Enfermagem: uma profissão que ultrapassa o ato de cuidar

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Neste ano, com a pandemia da COVID-19, aprendemos a ter um olhar mais humanizado para as/os profissionais da Enfermagem

Por Daiane Brito

Dia 12 de maio comemora-se mundialmente o Dia da Enfermagem e o Dia do Enfermeiro, em homenagem a Florence Nightingale, marco da enfermagem moderna no mundo e que nasceu em 12 de maio de 1820. Além do Dia do Enfermeiro, no Brasil, entre os dias 12 e 20 de maio, comemora-se a Semana da Enfermagem, data instituída por volta dos anos 40, em homenagem a duas grandes personagens da Enfermagem no mundo: Florence Nightingale e Ana Néri, enfermeira brasileira e a primeira a se alistar voluntariamente em combates militares.

Essas comemorações são muito significativas para a categoria, pois reforça a importância do papel das enfermeiras e dos enfermeiros no atendimento à saúde das populações. Mas, especialmente neste ano o mundo inteiro está aprendendo a ter um olhar mais humanizado para as/os profissionais da Saúde, em decorrência do desempenho que estão tendo frente ao combate à pandemia da COVID-19.

Em entrevista para a Revista Nursing a professora e enfermeira, Carmela Lília Espósito de Alencar Fernandes, 53 anos, diretora jurídica do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Pernambuco, fala sobre como os profissionais da enfermagem estão enfrentando a crise pandêmica provocada pelo novo coronavírus.

Revista Nursing: Como está sendo, para a Enfermagem, viver a realidade de uma pandemia?   

Carmela Lília Espósito: Talvez este esteja sendo o maior desafio para os profissionais da minha geração, viver uma pandemia a qual existe um nivelamento de classes sociais e países. É muito complexo vivermos uma pandemia sem conhecermos direito a fisiopatologia da doença e a etiopatogenia. Nós apenas temos noção, agora mais concreta, dos meios de transmissibilidade, mesmo assim isso gera muita insegurança porque ainda não sabemos como se dá totalmente o mecanismo da cura. É muito delicado viver uma pandemia, pois o nosso Sistema de Saúde não tem maturidade para acolher tantas pessoas que estão migrando para ele. Nós sabemos que o Brasil está atravessando uma crise política econômica muito grande e o Sistema Único de Saúde (SUS) passa por um período crítico. Ele está vivendo o primeiro ano da Emenda Constitucional 95, a qual foi chamada de “Emenda da Morte”, porque ela congela os gastos com a saúde por 20 anos. Decorrente deste ser o primeiro ano, houve inicialmente um despreparo do Sistema de Saúde para acolher essa grande demanda que veio aportar nas portas dos Serviços de Saúde, considerando que já temos uma superlotação de outras patologias, que são próprias do Sistema Único. Como foi declarado estado de calamidade pública facilitou um pouco, porque isso veio fazer com que outras rubricas financeiras pudessem vir gerar recursos para a aquisição de materiais médicos hospitalares, medicamentos, gastos com pessoal, contratação de recursos humanos e posse de concursados. Infelizmente não deu tempo de fazer novos concursos porque foi tudo muito urgente. Aqui em Pernambuco, por exemplo, o Sindicato conseguiu a posse dos concursados, mas só nas vacâncias, e conseguimos que houvesse uma contratação imediata de seleção simplificada, o que não é um modelo muito adequado para se trabalhar no SUS, mas foi o modelo emergencial que nós conseguimos mediar para que não houvesse escassez de mão de obra nesse período.

Nursing: Quem está cuidando dos profissionais da saúde?

Carmela: É uma pergunta bastante interessante! Passamos anos na invisibilidade. O profissional de Enfermagem não era sequer notado e der repente ele sai do pano de fundo para o protagonismo do Serviço de Saúde. E esse protagonismo veio com aplausos na janela, com gratidão das pessoas, mas isso ainda não repercutiu no esperado pela categoria, que trabalha 40 horas e luta por salários justos, próximos ou equiparados a outras categorias com função tão importante quanto. Então esse seria um bom momento para cuidar desses profissionais e movimentar campanhas para que seja conquistado o reconhecimento da tão sonhada jornada de 30 horas semanais e o piso salarial nacional.

Atualmente nós estamos recebendo ajuda de voluntários do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), que acolhe o trabalhador no aspecto psicológico, com o objetivo de manter a estabilização psicológica desse profissional que está exposto ao risco, que tem contato diário com a morte e que, em alguns casos tem os seus colegas atendidos nos próprios serviços, sendo assistidos em unidades de terapia intensiva. Tudo isso gera uma desestabilização emocional muito grande nesses profissionais e hoje eu posso dizer que o Conselho Federal tem esse serviço para prestar cuidado emocional à categoria.

Para finalizar é importante dizer que o profissional de enfermagem — eu me refiro aos enfermeiros, técnicos e auxiliares — precisa de uma valorização concreta que repercuta na sua vida profissional e pessoal. Ele precisa ter o reconhecimento de uma carga horária justa (30 horas semanais) e o piso salarial nacional, porque dessa forma nós conseguimos enxergar ou vislumbrar um futuro melhor para essa categoria que está mostrando a sua essência e o seu protagonismo no âmbito da saúde nacional, seja ela primária, secundária, terciária ou quaternária. É a primeira vez em 31 anos de formada (fui formada pela Universidade de Pernambuco em 1988) que eu vejo em uma matéria de repercussão nacional o Enfermeiro vir antes do que qualquer outra categoria da área de saúde. Então é nesse momento que a gente precisa que o profissional da Enfermagem tenha o seu valor reconhecido pela sociedade. Nós não somos heróis e nós não queremos palmas na janela, nós queremos de fato um reconhecimento que nos é devido historicamente pela sociedade.

Foto acervo pessoal

Foto acervo pessoal

Carmela Lília Espósito de Alencar Fernandes

Mestre em Perícias Forense, Especialista em Saúde Pública, Especialista em Enfermagem Forense, Especialista em Metodologia do ensino superior, Enfermeira auditora interna do Hospital Militar de Área do Recife – Exército Brasileiro, Enfermeira do Complexo Hospitalar da Universidade de Pernambuco, Diretora Jurídica do  Sindicato dos Enfermeiros de Pernambuco, Conselheira Efetiva do Conselho de Saúde do Estadual de Pernambuco, Membro da Comissão Nacional de Enfermagem Forense – COFEN, Membro da Comissão de Perícias Forense da OAB PE, Presidente da Regional da SOBENFEE – Pernambuco, Professora da Faculdade IDE e Professora da Especializa Cursos em João Pessoa e Campina Grande.

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