneia. No entanto, algumas gestantes podem apresentar menos sintomas típicos, o que pode retardar o diagnóstico e o tratamento adequados. Em relação às comorbidades como: diabetes mellitus, doenças pulmonares e cardiovasculares, estas são mais frequentes entre gestantes com COVID-19, contribuindo para o agravamento do quadro clínico(2).

Inicialmente, identificou-se que as gestantes apresentavam sintomas semelhantes aos da população geral, como febre, tosse e dispneia, mas havia pouca evidência sobre a progressão da COVID-19 nesse grupo na ocasião(3). Adicionalmente, surgiram preocupações relacionadas à escolha do tipo de parto, uma vez que gestantes infectadas pela SARS-CoV-2 evoluem para quadros graves associados a comorbidades, necessitando de parto cesariano de emergência ou parto prematuro, aumentando o risco de morte materna e neonatal(4).

Um estudo brasileiro identificou que 28,2% das gestantes com COVID-19 necessitaram de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e 9,5% evoluíram para óbito. Os fatores associados ao maior risco de internação incluíram região de residência, trimestre gestacional, número de comorbidades e presença de sintomas respiratórios; já o risco de óbito foi maior em gestantes com idade superior a 34 anos, presença de comorbidades, saturação de oxigênio menor que 95%, necessidade de suporte ventilatório e internação em UTI(5).

Utilizando dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do DataSUS e do Portal da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), realizaram um estudo descritivo e ecológico, a mediana histórica da Razão de Mortalidade Materna (RMM) no Brasil, de 1996 a 2021, foi de 56,79 óbitos por 100.000 nascidos vivos. Durante a pandemia, essa taxa aumentou para 110,25 por 100.000 nascidos vivos, com 40,5% desses óbitos relacionados à COVID-19, cerca de 70% dos óbitos maternos relacionados à COVID-19 ocorreram no período puerperal, as mortes afetaram predominantemente mulheres solteiras, pardas e com ensino médio completo(6).

Durante a pandemia de COVID-19, com o maior pico em 2021, atingiu 113,1 óbitos maternos por 100.000 nascidos vivos, havendo uma distribuição desigual da mortalidade materna(7). Adiante, um aumento de 39% no número de óbitos maternos em 2021 em relação à tendência histórica, totalizando 3.030 mortes.

Esse índice ultrapassou a meta estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que visa reduzir a mortalidade materna para menos de 70 óbitos por 100.000 nascidos vivos. Além disso, a análise regional destacou desigualdades significativas, evidenciando a necessidade de estratégias direcionadas para mitigar o impacto da pandemia na saúde materna(8).

Diante desse cenário, a vacinação emergiu como uma estratégia crucial para a proteção desse grupo. O Ministério da Saúde do Brasil recomenda a imunização de gestantes e puérperas, como a Pfizer (Comirnaty®) e a CoronaVac, visando reduzir a morbidade e mortalidade materna associadas à COVID-19. A vacinação durante a gravidez também oferece o benefício adicional de transferência de anticorpos maternos para o feto, potencialmente conferindo proteção ao recém-nascido(9).

Um estudo realizado com 348 puérperas em maternidades entre junho e setembro de 2022, revelou que apenas 17,2% das gestantes completaram o esquema vacinal recomendado(10). A vacinação de gestantes e puérperas têm sido amplamente recomendada para prevenir formas graves de COVID-19 e reduzir a mortalidade materna(11).

A gravidez e o período pós-parto são momentos críticos na vida das mulheres, e a pandemia expôs essas populações a riscos elevados devido às alterações imunológicas e fisiológicas. Nesse contexto destaca-se a importância da vacinação, que desempenha um papel crucial na prevenção de complicações graves e morte. Dessa forma, este estudo propõe analisar as características sociodemográficas, clínicas e de vacinação associadas à COVID-19 em gestantes e puérperas pelo Observatório Obstétrico Brasileiro (OOBr).

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal, descritivo e exploratório, de base populacional, seguindo as recomendações do checklist Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).

O estudo foi conduzido com dados provenientes do OOBr, uma plataforma interativa de monitoramento, cientificamente embasada na disseminação de informações relevantes na área da saúde materno-infantil(12), trabalhou-se com o painel Observatório Obstétrico Brasileiro da Síndrome Respiratória Aguda Grave (OOBr SRAG) (https://observatorioobstetrico.shinyapps.io/covid_gesta_puerp_br/).

O Brasil é um país de dimensões continentais, dividido em cinco regiões geográficas principais (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul). Além das regiões, a análise considerou a zona de residência das gestantes e puérperas, classificando-as como: urbana, periurbana e rural.

Foram incluídos no estudo dados de gestantes e puérperas notificadas com COVID-19 no período de fevereiro de 2020 a dezembro de 2024, conforme registros disponíveis no OOBr. Critérios de inclusão compreendem mulheres com diagnóstico confirmado de COVID-19 e informações disponíveis sobre variáveis sociodemográficas, clínicas e de vacinação. Foram excluídos casos com informações incompletas nessas variáveis.

