Edição 262 – Confira na edição de Março da Revista Nursing Brasil

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Depressão na equipe de enfermagem: sofrimento do profissional e implicações na prática assistencial

Gabriela Feitosa Esplendori
Enfermeira, graduada pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP). Mestre em Ciências pela EEUSP. Doutoranda pela Programa de Pós-Graduação em Saúde do Adulto (PROESA) da EEUSP.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu 2020 como o ano da Enfermagem e das Parteiras chamando a atenção para a importância e necessidades da categoria e, há cerca de um mês, o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) apoiou a campanha Janeiro Branco sobre a Saúde Mental. Assim sendo, é oportuno pontuar a depressão entre profissionais de enfermagem devido implicações na estrutura e processos e, portanto, nos resultados (assistência de enfermagem).

Transtorno mental, a depressão atinge 300 milhões de pessoas em todo o mundo prejudicando o convívio familiar e a produtividade no trabalho, sendo as mulheres mais propensas a desenvolvê-la. Caracterizada por tristeza, perda de interesse / prazer, sentimento de culpa, baixa autoestima, sono e apetite perturbados, cansaço e falta de concentração (os quais podem interferir na qualidade do cuidado prestado), a depressão é associada à tuberculose e doenças cardiovasculares, bem como em casos  graves, pode levar ao suicídio.

Os fatores relacionados à depressão podem ser: estado civil, renda familiar, insatisfação, turnos rotativos, situações de sofrimento ou morte do paciente, estresse, falta de autonomia, sobrecarga de trabalho. Estudos internacionais e nacionais mostram que a depressão é realidade entre profissionais de enfermagem e quando observamos o perfil sociodemográfico e profissional da equipe de enfermagem, segundo relatório do Cofen/Fiocruz, notam-se características que poderiam concorrer para a depressão como o sexo e sobrecarga de trabalho, com a expressiva predominância de mulheres na categoria e jornada de trabalho de 40 a 80 horas semanais, cujas prevalências são 35,4 % e 28,8% nos setores privado e público, respectivamente.

Tais dados concorrem para a reflexão de que, se há enorme jornada de trabalho, há necessidade de investimento em quantitativo de profissionais de enfermagem e melhor remuneração da categoria, não somente no cenário nacional mas também no internacional. De fato, há necessidade de mais 9 milhões de enfermeiros e parteiras para cobertura universal de saúde até 2030. Soma-se a este cenário, o impacto gerado pelo absenteísmo nos serviços de saúde devido afastamentos por desordens mentais, como a depressão, o qual inevitavelmente resulta em intensificação da sobrecarga de trabalho para os profissionais presentes em unidades de trabalho, caso a instituição não possua Índice de Segurança Técnica em seu dimensionamento.

Destarte, a segurança do paciente (resultado da estrutura organizacional e processos assistenciais) pode sofrer reflexos da maior sobrecarga de trabalho sofrida por alguns profissionais ou das consequências do sofrimento físico e psíquico do profissional que mesmo apresentando sinais e sintomas de depressão, ainda exerce suas atividades. Interessante haver descrição na literatura de que sintomas depressivos e Burnout (exaustão, despersonalização e baixa realização pessoal) podem ter implicações na percepção de enfermeiros hospitalares quanto à segurança do paciente.

Enfim, a enfermagem necessita ser cuidada a nível de políticas institucionais para prevenção e tratamento de desordens mentais como a depressão, pois se faz necessário investir na estrutura e processos para assegurar dois direitos fundamentais: o do profissional, de manter completo bem-estar físico, mental e social; e o do paciente, de receber uma assistência humanizada e segura.

Capa da Revista Nursing Edição 262

Referências

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World Health Organization. Health topics. Depression. [citado em 2020 fev. 04]. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/depression#tab=tab_2

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Santana LL, Sarquis LMM, Brev C, Miranda FMD, Felli VEA. Absenteísmo por transtornos mentais em trabalhadores de saúde em um hospital no sul do Brasil. Rev. Gaúcha Enferm. 2016; 37(1):e53485.

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