Burnout do médico dobra risco de incidente para paciente

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Desgaste causado pelo burnout deve ser contemplado nas políticas de segurança do paciente, alerta pesquisadora.
Uma pesquisa britânica indica que profissionais da saúde com esgotamento emocional, a chamada Síndrome de burnout, cometem mais erros médicos e que o problema pode se espalhar para outros membros da equipe. Os pesquisadores da Universidade de Manchester analisaram 47 estudos sobre o assunto, feitos com mais de 42 mil profissionais de medicina, e chegaram à conclusão de que médicos com a síndrome de burnout expõem os pacientes ao dobro do risco de sofrer algum incidente na assistência à saúde.
Os incidentes de segurança do paciente foram definidos pelos pesquisadores como “quaisquer eventos não intencionais ou condições perigosas resultantes do processo de tratamento e não relacionados à doença do paciente, que resultaram ou poderiam ter resultado em riscos à saúde do paciente”. Nessa categoria foram colocados os eventos adversos, efeitos adversos a medicamentos ou outros incidentes terapêuticos e de diagnóstico.
A síndrome de burnout é uma condição médica definida pela Classificação Internacional de Doenças (CID) como “estado de exaustão vital”. Sua denominação deriva da expressão inglesa “to burn out”, que significa queimar por completo, consumir-se. Na medicina, foi utilizada pela primeira vez em 1974, pelo psicanalista americano Herbert Freudenberger, para descrever indivíduos que apresentavam estresse emocional crônico, com desgaste emocional e desmotivação como resultado de suas atividades profissionais. O teste desenvolvido em 1981 pela psicóloga Christina Maslach mostra que o burnout se manifesta em três dimensões básicas: exaustão emocional (o indivíduo se sente cronicamente sobrecarregado e emocionalmente fatigado no local de trabalho), despersonalização ou a sensação de se tornar desconectado do receptor de seus serviços (dos pacientes, no caso de médicos) e falta de realização pessoal (ele sente que seus esforços não têm resultado positivo).
O novo levantamento mostra que os médicos com burnout são os mais propensos a falhar em aspectos fundamentais do profissionalismo: adesão às diretrizes de tratamento, prescrição de exames e alta, deficiência na capacidade de se comunicar e se colocar no lugar do paciente. Por isso, recebem três vezes mais feedbacks negativos dos pacientes. A falta de conexão com o paciente, causada pelo esgotamento emocional, foi o fator que teve as ligações mais fortes com esses resultados.
A maior parte dos estudos analisados, 31,9%, tratava de médicos europeus. Outros 21,3% avaliaram médicos dos Estados Unidos e 19,1% de outras regiões do mundo. Os resultados da associação entre burnout médico e incidentes e baixo profissionalismo não diferiram significativamente entre as diferentes regiões. O estudo listou como os motivos mais comuns para o esgotamento “os enormes esforços gastos com burocracia e papelada, a grande quantidade de tempo gasto no trabalho e a falta de respeito dos administradores e empregadores”. A percepção de que a compensação não era adequada também está na lista. “É menos provável que os médicos sofram burnout quando desempenham um papel diversificado, ou seja, quando combinam o trabalho clínico com outros tipos de responsabilidades, como gestão, ensino ou pesquisa e quando não estão sobrecarregados com tarefas burocráticas”, disse, em entrevista ao IBSP – Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente, a psicóloga Judith Johnson, professora da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e uma das autoras do estudo.
No Brasil, não há dados sobre a taxa de esgotamento emocional entre os médicos. “Estima-se que os valores sejam semelhantes à média mundial, com incidência entre 27% e 40%, variando de região para região”, diz Alexandrina da Silva Meleiro, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo e coordenadora da Comissão de Atenção à Saúde Mental do Médico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). As causas de burnout entre médicos brasileiros não diferem muito das que afetam profissionais de outros países: é uma mistura das dificuldades da profissão com as condições precárias de trabalho, principalmente na rede pública. “As pessoas têm expectativas de realização que são frustradas pela realidade”, afirma Alexandrina.
O papel de combate ao problema no Brasil é dos Conselhos de Medicina, com ações de conscientização que ressaltam a importância de atividades recreativas e de relaxamento fora do trabalho, além de um tempo reservado para o descanso. “O profissional precisa aprender a estabelecer limites e a dizer não. Às vezes, mudar o local de trabalho também ajuda”, explica Alexandrina. Essas medidas são importantes, mas não superam sozinho o estresse imposto pelas condições de trabalho, que também precisam ser revistas. “Mudanças devem ser feitas para dar aos médicos mais controle sobre sua carga de trabalho e horário de trabalho, e para garantir que eles tenham intervalos de descanso regulares”, afirma Judith, da Universidade de Leeds. A psicóloga ainda ressalta a importância de treinamento psicológico que preparar os médicos para os desafios que irão enfrentar na profissão.
O estudo britânico conclui que os padrões atualmente considerados como relevantes para a segurança do paciente estão incompletos, pois negligenciam um fator essencial que é o bem-estar do profissional de saúde. Com isso, os pesquisadores atestam que as organizações de saúde têm o dever de melhorar as condições de trabalho dos médicos e estar atentas para evitar que eles sejam acometidos por esgotamento emocional. “Reduzir o burnout é fundamental para garantir um sistema de saúde sustentável”, afirma Judith.

Fonte: IBSP

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