As variáveis foram categorizadas sociodemográficas: idade, cor da pele, escolaridade, região de residência, zona de residência; clínicas: mudança de município, contato com suíno, viagem, hospitalização, internação em UTI, óbito materno); e vacinação: status vacinal contra gripe e antiviral.

A análise descritiva foi realizada por meio do cálculo de frequências absolutas e relativas para variáveis categóricas e medidas de tendência central e dispersão para variáveis numéricas. Para melhor interpretar a evolução dos casos, foram calculadas as frequências absolutas de cada variável por ano, além de proporções relativas dentro do total de registros.

Os resultados foram apresentados em gráficos descritivos, destacando as principais associações encontradas. O gráfico de linhas foi escolhido como a melhor representação visual para essa análise, pois facilita a observação das tendências e variações ao longo do tempo. Cada linha representa uma variável, e os pontos marcados indicam os valores correspondentes a cada ano. O uso de diferentes estilos de linha (contínua, tracejada, pontilhada) ajuda na distinção das categorias.

Os principais softwares utilizados incluem: o Python que é amplamente utilizado na análise de dados devido à sua flexibilidade e poder computacional; a biblioteca Pandas é utilizada para manipulação e organização dos dados, permitindo a estruturação de séries temporais; Matplotlib empregada para a criação de gráficos de linhas, personalizando cores, estilos de traço e legendas; e Seaborn para aprimorar a visualização, adicionando estilos e melhorando a apresentação dos gráficos. Ocorreu-se durante esse processo: importação das bibliotecas necessárias (Pandas, Matplotlib e Seaborn), organização dos dados em um DataFrame (estrutura de tabela utilizada no Pandas), plotagem do gráfico de linhas, representando as tendências ao longo dos anos e personalização do gráfico, incluindo título, legenda e eixos para melhor interpretação.

O estudo seguiu as diretrizes éticas da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e não precisou ser submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa, pois utilizou dados secundários anonimizados do OOBr, garantindo o sigilo e a privacidade das participantes.

RESULTADOS

A análise da evolução temporal das características sociodemográficas entre 2020 e 2024 representada na figura 1 revela padrões distintos de variação nas diferentes categorias avaliadas. A faixa etária de 20 a 34 anos apresenta os maiores números absolutos ao longo do período, com um pico em 2021 e uma queda progressiva nos anos seguintes. A categoria 20 anos segue uma tendência similar, mas com valores mais baixos. Já a faixa >=35 anos demonstra um crescimento mais expressivo até 2021, seguido de uma redução acentuada.

Observa-se que a população branca e parda compõe a maior parte dos registros, com um aumento significativo em 2021, seguido por uma estabilização e queda nos anos subsequentes. O grupo indígena apresenta uma trajetória irregular, com uma queda expressiva após 2020, enquanto a população preta e amarela mantém padrões mais estáveis, embora em menor escala.

A maioria dos indivíduos possui ensino médio ou superior, com um aumento expressivo até 2021 e posterior declínio. O ensino fundamental (anos iniciais e finais) segue uma tendência semelhante. Já os indivíduos sem escolaridade mantêm valores baixos ao longo dos anos, o que sugere um padrão mais restrito de participação desse grupo.

A distribuição regional evidencia que o Sudeste concentra a maior parte dos registros, seguido pelo Nordeste. Ambas as regiões apresentaram um crescimento acentuado até 2021, seguido de um declínio. O Sul se destaca pelo aumento mais expressivo entre 2020 e 2021, mantendo-se em patamares elevados. Já as regiões Norte e Central apresentam menor representatividade, com tendência decrescente após 2021. A população urbana dominou os registros ao longo dos anos, com uma forte concentração em 2021 e um leve declínio posterior. A zona rural e periurbana possuem números significativamente menores, mas seguem uma trajetória relativamente estável.

Figura 1 - Evolução temporal das características sociodemográficas de gestantes e puérperas com COVID-19. Brasil (2020-2024)

Imagem resultante

Fonte: Elaborado pelos autores com dados extraídos do Obstétrico Brasileiro da Síndrome Respiratória Aguda Grave. Brasil, 2025.

Os dados ilustrados na figura 2 analisam a evolução de diferentes variáveis ao longo dos anos de 2020 a 2024, destacando mudanças nos padrões observados. Observa-se que a maioria dos indivíduos não mudou de município, com um pico em 2021 (48,4%), seguido por uma redução nos anos seguintes. Aqueles que mudaram de município também atingiram o maior valor em 2021 (54,6%) antes de diminuírem. Isso sugere um aumento na mobilidade em 2021. A maioria dos registros em 2020 não envolviam histórico de viagem (85,2%), enquanto em 2021 houve uma alta significativa na categoria <NA> (58,0%).

