CARACTERÍSTICAS SOCIODEMOGRÁFICAS E CLÍNICAS DA HANSENÍASE: ANÁLISE DE UMA DÉCADA (2012- 2022)

SOCIODEMOGRAPHIC AND CLINICAL CHARACTERISTICS OF LEPROSY: A DECADE ANALYSIS (2012–2022)

CARACTERÍSTICAS SOCIODEMOGRÁFICAS Y CLÍNICAS DE LA LEPRA: ANÁLISIS DE UNA DÉCADA (2012–2022)

Larissa Fernanda Silva Ribeiro¹; Gabriel Mateus Nascimento de Oliveira²; Maria Lúcia Lima Cardoso³.

¹ Acadêmica de Enfermagem do Centro Universitário Santa Terezinha-CEST; ² Mestre em Saúde Materno-Infantil, Docente do Centro Universitário Santa Terezinha-CEST; ³Mestre em Saúde Pública, Docente do Centro Universitário Santa Terezinha-CEST.

RESUMO

Objetivo: Analisar as características sociodemográficas e clínicas da hanseníase no Maranhão entre 2012-2022. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo, transversal, retrospectivo e quantitativo realizado no site DataSUS Tabnet, pelo Sistema de Informação e Agravo de Notificações. Considerou-se os dados de 2012 a 2022, estratificados em: características sociodemográficas (incluindo faixa etária, raça e escolaridade) e características clínicas (incluindo número de lesões, classificação operacional, apresentação clínica, avaliação de incapacidade e tipo de alta). Resultados: O total de notificações foi de 44.250, sendo o perfil epidemiológico caracterizado por homens (58,89%) de 40-69 anos (44,67%), da raça/cor parda (66,84%), com escolaridade cursada até o ensino fundamental (64,20%), apresentando mais de cinco lesões (35,37%), multibacilares (77,23%), na forma clínica dimorfa (53,56%), com grau zero de incapacidade (52,84%) e com esquema terapêutico PQT/MB/12 doses (78,22%). Conclusão: O estudo apresenta análise do perfil sociodemográfico e clínico das pessoas acometidas pela hanseníase no Maranhão.

DESCRITORES: Mycobacterium leprae; Hanseníase; Perfil de Saúde.

INTRODUÇÃO

A hanseníase é uma doença crônica de natureza infectocontagiosa, causada pelo Mycobacterium leprae, um bacilo que invade os nervos periféricos, principalmente as células de Schwann. A doença traz ainda consigo um ciclo vicioso de exclusão, estigma e preconceito, refletido nas relações sociais desses doentes1. Por conta disso, o termo hanseníase é uma criação recente no Brasil com o intuito de abrandar o estigma2. Entre as doenças transmissíveis, a hanseníase continua sendo uma das principais causas de neuropatia periférica e incapacidade funcional no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e é considerada um dos principais problemas de saúde pública no Brasil1.

 Esta enfermidade afeta sobretudo os nervos superficiais da pele e os troncos nervosos periféricos, localizados em áreas como face, pescoço, terço médio do braço e regiões abaixo do cotovelo e dos joelhos. Além disso, pode comprometer os olhos e órgãos internos, incluindo mucosas, testículos, ossos, baço e fígado, entre outros3. O modo de transmissão se faz por contato direto com doentes contagiantes sem tratamento, sendo considerada uma doença com alta infectividade, porém baixa patogenicidade4.

No Brasil, a hanseníase é uma doença endêmica e a região Nordeste registra uma alta circulação do bacilo, o que se justifica por questões relacionadas ao diagnóstico inadequado da doença e as deficiências na atenção básica4. O estado do Maranhão é hiperendêmico, sendo o 3º em taxa de detecção geral de casos novos de hanseníase por 100 mil habitantes, de 2010 a 20215. Com o objetivo de combater e tentar eliminar a doença, o Brasil difundiu o Programa Nacional de Controle de Hanseníase (PNCH) e suas atividades são realizadas no âmbito da Atenção Básica6.

