Transtorno do Espectro Autista na psiquiatria: panorama clínico e paradigmas sociais

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Prof. Patrick Leonardo Nogueira da Silva, Profa. Fabrícia Josely Oliveira Barbosa, Gabriela Lorena Guimarães Freire, Tiago Gusmão Freitas

 

A psiquiatria é uma especialidade responsável pelo diagnostico e tratamento de todas as questões de ordem mental, sendo uma delas o Autismo, hoje denominado de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o qual ainda apresenta muito estigma dentro da sociedade e, principalmente, dentro da própria família do portador em decorrência da falta de informação e preparo por parte dos próprios pais quanto aos cuidados que se devem ter. Em determinadas situações, a família superprotege a criança autista evitando que a mesma mantenha contato com outras pessoas para que não sofra preconceitos. Este isolamento social é um fator preditor para o agravamento do transtorno. Sendo assim, outra das funções do psiquiatra é intervir na ressocialização do portador, restabelecer a sua autoconfiança, bem como a sua autonomia nas atividades familiares e educacionais.

O TEA é definido como um transtorno no desenvolvimento neurológico da criança o qual predispõe a alterações na comunicação, bem como dificuldade ou até mesmo ausência de interação social e mudanças comportamentais. O portador de TEA apresenta algumas características específicas que devem ser observadas as quais possibilitam uma detecção precoce contribuindo para o estabelecimento do seu diagnóstico. São elas: (1) mantém pouco ou nenhum contato visual; (2) apresentam dificuldade para falar ou expressar idéias ou sentimentos; (3) fica desconfortável em situações sociais; (4) podem apresentar movimentos repetitivos.

Sobre esses movimentos repetitivos, é importante salientar que este tipo de comportamento faz parte da vida do portador de TEA, porém podem ser encontrados em pessoas neurotípicas, ou seja, que não possuem transtorno psíquico, não lhes trazendo qualquer impacto social ou em sua saúde física ou mental devido ao maior controle psicomotor. Essa repetição de movimentos é denominada, clinicamente, de estereotipia, que, por definição, são ações repetitivas ou ritualísticas vindas do movimento, da postura ou da fala. As estereotipias tendem a acontecer em momentos em que o portador encontra-se bombardeado por estímulos cujas ações repetitivas ajudam-no a reorganizar-se e processar seus sentimentos. Alguns entendem esta característica como algo prazeroso, de modo a acalmá-lo, concentrá-lo e a aliviar os sintomas ansiosos.

No ano de 2013, a American Psychiatric Association revisou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) de modo a incluir quatro subtipos de autismo no TEA que variam de leve a grave, sendo classificados como: (1) Síndrome de Asperger; (2) Transtorno Invasivo do Desenvolvimento – TID; (3) Transtorno Autista; e (4) Transtorno Desintegrativo da Infância – TDI. O primeiro subtipo está na extremidade mais branda do espectro autista, pois a inteligência pode ser alta e a capacidade de realizar as atividades diárias é preservada. No entanto, a dificuldade na interação social é muito comum. O segundo subtipo inclui a maioria das crianças com autismo mais grave do que a Síndrome de Asperger, mas não tão grave quanto o transtorno autista. O terceiro subtipo é mais grave que os dois primeiros e o quarto subtipo é o mais grave deles, sendo constituídos por crianças que se desenvolvem normalmente e depois perdem as habilidades sociais, de linguagem e cognitivas, geralmente entre 2 e 4 anos.

O TEA não é tido como uma doença, mas sim um modo diferente de expressão e reação perante a sociedade. Apesar de não ter cura, o transtorno não se agrava com o processo de senilidade, ou seja, não apresenta caráter neurodegenerativo. Quanto mais precoce o diagnóstico, mais cedo se inicia o tratamento predispondo a uma melhor qualidade de vida e autonomia. Além disso, o portador pode ter dificuldade para dormir, nervosismo ou agitação freqüente. Ainda, podem ter a capacidade de lembrar-se de detalhes e/ou acontecimentos por muito tempo, bem como ter a facilidade para aprender ou aprimorar outras habilidades, tais como leitura, música, números, artes, dentre outras.

O diagnóstico é clínico e deve ser feito por meio de equipe multidisciplinar. Na criança, o diagnóstico é feito através de observação comportamental, de informações a respeito da idade dos pais, informações sobre a gestação e o parto da mãe, e por meio da realização de alguns testes diagnósticos (laboratoriais e auditivos) para descarte de outras patologias. Em adultos, o diagnóstico é mais difícil pelo fato dos sintomas serem semelhantes a outros transtornos, tais como ansiedade e Transtorno do Déficit de Atenção e de Hiperatividade (TDAH). Ao perceber os sinais clássicos, deve-se agendar uma consulta com o psiquiatra para investigação e monitoramento dos sinais e sintomas.

A causa do TEA ainda não é muito bem definida tendo em vista que este transtorno é multifatorial, ma configuram possíveis causas: (1) hereditariedade, pois pessoas que apresentam irmãos com a síndrome têm maior risco; (2) doenças genéticas, tais como a Síndrome de Down, a Síndrome do X frágil, a Síndrome de Rett e a esclerose tuberosa, aumentando o risco; (3) fatores ambientais, ou seja, gravidez de alto risco, pais com idade avançada, parto induzido, uso de drogas lícitas e ilícitas na gestação e baixo peso ao nascer.

O tratamento do portador de TEA é instaurado para controle dos sintomas proporcionando uma melhor qualidade de vida, bem como de sua autonomia dentro da própria família e da sociedade. A terapêutica é baseada no uso de medicamento e suplementos, tais como antipsicóticos (risperidona e aripiprazol), melatonina, probióticos e ômega 3; sessões com fonoaudióloga para melhora da fala e da comunicação; terapia comportamental para facilitar as atividades diárias; e terapia de grupo para a melhoria da socialização.

Portanto, o trabalho articulado da equipe multiprofissional é de grande importância no acompanhamento do TEA. A assistência integral no pré-natal, parto (pré-parto e pós-parto) e puerpério contribuem para atenuar a incidência deste transtorno propiciando um aumento na qualidade de vida da criança/adolescente e da família. Deve-se trabalhar a promoção das informações pelos profissionais de saúde, bem como a inclusão dentro das escolas de modo a reinseri-lo na sociedade. Ainda, portadores deste transtorno possuem o direito a um tratamento especial conforme prevê a Lei 13.146, de 6 de julho de 2015, o qual institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência).

 

Fonte: Prof. Patrick Leonardo Nogueira da Silva (Mestrando pelo PPGCPS/UNIMONTES); Profa. Fabrícia Josely Oliveira Barbosa (Mestre pelo PPGGSS/UFMG); Gabriela Lorena Guimarães Freire, Tiago Gusmão Freitas (Acadêmicos de Medicina pela FUNORTE).

Foto Ilustrativa: Freepik

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