Baixa qualidade da saúde mata mais do que dificuldade de acesso

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Problemas de qualidade são responsáveis por 60% das mortes evitáveis em países pobres e em desenvolvimento.
Um levantamento inédito divulgado ontem no The Lancet, uma das revistas médicas mais prestigiadas no mundo, revela que apenas resolver o problema da falta de acesso aos serviços de saúde está longe de melhorar as condições de saúde da população.
Pesquisadores da Universidade Harvard, Emory e Stanford, nos Estados Unidos, analisaram as mortes que poderiam ter sido evitadas caso os pacientes tivessem recebido bom atendimento em 137 países de baixa renda ou em desenvolvimento – o Brasil foi um deles. A conclusão foi surpreendente: mais pacientes morreram em decorrência de serviços de saúde de baixa qualidade do que por falta de acesso a eles. Quase 60% das mortes que poderiam ter sido evitadas ou postergadas nesses países aconteceram em razão de problemas de qualidade da assistência. Isso significa que, entre 8,6 milhões de mortes que não deveriam ter acontecido, 5 milhões foram causadas por serviços ruins. É um número cinco vezes maior do que todas as mortes no mundo causadas por HIV e/ou Aids e três vezes mais do que por diabetes. As mortes em razão de falta de assistência somaram 3,6 milhões.
As regiões em que problemas de qualidade são mais graves compreendem áreas no centro do continente africano, além da Índia, Paquistão e Afeganistão. Nesses lugares, até 208 pessoas a cada 100 mil habitantes morrem por terem sido atendidas em um serviço de saúde ruim. O Brasil está em uma situação menos precária, de acordo com o levantamento: entre 53 e 74 pessoas a cada 100 mil habitantes são vítimas fatais da baixa qualidade da saúde. Essa faixa de mortalidade, onde também estão incluídos países como México e Argentina, é o segundo melhor índice encontrado pela pesquisa. Os registros mais baixos de mortes evitáveis giram entre 7 e 52 fatalidades a cada 100 mil habitantes, em países como Peru, Colômbia e China (mapa acima).
O levantamento integra uma nova safra de estudos sobre a qualidade da saúde antecipada por Donald Berwick, presidente emérito do Institute for Healthcare Improvement (IHI), durante o Fórum Internacional de Qualidade e Segurança, que aconteceu em Amsterdã, na Bélgica, em maio. Berwick anunciou três grandes relatórios que estavam para ser publicados e que, juntos, tinham potencial para ser um turning point tal qual foi, em 1999, o relatório do então Institute of Medicine, o Err is Human. Na época, foi ele que colocou no mapa o problema dos erros na assistência à saúde e destacou como fundamental resolver a questão. “A qualidade da saúde no mundo hoje está uma bagunça”, resumiu Berwick, em sua apresentação de maio.
O primeiro relatório foi divulgado em junho: uma colaboração entre Banco Mundial, Organização Mundial da Saúde e OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) concluiu que a qualidade da assistência atrasa a melhoria da saúde no mundo. Segundo dados da publicação, nos países pobres e em desenvolvimento, 10% dos pacientes são vítimas de infecções hospitalares evitáveis e, nos países desenvolvidos, a situação não é muito melhor: 7% sofrem com infecções e 1% será vítima de eventos adversos durante tratamentos de saúde.

Fonte: IBSP

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