De acordo com dados iniciais da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiental (SVSA), vinculada ao Ministério da Saúde, o Maranhão contabilizou, em 2022, mais de 2,1 mil novos casos de hanseníase. Desse total, 161 casos foram identificados em crianças com menos de 15 anos. A região nordeste liderou em números absolutos, somando 7.759 registros. Desse modo, em decorrência da alta quantidade de registros anuais, a doença ainda é considerada um problema de saúde pública7.

A hanseníase é uma doença presente desde a antiguidade2 por conta disso, o objetivo desse estudo foi analisar as características sociodemográfica e clínicas dos indivíduos com hanseníase no estado do Maranhão no período de uma década (2012-2022).  

MÉTODO

Foi realizado um estudo descritivo, transversal e retrospectivo, com abordagem quantitativa, através do Sinan- Sistema de Informação de Agravos de Notificações. O acesso a plataforma do Sinan para a coleta de dados foi através do DataSUS Tabnet, disponibilizados no site do Ministério da Saúde, de acesso aberto ao público. A estratificação dos dados levou em consideração o período de 2012 a 2022. Vale ressaltar que os dados estão divididos em dois grandes grupos: características sociodemográficas e características clínicas dos indivíduos com hanseníase.

No primeiro grupo, referente às características sociodemográficas, foi considerado o sexo (feminino e masculino), faixa etária (<5 a 70 ou mais), raça (branca, preta, parda, amarela, indígena e ign/branco) e escolaridade, que está subdividida em ensino fundamental (analfabetos, incompleto e completo), ensino médio (incompleto e completo) e ensino superior (incompleto e completo).

Já no segundo grupo, referente às características clínicas da doença, foi levado em consideração o número de lesões (nenhuma lesão, lesão única, 2-5, 5>), classificação operacional (paucibacilar, multibacilar, ign/branco), apresentação clínica (indeterminada, tuberculóide, dimorfa, virchowiana, ign/branco e não classificada), avaliação de incapacidade (grau 0, I, II, branco e não avaliado), esquema terapêutico (PQT/PB/6 doses, PQT/MB/12 doses, outros esquemas de substituição, ign/branco) e tipo de alta (cura, óbito, abandono ou outros motivos).

A coleta dos dados foi realizada no período de 18 a 25 de dezembro de 2023 e foram calculadas as frequências relativas e absolutas no software Excel 2010. Foram desconsiderados dados anteriores e posteriores ao período delimitado e demais dados epidemiológicos que não correspondem à hanseníase. Por se tratar de uma pesquisa que se utilizou de dados secundários de domínio público e sem identificação dos indivíduos notificados, buscados em bancos de dados que pertencem aos sistemas oficiais de informação de saúde, não há a possibilidade de violação de ética.

 RESULTADOS

O número total de notificações de hanseníase no estado do Maranhão entre 2012 a 2022 foi de 44.250. Desse total, observa-se que o maior número de casos foi no sexo masculino, com 26.079 notificações (58,89%). Já em mulheres, o número foi de 18.171 (41,11%).

Em relação ao ano de notificação, o ano de 2012 apresentou o maior número de casos, 4.842 (10,94%). Os números se mantiveram acima de 4.100 notificações até o ano de 2019, tendo uma redução para 2.588 (5,85%) em 2020, sendo esse o menor número de notificações registradas. Essa queda brusca traz uma questão pertinente sobre se houve uma redução verdadeira no número de diagnósticos de hanseníase ou apenas um aumento da subnotificação da doença em decorrência da pandemia do Covid-19. A hipótese da subnotificação ganha força quando, em 2022, os números voltam a subir (3.112 notificações, 7,00%), de acordo com a Tabela 1.

Tabela 1- Total de notificações de hanseníase por sexo, no Maranhão. 2012-2022.

Ano de notificação

Homens

Mulheres

Total por ano

n

n

n

%

2012

2.835

2.720

2.607

2.682

2.449

2.525

2.429

2.575

1.564

1.757

1.936

2.007

2.111

1.930

1.799

1.784

1.878

1.751

1.725

1.024

986

1.176

4.842

10,94

2013

4.831

10,91

2014

4.537

10,26

2015

4.481

10,14

2016

4.233

9,57

2017

4.403

9,95

2018

4.180

9,46

2019

4.300

9,72

2020

2.588

5,85

2021

2.743

6,20

2022

3.112

7,00

TOTAL

26.079

18.171

44.250

100

Fonte: Ministério da Saúde/ SVS: Sistema de Informação de Agravo de Notificação. Sinan Net, 2023.

