Acompanhamento dos distúrbios do neurodesenvolvimento infantil: uma abordagem clínica, fisiopatológica e multiprofissional

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Prof. Patrick Leonardo Nogueira da Silva, Ana Flávia Mota Cordeiro, Natália Soares Mendes, Nathália Nepomuceno da Silva, Tiago Gusmão Freitas

 

O desenvolvimento infantil pode ser definido como um processo evolutivo e constante do aprendizado pelo qual as crianças passam para adquirir e aperfeiçoar diversas capacidades de âmbito cognitivo, motor, emocional e social. Ao atingir a maturidade funcional e conquistar determinadas capacidades psicomotoras, a criança passa a manifestar certos comportamentos e ações, tais como pronunciar a primeira palavra, conseguir se equilibrar dando os primeiros passos, dentre outros momentos importantes os quais são esperados a partir de uma determinada idade. Esse processo acaba por ser um conjunto de aprendizados que, aos poucos, vão gerar independência e autonomia na criança para a realização de suas próprias atividades diárias.

O desenvolvimento infantil, no que concerne ao campo da cognição, pode ser subdividido em quatro fases, sendo elas: (1) sensório-motor; (2) pré-operatório; (3) operatório concreto; (4) operatório formal. A primeira fase data desde o nascimento até os dois anos de vida da criança o qual há o desenvolvimento da capacidade de se concentrar em sensações e movimentos. Com essa habilidade, o bebê começa a ganhar consciência de movimentos que, anteriormente, eram involuntários. Durante esse período, ocorre o desenvolvimento da coordenação motora. A segunda fase ocorre dos dois aos sete anos de vida da criança e é onde ocorrem as representações da realidade dos próprios pensamentos, ou seja, a criança não tem a real percepção dos acontecimentos, mas sim a sua própria interpretação. Ainda, observa-se um acentuado egocentrismo, a necessidade de dar vida às coisas, uma curiosidade pela origem das coisas representada pelos “porquês” e a exploração da imaginação. Na terceira fase, que ocorre dos oito aos 12 anos, manifesta-se o início do pensamento lógico concreto de modo que as normas sociais, bem como o senso de justiça, já começam a fazer sentido para a criança. E na quarta e última fase que se inicia a partir dos 12 anos, a criança já detém a capacidade de compreender situações abstratas e distingui-las, bem como experiências de outras pessoas.

O desenvolvimento infantil é marcado por eventos comportamentais e habilidades únicas que devem ocorrer de forma gradativa e fisiológica em determinadas faixas etárias da criança. É importante salientar que esses eventos podem acontecer mais precocemente ou mais tardiamente para umas crianças do que para outras, mas uma variação de tempo excessivamente grande pode significar algum distúrbio de desenvolvimento. Durante o processo de desenvolvimento, a criança evolui em diferentes aspectos de sua formação. A evolução não se dá somente no crescimento físico da criança, mas também na sua parte afetiva, cognitiva e social. Os principais fatores que podem impactar o desenvolvimento infantil são: (1) ambiente onde a criança vive; (2) hereditariedade (os seus pais, avós e demais ancestrais); (3) alimentação; (4) problemas físicos.

Neste contexto, é importante saber diferenciar o conceito de três palavras que, muitas das vezes, são utilizadas como sinônimas, sendo elas: “síndrome”, “distúrbio” e “transtorno”. As síndromes constituem um conjunto de sinais e sintomas que define as manifestações clínicas de uma ou várias doenças ou condições clínicas, independentemente da etiologia que as diferencia. Os distúrbios são manifestações sistêmicas as quais atrapalham o bom funcionamento do corpo podendo causar uma perturbação e/ou desajuste de caráter orgânico e/ou psíquico. E os transtornos são alterações na saúde que nem sempre está associado a uma doença propriamente dita, embora representem grandes incômodos para um paciente e, na maior parte dos casos, são de ordem psíquica.

Os distúrbios do neurodesenvolvimento são caracterizados como problemas neurológicos que podem comprometer a aquisição, retenção, ou aplicação de habilidades ou conjuntos de informações específicos. Podem envolver um déficit proprioceptivo tendo em vista a atenção, a memória, a percepção, a linguagem, a solução de problemas ou a interação social. Esses distúrbios podem variar desde um grau de intensidade leve e ser de fácil controle com terapêutica baseada em intervenções comportamentais e educacionais ou podem ser de caráter mais graves, e as crianças afetadas, bem como suas famílias, podem precisar de mais apoio. Os distúrbios do neurodesenvolvimento incluem: (1) Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH); (2) Transtornos do Espectro Autista (TEA); (3) Dificuldades de aprendizagem, como dislexia e deficiências em outras áreas acadêmicas; (4) Deficiência intelectual; e (5) Síndrome de Rett, sendo este um distúrbio raro, de origem genética o qual ocorre quase exclusivamente em meninas afetando o desenvolvimento após um período inicial de desenvolvimento normal de seis meses.

O diagnóstico de transtorno mental na infância e adolescência pode repercutir em grandes impactos, tanto para o paciente quanto para os seus familiares. A sobrecarga familiar decorrente da doença configura um ponto de grande impacto, ou seja, a experiência de ter um membro da família com doença mental mobiliza toda a família no seu dia-a-dia a estar comprometida com os cuidados. E, com isso, surge um segundo ponto de impacto que é a diversidade de sentimentos gerados na família. Pode gerar um sentimento inexplicável, um vazio, medo, tristeza, vergonha, piedade, e uma baixa condição da qualidade de vida. A culpabilização e a autonegação da doença do familiar, quando alimentada, podem gerar outros preconceitos que atrapalham o relacionamento com uma pessoa doente. Em razão disto, todo comportamento inadequado é mostrado como resultado de erros. O apoio multidisciplinar é o melhor tipo de cuidado prestado a uma criança com distúrbio do neurodesenvolvimento, sendo feito por uma equipe multidisciplinar que inclui: Clínico geral, Neurologistas ou pediatras especializados em desenvolvimento, Ortopedistas, Assistentes sociais, Fonoaudiólogos, Audiologistas, Terapeutas ocupacionais, Fisioterapeutas, Psicólogos, Nutricionistas, Pedagogos e Professores.

Portanto, o trabalho articulado da equipe multiprofissional é de grande importância no acompanhamento destes distúrbios do neurodesenvolvimento infantil, que podem ocorrer desde o período embrionário, a depender da causa, até depois da adolescência. A assistência integral no pré-natal, parto (pré-parto e pós-parto) e puerpério contribuirão para atenuar a incidência destes distúrbios considerando, principalmente e, dentre outras, as causas tóxicas, infecciosas, metabólicas e estruturais propiciando um aumento na qualidade de vida da criança/adolescente e da família. Ainda, portadores destes distúrbios possuem o direito a um tratamento especial conforme prevê a Lei 13.146, de 6 de julho de 2015, o qual institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência).

 

Fonte: Prof. Patrick Leonardo Nogueira da Silva (Mestrando pelo PPGCPS/UNIMONTES); Ana Flávia Mota Cordeiro, Natália Soares Mendes, Nathália Nepomuceno da Silva, Tiago Gusmão Freitas (Acadêmicos de Medicina pela FUNORTE).

Foto Ilustrativa: Freepik

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