Edição 261 – Confira na edição de Fevereiro da Revista Nursing Brasil

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2020 – Nightingales do século XXI, uni-vos!

Prof.ª Dra. Camila Takáo Lopes
Enfermeira, Mestre e Doutora em Ciências, Profa Adjunta da Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, e Codiretora do Diagnosis Development Committee da NANDA International, Inc.

“A menos que estejamos progredindo na nossa Enfermagem a cada ano, a cada mês, a cada semana, acredite, estamos regredindo.”

(Florence Nightingale, 1872, tradução livre)[1]

“Um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”: a amplamente conhecida definição de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) evidencia seu caráter multidimensional e a impossibilidade de abordá-la adequadamente a partir de uma perspectiva única, instituindo como premissa a necessidade do olhar interdisciplinar. Nessa perspectiva, a Enfermagem, enquanto disciplina científica, tem estruturado seu corpo específico de conhecimentos por meio da construção do “cuidado”, historicamente qualificado como respeitável objeto de estudo apenas em meados do século XIX, por Florence Nightingale (1820-1910).

Em um período em que os cuidados corporais ao paciente eram considerados inadequados ou indecentes para mulheres jovens não casadas ou de famílias de alta posição social, em que a alimentação e higienização de outrem eram classificadas como tarefas domésticas que não demandavam habilidades ou treinamento, uma jovem mulher de alta classe econômica, formalmente educada, com conhecimento aprofundado de idiomas, literatura e matemática, abraçou seu desejo de ser enfermeira, para desapontamento de sua família. Esse desejo se tornaria uma revolução: a transição da era vocacional – de uma ocupação de má-reputação – para a era profissional – baseada em honra e avanços científicos, ou a fundação da Enfermagem moderna.

O reconhecimento da influência do ambiente na saúde, a introdução da ciência sanitária nos hospitais militares durante a Guerra da Criméia (1854-1856), com consequente redução drástica de mortalidade dos soldados, a publicação dos livros “Notas sobre Questões que Afetam a Saúde, Eficiência e Administração Hospitalar do Exército Britânico” (1858) e “Notas sobre a Enfermagem: O Que É e o Que Não É” (1859) e o estabelecimento da escola de Enfermagem no St Thomas’ Hospital em Londres (1860) foram alguns dos marcos científicos revolucionários que projetaram Nightingale ao olhar público, como reformista social.

Durante décadas, Nightingale foi consultora quanto às políticas públicas, e, a despeito do caráter profundamente patriarcal da sociedade então vigente, foi a primeira mulher admitida na Royal Statistical Society (1858), dado seu trabalho pioneiro com infográficos estatísticos. Foi também a primeira mulher a receber a distinção Order of Merit (1907), a mais alta condecoração britânica, e, no contexto militar, foi condecorada com a Royal Red Cross (1883). Em sua homenagem, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha criou, em 1912, a Medalha Florence Nightingale, a mais importante distinção internacional para profissionais de enfermagem.

A relevância dessa contextualização histórica se reafirma em 2020, o 200o aniversário do nascimento dessa mulher competente, respeitada, influente, líder e ícone cultural – um mito! É o ano em que os enfermeiros foram considerados, pelo 18o ano consecutivo, os profissionais mais honestos e éticos nos EUA. É ano de conclusão da iniciativa da OMS e do Conselho Internacional de Enfermeiros, a Campanha Nursing Now! (2018-2020), que busca valorizar a contribuição dos profissionais de Enfermagem na garantia e ampliação do acesso à saúde da população.

Nessa conjuntura, a OMS designa 2020 como Ano Internacional da Enfermagem, em que haverá destaque para o reconhecimento do trabalho dos enfermeiros e parteiros, defesa de investimentos profissional e melhoria de suas condições de trabalho, educação e desenvolvimento. Trata-se de celebrar a contribuição desses profissionais, que correspondem, respectivamente, a 50% e 60% da força de trabalho da saúde mundial e brasileira. De forma a embasar diálogos políticos sobre o fortalecimento dos enfermeiros e parteiros, para direcionar investimentos nessa força de trabalho pelos próximos três a cinco anos, em busca da Cobertura Universal de Saúde e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, é necessária uma base de evidências sobre o papel desses profissionais. Tal base deverá ser fornecida por dois relatórios da OMS, a serem publicados em maio de 2020: State of the World’s Nursing – que fornecerá uma descrição técnica da Enfermagem nos Estados-Membro, incluindo número e tipo de enfermeiros, formação, regulamentação, prática, liderança e questões de gênero – e State of the World’s Midwifery – que relatará o progresso e futuros desafios para prover serviços de obstetrícia efetivos e de qualidade.

A despeito da representatividade quantitativa nas equipes de saúde, a Enfermagem enfrentará escassez de pessoal de até 9 milhões para atingir a meta de Cobertura Universal de Saúde até 2030. Ainda que respondam por 90% do contato dos pacientes com profissionais de saúde, os enfermeiros frequentemente não participam das decisões sobre as políticas de saúde. Destarte, os enfermeiros e parteiros do século XXI são conclamados a tornar visível seu protagonismo no sistema de saúde, compartilhando suas excepcionais contribuições, e a celebrar o legado da Dama da Lâmpada, perseguindo revoluções diárias perante os desafios contemporâneos que se impõem, desde as transformações nos cuidados à saúde, até o respeito pela profissão e sua expertise.

Capa da Revista Nursing Edição 261

Referências

[1] A Selection from Miss Nightingale’s Addresses to Probationers and Nurses for the Nightingale School of St. Thomas Hospital. 1872. Disponível em: https://archive.org/details/florencenighting00nighiala/page/x. Acesso em 2020 jan 13.

 

 

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