Os dados apresentados na Tabela 2 evidenciam as características sociodemográficas de pacientes com hanseníase no estado do Maranhão entre os anos de 2012 e 2022. Em relação à faixa etária, a maior concentração de casos foi observada entre pessoas de 40 a 69 anos, representando 44,67% do total. Essa faixa foi seguida pelos grupos de 15 a 39 anos (36,69%), acima de 70 anos (10,22%) e menores de 15 anos, que somaram 8,42%. Em todas as categorias etárias, os homens apresentaram maior número de notificações quando comparados às mulheres.

No que diz respeito à raça/cor, os indivíduos que se autodeclararam pardos constituíram a maioria, com 66,84% dos casos. Os demais pacientes identificaram-se como pretos (16,14%), brancos (14,00%), ou foram classificados como ignorados ou brancos (1,76%). Grupos de menor representatividade incluíram os amarelos (0,95%) e os indígenas, que totalizaram apenas 0,32%. A predominância masculina foi evidente em todas as categorias de raça/cor.

Quanto ao nível de escolaridade, a maioria dos pacientes possuía até o Ensino Fundamental, com 64,20% dos registros. Além disso, 19,94% tinham o Ensino Médio, enquanto apenas 3,34% alcançaram o Ensino Superior. Casos em que não foi possível determinar o nível de escolaridade ou em que a informação foi considerada "não aplicável" corresponderam a 11,51%, e a categoria "não se aplica" representou 0,95%. Assim como nas outras variáveis, os homens foram maioria em todas as categorias de escolaridade.

Tabela 2- Características sociodemográficas da hanseníase segundo o sexo no Maranhão. 2012-2022

Características

Homens

Mulheres

Total

n

n

n

%

Idade

<15

2.045

9.510

11.631

2.893

1.684

3.729

8,42

15-39

6.755

16.265

36,69

40-69

8.160

19.791

44,67

>70

1.572

4.465

10,22

Raça/Cor

Ign/Branco

472

305

777

1,76

Branca

3.447

2.745

6.192

14,00

Preta

4.344

2.798

7.142

16,14

Amarela

242

178

420

0,95

Parda

17.478

12.101

29.579

66,84

Indígena

96

44

140

0,32

Escolaridade

Ign/Branco

3.170

1.927

5.097

11,51

Ens.Fundamental

17.555

10.878

28.433

64,20

Ens. Médio

4.555

4.265

8.820

19,94

Ens. Superior

579

899

1.478

3,34

Não se aplica

220

202

422

0,95

TOTAL

26.079

18.171

44.250

100

Fonte: Ministério da Saúde/ SVS: Sistema de Informação de Agravo de Notificação. Sinan Net, 2023.

Os dados da Tabela 3 revelam as características clínicas e epidemiológicas da hanseníase no Maranhão entre 2012 e 2022. Com relação ao número de lesões, observou-se que 35,37% dos pacientes apresentaram mais de cinco lesões, seguidos por aqueles com 2 a 5 lesões (28,61%) e com lesão única (22,86%). Além disso, 13,15% dos casos não apresentaram lesões visíveis.

No que se refere à classificação operacional, a forma multibacilar foi predominante, abrangendo 77,23% dos casos, enquanto a paucibacilar correspondeu a 22,65%. Apenas 0,02% dos casos não tiveram essa informação registrada. Em termos de apresentação clínica, a forma dimorfa foi a mais prevalente, sendo observada em 53,56% dos pacientes, seguida pela forma virchowiana (16,51%) e tuberculóide (11,81%). A forma indeterminada foi registrada em 10,26%, enquanto 4,45% dos casos não foram classificados. Registros ignorados ou em branco representaram 3,36%.

