Edição 263 – Confira na edição de Abril da Revista Nursing Brasil

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Estomaterapia no Brasil: sua história e perspectivas

Maria Angela Boccara de Paula Enfermeira
Estomaterapeuta Professor Doutor do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Humano da Universidade de Taubaté. Editor do Brazilian Journal of Enterostomal Theraphy -Revista Estima. Presidente da Associação Brasileira de Estomaterapia: estomias, feridas e incontinências – SOBEST ( gestão 2018-2020).

A estomaterapia é uma especialidade exclusiva do enfermeiro. Surgiu na década de 1950 na Cleveland Clinic ,nos Estados Unidos da América. Norma N.Gill – Thompson paciente do médico cirurgião Dr Ruppert Turnbul, foi submetida a um procedimento cirúrgico, devido a uma doença inflamatória crônica intestinal, que resultou na confecção de uma ileostomia. Norma Gill desenvolveu ótimas habilidades para o autocuidado e, assim foi convidada por seu médico para auxilia-lo nas orientações de outros pacientes que necessitavam de uma estomia intestinal como parte de seu tratamento. Assim, surge a estomaterapia.

Norma Gill começa então a realizar cursos para profissionais e leigos e gradativamente o cuidado da pessoa com estomia se espalha pelos EUA e para o mundo. Foi nos EUA que surgiu a primeira organização de enfermeiros que hoje e conhecida como WOCN Society – Wound, Ostomy and Continente Nursing Society. E pouco tempo depois, Norma Gill, com sua percepção visionária estimula a criação do Conselho Mundial de Estomaterapia- WCET – World Council of Enterostomal Theraphy, que em 1980 definiu  a estomaterapia como exclusiva do enfermeiro. Desta forma a especialidade cresce dentro da Enfermagem e expande seus campos de trabalho.

Em virtude do cuidado da pele periestomia e do desenvolvimento tecnológico para o cuidado especialmente da dermatite periestomia, os especialistas passam a dar atenção também às pessoas com feridas crônicas e agudas e, posteriormente às pessoas com incontinência anal e urinária. Desta forma a estomaterapia tem três importantes áreas de abrangência: o cuidado de pessoas com estomias de qualquer natureza, incontinência anal e urinaria e a prevenção e tratamento de feridas, envolvendo ainda o cuidado de tubos, drenos e cateteres.

No Brasil a especialidade teve início em 1990 na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, quando teve início a primeira turma do curso de especialização em estomaterapia sob a coordenação da Enfermeira Estomaterapeuta Professora Doutora Vera Lúcia Conceição de Gouveia Santos e do médico coloproctologista Dr Afonso Henrique Souza Silva Junior. Esse foi o único curso no Brasil até 1999, quando em Fortaleza, na Universidade Estadual do Ceará inicia-se a primeira turma no nordeste brasileiro e em 2000 o primeiro curso do interior paulista na Universidade de Taubaté. Hoje existem 25 cursos de especialização acreditados pela SOBEST no país, sendo o Sudeste a região que concentra maior número de especialistas no Brasil.

Em dezembro de 1992, apenas dois (2) anos após o início da primeira turma de especialização foi fundada a Sociedade Brasileira de Estomaterapia (SOBEST), que posteriormente passou a se chamar Sociedade Brasileira de Estomaterapia: estomias, feridas e incontinências e atualmente denomina-se Associação Brasileira de Estomaterapia: estomias, feridas e incontinências, devido as mudanças do Código Civil brasileiro.

A SOBEST é uma associação científica cultural sem fins lucrativos que por meio de sua diretoria e associados realiza muitas ações para o desenvolvimento da especialidade no país e em conjunto com os cursos de especialização e especialistas altamente engajados na divulgação e compartilhamento do conhecimento científico na área, vem fazendo diversas e diferentes atividades que auxiliam profissionais a realizarem o cuidado especializado com qualidade na busca pela excelência. Dentre essas ações destacam-se os Congressos, Simpósios, Cursos de Extensão, Palestras, Conferências, além da publicação de livros, cartilhas educativas, ações na comunidade, participação de especialistas em programas de rádio, televisão, redes sociais e outros.

Neste ano completa-se 30 anos da especialidade no Brasil e pode-se dizer com certeza que a estomaterapia brasileira é composta por especialistas dedicados que buscam por melhorias na sua prática independe ou institucional, vez que muitas instituições de saúde já possuem serviços especializados de estomaterapia e até o cargo de enfermeiro estomaterapeuta. Além disso, algumas conquistas também fazem parte da trajetória da estomaterapia no Brasil, como a Portaria 400, do Ministério da Saúde que define as orientações gerais para o serviço de atenção à saúde das pessoas com estomias no Brasil, a luta por inclusão de materiais específicos para o cuidado de pessoas com estomias, feridas e incontinências no âmbito dos sistema público e privado de saúde, a contribuição na definição de necessidades e qualidades de produtos específicos para prevenir ou cuidar de pessoas com necessidades especiais de saúde nessas três grandes área de abrangência da especialidade, participação de especialistas brasileiros na elaboração de protocolos assistências e em consensos internacionais e muitas outras ações.

A estomaterapia é uma especialidade que vem crescendo e ganhando espaço no campo da saúde, o estomaterapeuta é um profissional hoje reconhecido pela equipe de saúde e vem ganhando destaque na sociedade de maneira geral. Muito já foi realizado e conquistado, mas ainda há muito a ser feito e para tal se faz necessário a participação de todos os especialistas na busca da manutenção da qualidade de formação dos novos estomaterapeutas e no engajamento por maiores e melhores espaços.  A trajetória na especialidade contribuirá não só para estas conquistas em uma área específica da profissão, mas será extremamente importante para o reconhecimento da importância do enfermeiro no cuidado à saúde das pessoas.

Capa da Revista Nursing Edição 263

Referências

1 -) Stevens PJ. Development of Enterostomal Therapy as na International Nursing specialty. In: Erwin-Toth P; Krasner D.L. Enterostomal Therapy Nursing: Grow & Evolution of a nursing specialty worldwide. Cambridge Publishing, 2012.

2-) Thuler SR, Boccara de Paula MA, Silveira NI (orgs). SOBEST: 20 anos. Campinas, Arte Escrita, 2012.

3-) Santos VLCG, Cesaretti IUR. Evolução da enfermagem em Estomaterapia no decorrer de sua história. In: Santos VLCG, Cesaretti IUR. Assistência em estomaterapia: cuidando de pessoas com estomias. São Paulo: Ateneu, 2015, p. 1-14.

4-) Boccara de Paula MA, Santos VLCG. O Significado de ser especialista para o enfermeiro estomaterapeuta. Rev Latino-am Enfermagem , v, 11, n.4, p.474-82. julho-agosto, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v11n4/v11n4a10. Acesso em: 04 jul 2019.

 

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