A tendência segue um padrão semelhante, com um aumento dos registros em 2021 (48,7%) e um declínio nos anos seguintes. A porcentagem de casos positivos ("sim") para essa variável permaneceu baixa ao longo dos anos. O maior percentual de registros para vacinados ocorre em 2020 (38,5%), mas em 2021 há um aumento expressivo na categoria "não vacinados" (55,5%). O uso do Oseltamivir foi mais concentrado em 2020 (66,6%), enquanto o Zanamivir teve um uso mais amplo em 2021 (50,6%).

Figura 2 - Tendência temporal por mudança de local de residência, viagem, contato com suínos, vacinação e antivirais. Brasil (2020-2024)

Fonte: Elaborado pelos autores com dados extraídos do Obstétrico Brasileiro da Síndrome Respiratória Aguda Grave. Brasil, 2025.

A análise da tendência dos indicadores hospitalares ao longo dos anos conforme apresentada na figura 3 revela um padrão significativo na evolução dos casos. Observa-se um pico acentuado em 2021, seguido por uma queda progressiva nos anos subsequentes. Em 2020, os números já indicavam um volume considerável de hospitalizações e necessidade de suporte ventilatório, mas foi em 2021 que os casos atingiram seu ápice. A categoria de hospitalizados apresenta um aumento expressivo de 2020 para 2021, com uma posterior redução em 2022 e uma estabilização em números mais baixos em 2023 e 2024. O mesmo comportamento é notado nos internados em UTI e nos pacientes que necessitaram de suporte ventilatório, tanto invasivo quanto não invasivo.

Figura 3 - Tendência de internações, hospitalização em UTI e desfechos clínicos. Brasil (2020-2024)

Fonte: Elaborado pelos autores com dados extraídos do Obstétrico Brasileiro da Síndrome Respiratória Aguda Grave. Brasil, 2025.

DISCUSSÃO

A pandemia de COVID-19 teve um impacto significativo na saúde materna, especialmente entre gestantes e puérperas, devido às alterações fisiológicas e imunológicas inerentes a esse grupo. A análise dos dados sociodemográficos, clínicos, de vacinação e mortalidade permite compreender melhor os fatores de risco e as estratégias para mitigar os efeitos da infecção pela SARS-CoV-2 neste grupo.

Os dados analisados apontam que a maioria das gestantes acometidas pela COVID-19 estavam na faixa etária de 20 a 34 anos, com predomínio de mulheres pardas e brancas, refletindo a composição populacional do Brasil. O ensino médio foi a escolaridade mais frequente, e houve um aumento expressivo no número de casos entre 2020 e 2021, seguido por uma estabilização nos anos subsequentes(13,14).

A distribuição regional revelou que o Sudeste concentrou a maioria dos registros, seguido pelo Nordeste, enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste apresentaram menor representatividade. Esses dados indicam um reflexo das disparidades no acesso a serviços de saúde e na distribuição populacional, fatores que podem influenciar tanto a prevenção quanto o desfecho da doença(15,16).

A maioria das gestantes com COVID-19 não mudou de município e não teve histórico de viagem recente, embora tenha havido um aumento na mobilidade em 2021. Ademais, a presença de comorbidades como diabetes mellitus e doenças cardiovasculares esteve associada a um agravamento do quadro clínico e maior risco de internação(17,18). Os dados também indicam um aumento da taxa de hospitalização e internação em UTI no pico da pandemia, em 2021, seguido de uma redução nos anos subsequentes(19).

A vacinação contra a COVID-19 foi um fator determinante, entretanto, a adesão ao esquema vacinal completo foi baixa, com apenas 17,2% das gestantes recebendo todas as doses recomendadas(20,21). Fatores como acesso a informação, percepção da segurança da vacina e apoio familiar influenciaram diretamente na adesão à imunização(22,23). As diretrizes do Ministério da Saúde recomendam a vacinação com imunizantes sem vetor viral, como Pfizer e CoronaVac, considerando os benefícios na redução da morbimortalidade materna e na transferência de anticorpos ao recém-nascido(23,24).

A mortalidade materna aumentou expressivamente durante a pandemia, atingindo um pico de 113,1 óbitos por 100.000 nascidos vivos em 2021, o que ultrapassou a meta estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)(7). Aproximadamente 40,5% dos óbitos maternos estavam relacionados à COVID-19, sendo que 70% ocorreram no período puerperal(6). Observou-se ainda uma distribuição desigual da mortalidade, com as regiões Norte e Nordeste apresentando os maiores índices, refletindo as desigualdades socioeconômicas e de acesso aos serviços de saúde(25).

CONCLUSÃO

Os dados analisados evidenciam a vulnerabilidade das gestantes e puérperas durante a pandemia de COVID-19, especialmente em relação à morbimortalidade associada à doença. A baixa adesão à vacinação foi um desafio importante, destacando a necessidade de campanhas de conscientização voltadas a esse público. Ademais, as disparidades regionais apontam a urgência de políticas públicas que garantam um acesso equitativo aos cuidados pré-natais e hospitalares. Medidas preventivas e educativas continuam sendo fundamentais para proteger a saúde materna e infantil diante de eventuais novas ondas pandêmicas.

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DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE

Os autores declaram não possuir nenhum tipo de conflito de interesse