A avaliação de incapacidade revelou que 52,84% dos pacientes não apresentavam incapacidade física no diagnóstico (grau zero), enquanto 25,86% possuíam grau I e 8,14% grau II, indicando sequelas mais graves. No entanto, 8,12% não foram avaliados e 4,97% tiveram registros em branco. Em relação ao esquema terapêutico, a maioria dos pacientes foi tratada com PQT/MB (12 doses), correspondendo a 78,22% dos casos, enquanto 20,99% receberam PQT/PB (6 doses). Apenas 0,64% utilizaram esquemas alternativos, e 0,15% dos registros estavam incompletos.

Quanto ao tipo de alta, a maior parte dos pacientes foi registrada como curada (74,78%). Entretanto, 6,33% dos casos terminaram em abandono do tratamento, e 1,87% evoluíram para óbito. Outras causas de alta, incluindo transferência ou mudança de diagnóstico, representaram 17,02%.

Tabela 3- Características clínicas e epidemiológicas da hanseníase segundo o sexo, no Maranhão. 2012-2022

Características

Homens

Mulheres

Total

n

n

n

%

Número de Lesões

Nenhuma

3.875

4.404

7.156

10.644

1.942

5.723

5.514

4.992

5.817

13,15

Lesão Única

10.127

22,86

2-5 Lesões

12.670

28,61

5> Lesões

15.636

35,37

Classificação operacional

Paucibacilar

3.851

22.224

4

5.498

12.669

4

9.349

22,65

Multibacilar

31.893

77,23

Ign/Branco

8

0,02

Apresentação clínica

Indeterminada

1.994

2.158

14.286

5.501

888

1.252

2.547

3.065

9.431

1.811

597

720

4.541

10,26

Tuberculóide

5.223

11,81

Dimorfa

23.717

53,56

Virchowiana

7.312

16,51

Ign/Branco

1.485

3,36

Não classificado

1.972

4,45

Avaliação de incapacidade

Grau zero

12.683

7.172

2.662

1.351

2.211

10.726

4.283

940

845

1.377

23.409

52,84

Grau I

11.455

25,86

Grau II

3.602

8,14

Em branco

2.196

4,97

Não avaliado

3.588

8,12

Esquema terapêutico

PQT/PB/6 DOSES

3.820

22.064

164

31

5.469

12.549

118

35

9.289

20,99

PQT/MB/12 DOSES

34.613

78,22

Outros esq. Subs.

282

0,64

Ign/Branco

66

0,15

Tipo de Alta

Cura

19.290

587

1.640

4.562

13.797

242

1.160

2.972

33.087

74,78

Óbito

829

1,87

Abandono

2.800

6,33

Outras causas

7.534

17,02

TOTAL

26.079

18.171

44.250

100

Fonte: Ministério da Saúde/ SVS: Sistema de Informação de Agravo de Notificação. Sinan Net, 2023.

DISCUSSÃO:

A hanseníase é uma doença infecciosa, crônica, causada pelo bacilo Mycobacterium leprae e que afeta a pele e os nervos periféricos e pode acometer pessoas de diversas idades, independentemente de gênero (masculino ou feminino)8. Em relação ao sexo, a pesquisa demonstra que a maioria das pessoas acometidas eram do sexo masculino (58,93%), confluindo com outra pesquisa epidemiológica da doença no Estado do Tocantins, no período entre 2014 e 2016, demonstrando que 57% dos portadores da doença eram homens9. Outra pesquisa também concorda com esses resultados, em que 57,7% eram indivíduo do sexo masculino5. Em relação a pesquisas realizadas no Maranhão, estas também confluíram para essa mesma tendência, com 52,7% e 54,9% das notificações no sexo masculino em Pinheiro e Lago da Pedra, respectivamente10-11. Todas as pesquisas convergem com esse estudo em relação ao sexo mais afetado, possivelmente devido a padrões de comportamento social e maior envolvimento em atividades externas, como trabalhos em áreas rurais ou em ambientes mais propensos à exposição ao bacilo da hanseníase12.

Quanto ao ano de notificação, o estudo atual revela que 2012 foi o ano com o maior número de casos registrados (10,94%). Este dado reflete um padrão semelhante ao observado no Boletim Epidemiológico de Hanseníase (2024), que, ao analisar os casos de 2013 a 2022, também apontou 2013 como o ano com maior incidência de novos casos. Em ambos os estudos, observa-se que o maior número de casos foi registrado no ano mais distante do período analisado13. Outras pesquisas, realizadas em períodos mais curtos e mais recentes, entre 2014 - 2017 e 2015 - 2020 apontaram maior número de casos em 2017 e 2018, respectivamente 1-14.

A Hanseníase é uma doença que pode afetar crianças e adultos, entretendo, ressalta-se que a progressão da doença é lenta, e seu período de incubação é prolongado e pode durar anos8. Desse modo, evidencia-se nesta pesquisa a maior tendência de acometimento entre 40 a 69 anos, com 44,67%. O atual levantamento está em concordância com um estudo realizado no Piauí entre os anos de 2011 a 2015 que a faixa etária com maior número de casos masculinos foi entre 50 a 64 anos, com 879 casos15. Outro estudo aponta maior tendencia entre 35 a 49 anos (29,1%), seguida de 50 a 64 anos (24,2%)9.

Em relação à raça/cor, a mais atingida conforme o presente estudo foi a parda (66,84%).  Outro estudo demonstra também que a maioria dos casos novos ocorreu em pessoas pardas (58,3%), seguida das brancas (24,5%) e pretas (12,1%)13. Em outro estudo realizado no Maranhão com o objetivo de demonstrar o perfil epidemiológico da Hanseníase no período de 2018 a 2021 também mostraram que a parda foi a mais prevalente dentre os anos estudados16. Esses dados confluentes podem ser justificados no Maranhão pelo fato de que a maioria da população se auto identifica como parda, bem como possui grande miscigenação entre diversas etnias.

Em relação à escolaridade, a maioria das notificações estão entre indivíduos que concluíram até o ensino fundamental (64,2%). Estudos indicam que indivíduos com menor nível educacional têm maior probabilidade de desenvolver incapacidades físicas decorrentes da doença. Uma pesquisa realizada no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, revelou que pessoas sem escolaridade apresentaram 82% mais chances de incapacidades no diagnóstico de hanseníase em comparação àquelas com ensino fundamental completo17.

Em relação as características clínicas da doença, ressalta-se que a infecção pelo microrganismo resulta em lesões cutâneas características, como manchas hipopigmentadas ou eritematosas com perda de sensibilidade18. No presente estudo, observou-se que 35,37% dos casos apresentaram mais de cinco lesões. Em contraste, outras pesquisas mostraram que a maioria dos pacientes (31,7%) tinham entre 2 e 5 lesões cutâneas15.

A classificação operacional divide-se em dois grupos: Hanseníase paucibacilar (PB), caracterizada pela presença de uma a cinco lesões cutâneas e obrigatoriamente com baciloscopia negativa; e Hanseníase multibacilar (MB), caracterizada pela presença de mais de cinco lesões na pele e/ou baciloscopia positiva. Existe consenso em classificar como MB os casos de hanseníase que apresentam comprometimento de mais de um nervo periférico19. A hanseníase multibacilar foi a forma predominante, abrangendo 77,23% dos casos, enquanto a forma paucibacilar correspondeu a 22,65% no atual levantamento. Silva e colaboradores (2020) analisaram o perfil clínico-epidemiológico de pacientes portadores de hanseníase em um município maranhense no   período de 2015 a 2017 e mostraram que prevaleceu o registro de pacientes multibacilares, com 89% casos20. Outra pesquisa desenvolvida no município de Caxias –MA, observou que 62,3% casos se enquadram em multibacilar21.

A hanseníase apresenta diversas formas clínicas, que são: tuberculóide (HT), virchowiana (HV), dimorfa (HD) e indeterminada (HI). Essa classificação é importante, pois auxilia na identificação dos sinais e sintomas relacionados a cada manifestação da doença, além de permitir a correlação entre os aspectos dermatológicos, neurológicos, imunológicos e baciloscópicos19. Em relação à apresentação clínica, o maior número de casos nesse levantamento foi classificado como dimorfa (53,56%). Quanto à incapacidade física, a maioria dos indivíduos (52,84%) apresentou Grau Zero de Incapacidade. Esses achados corroboram com os estudos de Silva et al. (2020) e Façanha et al. (2019), que também identificaram a forma dimorfa como a mais prevalente em suas amostras, com taxas de 66,4% e 39,8%, respectivamente. Além disso, os dois estudos observaram que a maioria dos pacientes apresentava Grau Zero de Incapacidade Física, com proporções de 44% e 64,7%, respectivamente.20-21.

O tratamento da doença é feito com a Poliquimioterapia (PQT), que são medicamentos conhecidos como Rifampicina, Dapsona e Clofazimina. Ressalta-se que o tratamento interrompe a transmissão em poucos dias e também permite a cura da doença3. No presente estudo, a maioria dos indivíduos apresentaram o esquema PQT/MB/12 doses (78,22%), o que também é demonstrado em outra pesquisa, em que 60,3% dos indivíduos faziam uso do mesmo esquema21.

Por fim, relação ao tipo de saída, alta por cura foi predominante, sendo registrada em 74,78% dos casos. Nos estudos de Silva et al. (2020), Monteiro et al. (2017), e Santos et al. (2018), a maioria evoluiu para cura, com 54%, 67,2% e 72%, respectivamente20,15-4.  

Este estudo contribuiu para o entendimento do perfil epidemiológico da hanseníase no Maranhão, ao revelar dados sobre a prevalência e a distribuição das formas clínicas da doença. A amostra ampla e a abrangência geográfica, bem como o grande período analisado (uma década) proporcionaram uma análise robusta e representativa, destacando a importância de estratégias mais eficazes de diagnóstico e prevenção. Contudo, algumas limitações precisam ser consideradas, como a utilização de dados secundários, o que não permite o contato do pesquisador com o paciente, desconsiderando as particularidades de cada indivíduo, bem como não é possível fazer uma análise psicossocial, de autoimagem e autoestima dos pacientes frente a condição clínica.

4 CONCLUSÃO

Esse estudo apresentou uma análise robusta sobre as características sociodemográficas, clínicas e epidemiológicas dos indivíduos com hanseníase no estado do Maranhão em uma década. O perfil epidemiológico apresentou-se como homens de 40-69 anos, da raça/cor parda, com escolaridade cursada até o ensino fundamental, apresentando mais de cinco lesões, MB, na forma clínica HD, com grau zero de incapacidade e com esquema terapêutico PQT/MB/12 doses. Esses resultados apontam que, apesar da hanseníase ser uma doença antiga, ainda hoje o Maranhão é considerado hiperendêmico para a doença, e os números de notificações se mantiveram praticamente constantes, mesmo passando-se um período de uma década. Dentre as limitações encontradas nessa pesquisa, evidencia-se que os resultados ficam restritos ao tipo de estudo e pelos filtros escolhidos pelos autores. Visando uma compreensão aprofundada sobre os casos de hanseníase no Maranhão, sugere-se a continuidade desta pesquisa de forma mais abrangente, incluindo pesquisas sobre o ano do diagnóstico, analise da idade na hanseníase (<15 anos), análise do número de contatos e afins.

REFERÊNCIAS:

1 Tavares AMR. Epidemiological profile of leprosy in the state of Mato Grosso: descriptive study. Einstein. 2021;19:1-5. doi: 10.31744/einstein_journal/2021ao5622.

2 Faria L, Santos LAC. A hanseníase e sua história no Brasil: a história de um "flagelo nacional". Hist Cienc Saude-Manguinhos. 2015;22(4):1491-1495. doi: 10.1590/s0104-59702015000400016.

3 Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Guia prático sobre a hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde; 2017. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_pratico_hanseniase.pdf

4 Santos PJE. Perfil epidemiológico da hanseníase no município de Pinheiro – Maranhão. Scientia Generalis. 2022;3(1):314-322. Available from: http://scientiageneralis.com.br/index.php/SG/article/view/410/328

5 Oliveira TS, et al. Características socioeconômicas e epidemiológicas da hanseníase no Maranhão. Saúde Coletiva (Barueri). 2023;13(85):12612-12627. doi: 10.36489/saudecoletiva.2023v13i85p12612-12627.

6 Santos GRB, et al. Prevalência de hanseníase em São Luis-Maranhão entre os anos de 2013 a 2015. J Nurs Health. 2018;8(2):e188208.

7 Brasil. Ministério da Saúde. Maranhão registrou mais de 2,1 mil casos de hanseníase em 2022. Available from: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-para-os-estados/maranhao/2023/janeiro/maranhao-registrou-mais-de-2-1-mil-casos-de-hanseniase-em-2022

8 Ministério da Saúde de Minas Gerais. Hanseníase acomete mais homens que mulheres no território da SRS Juiz de Fora. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais; [cited 2024 Nov 26]. Available from: https://www.saude.mg.gov.br/sus/story/19354-hanseniase-acomete-mais-homens-que-mulheres-no-territorio-da-srs-juiz-de-fora

9 Novato KM, et al. Perfil epidemiológico da hanseníase no estado do Tocantins no período de 2014 a 2016. Rev Patol Tocantins. 2016;6(4):5. Available from: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/patologia/article/view/8008

10 Pinheiro Oliveira S, Lucena Silva LH, Brito JD, Ferreira BM, Carvalho CB, Parga LD, et al. Matriz de indicadores de hanseníase em Pinheiro – Maranhão de 2015 a 2017. SaudColetiv (Barueri). 2021;11(65):6196-305. Available from: https://revistasaudecoletiva.com.br/index.php/saudecoletiva/article/view/1613

11 Vieira SMS, et al. Perfil epidemiológico da hanseníase entre os anos 2015 e 2020, no município de Lago da Pedra, Estado do Maranhão. Hansen Int. 2020;45:1-20. doi: 10.47878/hi.2020.v.45.36814.

12 Brasil. Ministério da Saúde. Hanseníase acomete mais homens que mulheres no território da SRS Juiz de Fora. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais; [cited 2024 Nov 26]. Available from: https://www.saude.mg.gov.br/sus/story/19354-hanseniase-acomete-mais-homens-que-mulheres-no-territorio-da-srs-juiz-de-fora

13 Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico Hanseníase 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 Jan. Available from: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/especiais/2024/be_hansen-2024_19jan_final.pdf

14 Batista JVF, et al. Características epidemiológicas da hanseníase no Brasil entre os anos de 2015 e 2020. Braz J Infect Dis. 2022;26:102089. doi: 10.1016/j.bjid.2021.102089.

15 Monteiro MJSD, et al. Perfil epidemiológico de casos de hanseníase em um estado do Nordeste brasileiro. Rev Bras Cienc Saude. 2017;15(54):22-28. doi: 10.13037/ras.vol15n54.4766.

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17 Lages DS, Kerr BM, Bueno IC, Niitsuma ENA, Lana FCF. A baixa escolaridade está associada ao aumento de incapacidades físicas no diagnóstico de hanseníase no Vale do Jequitinhonha. HU Rev. 2018;44(3):303-9. Available from: https://pesquisa.bvsalud.org/ses/resource/pt/biblio-1048081

18 MSD Manuals. Hanseníase. Available from: https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/doen%C3%A7as-infecciosas/micobact%C3%A1rias/hansen%C3%ADase

19 Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_clinico_diretrizes_terapeutica_atencao_integral_pessoas_infeccoes_sexualmente_transmissiveis.pdf

20 Silva PSR, et al. Perfil clínico-epidemiológico de pacientes portadores de hanseníase em um município do Maranhão. Rev Eletr Acervo Saúde. 2020;12(8):1-11. doi: 10.25248/reas.e3468.2020.

21 Façanha ATF, et al. Análise das incapacidades físicas por hanseníase em uma cidade do interior do Maranhão, Brasil. Res Soc Dev. 2020;9(2):1-19. doi: 10.33448/rsd-v9i2.2055.